28 de outubro de 2020

Nossas Letras

Os desaparecidos

As pessoas continuam sumindo. Inclusive em nossa cidade - Sônia Machiavelli

Nossas Letras 09/10/2020
Sônia Machiavelli
Especial para o GCN
A gente perde uma carteira e fica preocupada, principalmente se dentro dela estavam nossos documentos. Refazemos caminhos, perguntamos às pessoas, fazemos até promessas para reencontrá-la. A gente perde a chave de casa e o transtorno é enorme. Precisamos chamar o chaveiro, temos de esperar até que ele possa nos atender, ficamos estressados. A gente perde o anel que nem era de ouro, podia ser de vidro e se quebrar, mas representava muito na nossa história pessoal, algo que só a nós diz respeito e é grande e profundo. Sentimos. A gente perde a mala numa viagem e mesmo sabendo que vai recebê-la no hotel onde se hospedará fica inquieta até que ela apareça em nossa porta, encaminhada pela companhia aérea, porque dentro dela estão mais que nossas roupas, está a nossa intimidade.

Essas coisas materiais ínfimas desaparecem de nossa vista e ficamos mancos diante da situação. Imagine o leitor o que seja ter um filho desaparecido. Olho a foto do Wesley Pai na sua moto e me comovo diante desse homem incansável, que junto com sua mulher, ambos pais de Wesley Filho, há mais de um mês busca incansavelmente pelo menino. Já moveram céus e terra e até agora, nada.

Eles não são um caso isolado. Quando você acabar de ler este texto, uma pessoa terá sumido de casa deixando familiares angustiados às vezes pelo resto de suas vidas. Pelo menos onze desaparecem por hora no Brasil, de acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública para uma pesquisa do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Por ano são cerca de 200 mil pessoas, 40 mil menores de 18 anos. Dentre esses, cerca de 10% a 15% somem misteriosamente, sem deixar vestígios.

O estado de São Paulo lidera as estatísticas. Na avaliação da presidenta da ONG Mães da Sé, Ivanize Santos, entrevistada pelo jornalista Correa Neves Junior no programa “A hora é essa” e no live do GCN, o quadro, além de preocupante, é resultado direto do descaso com que são tratados os casos pelas esferas governamentais. “Nós vivemos no estado mais rico da federação e que não tem políticas públicas voltadas para o amparo às famílias que perderam um ente querido por desaparecimento”, afirma Ivanize. Há 23 anos ela luta pela causa, desde que sua filha, então com 13 anos, sumiu a 100 metros da porta de sua casa, na periferia de São Paulo. Essa mãe e milhares de outras cobram do poder público o cumprimento da legislação definida, por exemplo, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que, no artigo 87, atribui ao município a responsabilidade de criar mecanismos para a localização de jovens desaparecidos. Você, leitor, já ouviu esse tema em debate? Eu não.

As pessoas continuam sumindo. Inclusive em nossa cidade. Há mais de um ano, o Sr. José Berdu, com doença de Alzheimer, desapareceu nos poucos minutos em que a esposa o deixou num banco e atravessou a rua para ir a um comércio. As buscas incessantes da família redundaram em nada. Com tantas câmeras nos filmando por todo lado, como isso é possível? Pois é. E por que somem as pessoas? Se buscarmos nos sites especializados, encontraremos

inumeráveis razões. Wesley, 13 anos, não se encaixa em nenhuma delas. Bom filho, bom irmão, bom amigo. Aluno comprometido, ainda fez a lição passada pela professora na aula on line, antes de sair de casa dizendo às irmãs que iria ao supermercado. Não voltou. Isso aconteceu há mais de um mês, precisamente seis semanas. Tenho acompanhado a saga dos pais e demais familiares do menino que correm para todo lugar de onde venha uma pista. Até agora, todas inconsistentes.

Fico pensando como seria importante ter um Sherlock Holmes ou um Poirot para usarem de toda sua expertise de detetives e encontrarem Wesley. Onde quer que esteja o menino. Porque a indefinição é um martírio diário. Nenhum pai, nenhuma mãe merecem isso.



COMENTÁRIOS

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  • Ana Maria
    11/10/2020
    Eu conheci um homem que fugiu de casa Quando era criança. Pegou vários ônibus. Não soube voltar . Na delegacia os policiais levaram ele para uma casa de crianças sem lar , casa de adoção, lá registraram ele com outro nome . Ele morou lá até completar os 18 anos. E hoje ele procura pela mãe. Que na época morava tbm em São Paulo. Hoje o nome dele não é mais o mesmo . Mais ele escreveu a história dele no face , no grupo de desaparecidos. Esse menino assim como outros podem ter sido levadas para casas de adoção de crianças. É uma esperança.
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