20 de janeiro de 2021

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Fotografias

Desapego. Junto com Gratidão, duas das palavras mais valorizadas, pensadas e debatidas nos últimos tempos - Lúcia Brigagão

Nossas Letras 12/12/2020
Lúcia Brigagão
Especial para o GCN
Desapego. Junto com Gratidão, duas das palavras mais valorizadas, pensadas e debatidas nos últimos tempos. Têm sentido profundo e são atitudes que apenas pessoas com alto grau de espiritualização e comprometimento com os semelhantes serão capazes de praticar em sua plenitude. Pequena e diminuta, considero que, eventualmente sou capaz de me sentir grata – principalmente pela dádiva da vida e pelas experiências que ela me oferece. Mas incapaz, reconheço, de abrir mão de coisas que considero minhas, ainda que por vezes supervalorizadas, às vezes completamente sem sentido, na visão alheia. Uma delas, a coleção de fotografias antigas que herdei de minha avó materna.

Dizem, fui criança daquelas que tinham bicho carpinteiro no corpo. Irrequieta, desassossegada, agitada, turbulenta. Só aquietava com livro, algum trabalho manual que exigisse absorção e concentração. Ou com boa história. Minha avó tinha mala baú, daquelas de papelão, nem grande nem pequena, mas abarrotada de fotografias e papéis. Quando eu me tornava inviável, a paciência de minha mãe pelas tabelas; quando ameaças já não surtiam efeito e minha avó estava por perto, lá ia eu para o colo dela. Em frente à mesa ela se sentava e me punha no colo. Abria a mala, retirava uma por uma aquelas fotos amareladas e me contava a história de gente que eu conhecia, viria a conhecer, não teria oportunidade de conhecer porque já eram falecidas – recente ou em tempos distantes. E eu me perdia naqueles relatos. Tinha foto de mortos no caixão e eu não sentia medo: as fisionomias eram calmas e algumas, até bonitas. Tinha fotos de casamentos de casal e, no mesmo envelope, outras dos filhos que produziram junto com convites, lembranças, cartas. Quando eu já não cabia mais no colo dela e tinha achado outras maneiras de me distrair, as fotos do baú foram guardadas. Ficaram anos sobre o guarda-roupa do quarto dela, local onde eram depositadas lembranças materializadas, dentro de caixas e em pacotes amarrados.

Fui privilegiada. Quando vovó partiu, mamãe distribuiu as relíquias dela na família. Pouca coisa: jogo de jarra e copos, pratos, compoteiras, xícaras, bibelôs que ficavam sobre a penteadeira do quarto ou dentro da cristaleira. A mala de fotografias ela delicadamente pegou e me entregou dizendo que ninguém tinha tanto direito a ela, quanto eu. Guardei. Um dia, escolhi as mais expressivas daquelas fotos e mandei emoldurar. Coloquei-as na parede, num corredor de casa. Minha particular galeria, cheia de gente que conheci, que nunca vi, mas que me estavam conectadas afetivamente por suas histórias de vida, contadas por minha avó. Histórias e fisionomias ora alegres, ora tristes, nenhuma de medo, todas edificantes. Formaram legião dos meus Anjos da Guarda durante os quase quarenta anos em que estiveram velando por mim e pela minha família.

Vejo aproximar-se a hora de me desfazer destas preciosidades, junto com outras, que não caberão no espaço que a vida futura generosamente me oferecerá.  Vejo aproximar-se a hora de me desapegar não apenas das fotos mas de muitos outros itens que acumulei pela vida. Terei coragem? É o que me pergunto recorrentemente...

Quem é a moça da foto? Prima Euzébia. Sobrinha do bisavô Francisco Emílio de Araújo, no dia de sua formatura no curso do magistério. Como titularidade era rara entre as mulheres, a efeméride era marcada por pompa e circunstância. Algumas tiravam a foto com daminha de honra, tal o significado e importância da formatura e do grau social que alcançavam. Professora Euzébia,1936. Está lá, no verso.



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