24 de outubro de 2020

Opinião

Professores

Se você é professor, ou professora, parabéns. Você é um pilar do nosso futuro.

Opinião 18/10/2020
Lúcia Brigagão
Especial para o GCN
Segundo pesquisa, o Dia do Professor nasceu num 15 de outubro de 1827, quando o imperador D. Pedro II instituiu decreto que criava o Ensino Elementar do Brasil, juntamente com a inauguração de escolas de primeiras letras em todos os vilarejos e cidades do país. Ao longo de anos, comemorei o 15 de Outubro, de muitas maneiras. Várias experiências, de diferentes gerações. As primeiras comemorações foram realizadas num distante ano da segunda metade do século passado – artifício para não revelar que foi nos anos 50.

Nos idos anos 50, alunos do curso primário, meus irmãos e eu, tremíamos na presença dos professores, ídolos meio que deuses na nossa vida. Éramos família pobre, mas muito limpinha, que morava na Vila Flores e estudávamos no IETC, que ficava num bairro distante para onde íamos amontoados na bicicleta do meu pai, muito mais forte que qualquer caminhonete ou rabo de peixe da época. Ou de hoje. Não sei como, mas cabíamos os três, mais pastas com cadernos e lápis, mais lancheiras cheias, amontoados assim, pela ordem: o condutor,  dois meninos no cano que ligava selim ao guidão e o terceiro, na garupa. Não necessariamente nesta ordem. E não me lembro se chovia naqueles tempos.  A imagem do meu pai - Superpai, creio, começou a ser elaborada nessa época. No 15 de outubro, além dos meninos, pastas, lancheiras e o condutor, ainda iam raminhos de flores mais algum pacotinho com alguma guloseima que mamãe insistia em fazer para presentear nossos professores: Dona Carmen Nogueira Nicácio, dona Laura Mello e dona Noquinha. Lembro que meu pai – desafinadíssimo – cantava enquanto conduzia sua tralha. Lembro-me que nós ríamos de tudo e de nada. Lembro-me que éramos felizes. E essas lembranças me são extremamente doces.

Professores eram a nata da sociedade. Venerados, respeitados, acho que eram mais altos que os atuais: olhavam a gente de cima. Calávamos quando em presença deles. Eram bravos, exigentes. Preocupados com nosso bem-estar e saúde. Convidados para as festas de nossos aniversários, nem sempre compareciam: mas se nos davam a honra, eram tratados como celebridades nas nossas pequenas casas. Cometiam erros, às vezes eram injustos, não eram muito flexíveis com nossas faltas. Cobravam além de nossas capacidades. Mas aprendíamos. Cumpríamos a trajetória escolar muitas vezes com louvor, e representantes daquelas gerações daqueles distantes anos da segunda metade do século passado ainda têm papel importante na vida do nosso munícipio na atualidade. Deixaram e ainda deixam suas marcas.

Um dia o professor virou tio. A professora virou tia. Fiquei bastante preocupada: não eram meus irmãos, nem do meu marido, não eram meus parentes, como assim, “tios” dos meus filhos? É chamamento carinhoso, a coordenadora explicou. É para criar clima afetivo entre o professor e o aluno, explicou. Discordei profundamente. Mas fui voto vencido. E ganhei dezenas de irmãos e irmãs, com quem jamais convivi. A maioria me era absolutamente desconhecida.  De repente dei pela ausência do  Delegado de Ensino nas comemorações e festividades importantes da cidade, nas cerimônias de diplomação, principalmente. Naquelas mesas tinha Bispo, tinha Delegado de Polícia, tinha Miss qualquer coisa, tinha profissionais de quase todas as áreas, menos representante da Educação. Acho que nem nas diplomações escolares tinha professor na mesa...

O professor passou a ganhar muito menos – começou a dar aulas em três períodos para sobreviver. Ficou sem tempo para se preparar intelectualmente. Foi desafiado à sobrevivência. Começaram as faltas de educação para com ele, cresceu o desrespeito por sua presença – na sala de aula ou nos lugares que frequenta.  Ser professor não é mais carreira que os pais sonham para os filhos. Nada disso, porém, impede que homenageie meus antigos antigos professores, que abrace aqueles que me ajudaram a educar meus filhos e que contribuem ainda,  dentro de seus limites, para melhorar as condições intelectuais de nosso povo. Acredito que o Brasil ainda possa acordar e voltar a valorizar essa figura importante da nossa sociedade.  

Se você é professor, ou professora, parabéns. Você é um pilar do nosso futuro.



COMENTÁRIOS

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  • nilson salomão
    18/10/2020
    Lúcida como sempre. A desvalorização do professor e do ensino talvez tenha sido a pior perda que sofremos nos últimos anos.
  • Vicente
    5 dias atrás
    https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2020/10/governo-bolsonaro-quer-acabar-com-aumento-real-de-piso-salarial-de-professor.shtml.
  • darsio
    4 dias atrás
    O Vicente lembrou muito bem. BOLSONARO JÁ SE MOBILIZA PARA ACABAR COM A LEI DO PISO. Lei esta que, prevista na constituição, foi regulamentada pelo governo Lula e, que graças a ela os professores tiveram importantes ganhos salariais nessa última década. Se depender do Bolsonaro, o professor voltará a ganhar algo muito próximo de um salário mínimo. Isso se tratando de um profissional que teve e tem de fazer pesados investimentos na sua formação superior e que lida com a responsabilidade de educar multidões de jovens e crianças. E, em que pese todos esses investimentos e importância de seu trabalho, em média o professor recebe bem menos que um vereador ou parente de político contratado como assessor, para os quais não se exige preparo algum. E, para os críticos aos professores, que fique claro que desejar salários a altura de suas responsabilidades e investimentos na carreira, não configura crime, mas um direito que infelizmente é negado veementemente pelos nossos governos. Enfim, que os professores sejam cobrados por resultados, mas que essa cobrança seja acompanhada de condições de trabalho decentes e de salários dignos. Afinal, o Brasil jamais engrenará no atual estágio tecnológico e científico se não atender a sua população com educação de qualidade. E, educação de qualidade também passa pela valorização do professor incluindo salários a altura de sua importância nesse processo.
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