26 de janeiro de 2021

Nossas Letras

Sapatilhas negras

Minha crônica de hoje nasceu da tristeza e indignação ao ler comentários de brasileiros que diante do assassinato, por seguranças brancos, de João Alberto, 41, negro, no estacionamento de um Carrefour em Porto Alegre - Sonia Machiavelli

Nossas Letras 05/12/2020
Sonia Machiavelli
Especial para o GCN
Nos primórdios do teatro brasileiro, atores negros não eram admitidos nas companhias. O que fazer quando havia personagem negro no drama? Simples: pintavam de preto um ator branco. Resolviam a questão de forma primitiva.

Nas primeiras telenovelas, não mais usavam tinta para escurecer brancos, mas destinavam aos atores negros papéis secundários, geralmente domésticos, operários, entregadores, ou, o que era muito pior, cachaceiros e meliantes.

No cinema acontecia a mesma coisa, ainda quando o ator era Grande Otelo, que mereceu superlativos elogios de Orson Welles, icônico cineasta que o considerou extraordinário. O cenário não mudou muito, até final do século passado.

Na literatura, não foi menos doloroso o racismo. Que o digam as biografias de Cruz e Souza, Lima Barreto, Carolina Maria de Jesus. A da maranhense Maria Firmina dos Reis, que ousou publicar trinta anos antes da Abolição o romance “Úrsula”, onde descreve os horrores da escravidão nas entrelinhas de uma história de amor na zona rural maranhense. Bem perto de nós, temos dois exemplos de como nossa sociedade continua preconceituosa. O francano Abdias do Nascimento, nome maior quando se fala da luta contra o racismo, sentiu as desditas da humilhação na Franca dos anos 40. Carlos de Assumpção, francano por adoção e afetos, só recentemente foi reverenciado na medida de seu valor, com sua poesia sendo comparada à de Carlos Drummond de Andrade. Voltando no tempo, até Machado de Assis, cuja genialidade não conseguiu ser esmagada pelo peso da elite branca, sofreu por mais de um século processo de branqueamento da parte de editores que tornaram suas fotos cada vez mais brancas. Só recentemente elas foram reconfiguradas.Muitas vezes é assim, de forma sutil, que o preconceito aflora.

Soube de uma história que mostra isso de forma bem nítida. Ingrid Silva, 31, carioca do morro da Mangueira, começou a dançar aos oito anos, num projeto social chamado “Dançando para não dançar”. Desde o início os professores perceberam seu talento. Dez anos depois de dedicação exclusiva, Ingrid chamou a atenção de uma norte-americana que assistiu a uma apresentação da jovem na quadra da Mangueira. Resumo da ópera: hoje ela é a primeira-bailarina do Dance Theatre of Harlem e a criadora do EmpowHer New York, uma rede de visibilidade para mulheres negras.

Em setembro, o poderoso Instituto Smithsonian exibiu no seu site peça recém- incluída no seu acervo: um par de sapatilhas de ponta, com desgaste na biqueira e duas fitas costuradas à mão nas laterais. Detalhe: a peça estava pintada de marrom-escuro. Era um dos signos da história de Ingrid, que passou anos pintando suas sapatilhas com uma base líquida para combinar com sua pele. Só existiam no mercado sapatilhas rosa-claro, cor mais próxima da pele das bailarinas europeias, até que há apenas três anos a Gaynor Minden criou outras nuances de cor para bailarinas negras. A de Ingrid passou a configurar, no Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana em Washington, um ato político.

Todos os casos que citei pertencem ao campo das artes, sempre mais aberto e mais livre. Imagine-se o que não sucede em outros segmentos. O preconceito racial subjaz como raiz de planta daninha, que mesmo cortada e queimada renasce quando e onde menos se espera, porque suas sementes são poderosamente resistentes e o vento as leva em todas as direções. É bom não esquecer que o racismo é fenômeno social que permeia nossa vida individual e molda, muitas vezes de forma inconsciente, o jeito como enxergamos o mundo e reagimos aos estímulos externos.

Minha crônica de hoje nasceu da tristeza e indignação ao ler comentários de brasileiros que diante do assassinato, por seguranças brancos, de João Alberto, 41, negro, no estacionamento de um Carrefour em Porto Alegre, disseram e escreveram: “ Isso não foi racismo.” Pois sim!



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