20 de janeiro de 2021

Nossas Letras

Coisas importantes

A polonesa Olga Tokarczuc definiu no seu livro “Viagens” as “coisas importantes” do mundo como “aquelas que são únicas e sobre as quais paira uma terrível ameaça de destruição.” - Sonia Machiavelli

Nossas Letras 12/12/2020
Sonia Machiavelli
Especial para o GCN
Apaixonada por árvores, fiquei boquiaberta ao virar a página de uma publicação específica e encontrar a foto de gigantesca escultura vegetal cujo tronco mede 7,13 metros e tem de altura 40. Esse colosso da natureza foi encontrado recentemente no Sul da Bahia, região icônica por ser aquela que recebeu os desembarcados da nau de Pedro Álvares Cabral. O primeiro a ter a atenção voltada para o espetáculo vegetal foi o guia Uanderson Mattos, morador do município de Itamaraju. Ele contatou então Ricardo Cardim, que há quatro anos pesquisa árvores gigantes que ainda permanecem de pé na Mata Atlântica, reduzida a 12 por cento do que era em 1500. O que o mateiro identificara tinha respaldo nos conhecimentos do botânico e do empreendedor ambiental Alex Vicentim. Tratava-se de um exemplar de Pau-Brasil. Pelas rugas do tronco (sim, as árvores também contam os anos assim), ambos calcularam sua idade em 600 anos. Ou seja, já era centenária quando os colonizadores chegaram.

O entusiasmo que sentiram logo se transformou em preocupação, pois há receio de que a árvore possa ser abatida por motosserras traiçoeiras. A gente entende. Fôssemos um país de cultura diferente, onde as palavras respeito e cuidado houvessem sido cultivadas pra valer desde a infância das gerações que aqui se sucederam, esse temor não existiria. Ao contrário, e como se vê em países realmente desenvolvidos, as autoridades desenvolveriam um projeto para resguardar essa espécie e transformar o local em ponto turístico. Afinal, o nome de nossa pátria não deriva da árvore engolida aos milhões pelos cascos dos navios portugueses ? Há um simbolismo implícito nesse exemplar de Pau-Brasil que resistiu à sanha do explorador e conseguiu se manter vivo para olhares do século XXI. Por isso a foto está fazendo parte da mostra Remanescentes da Mata Atlântica, no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. Agora esses homens imprescindíveis, Ricardo Cardim e Alex Vicentim, seguirão para a Amazônia, a fim de encarar trabalho parecido. Por incrível que possa parecer, outra espécie que deveria nos ser muito cara, o Ipê, oficialmente a árvore símbolo do Brasil, está desaparecendo da maior floresta do planeta.

Em nossa cidade nos encantamos a cada final de inverno, quando essas árvores magníficas começam a anunciar a chegada da primavera: irrompem primeiro as flores de cor roxa, depois as róseas, enfim a brancas. Mas há outras sete espécies (inclusive uma verde) que não conhecemos por aqui e proliferam na Amazônia. Os francanos se habituaram a fotografar ipês floridos e postá-los, numa prova de consideração pela beleza que, diga-se de passagem, é breve. Em poucos dias as flores lindas caem, atapetam o chão de ruas e avenidas e entram em novo ciclo, gestando folhas para galhos nus. Mas algo além da beleza característica perfila o ipê e o coloca em risco. É a durabilidade de sua madeira, usada na construção de telhados de igrejas dos séculos XVII e XVIII que resistem até hoje. Entretanto, assim como o Pau-Brasil atiçou a cobiça dos europeus, desde meados do século passado o Ipê, cada vez mais valorizado por estrangeiros que o utilizam na construção naval e civil, vem sofrendo perseguição constante de madeireiros. Ele sobrevive ainda graças aos projetos de arborização das cidades; em seu habitat natural, a árvore cascuda, no dizer dos tupis que a batizaram, vem se tornando cada vez mais rara. Pode entrar na lista das espécies em extinção, já que no mês de novembro o presidente da nossa maltratada pátria recusou-se a tirá-lo do rol das árvores que podem ser cortadas para exportação.

Prêmio Nobel de Literatura 2018, a polonesa Olga Tokarczuc definiu no seu livro “Viagens” as “coisas importantes” do mundo como “aquelas que são únicas e sobre as quais paira uma terrível ameaça de destruição.”

Pensemos nisso.



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