26 de janeiro de 2021

Nossas Letras

O Deus dos passarinhos

Ao vê-los penso no milagre da vida que pulsa encoberta por penas amarelas, azuladas, verdes, cinzentas. Ou amarronzadas como a dos urbanizados pardais - Sonia Machiavelli

Nossas Letras 26/12/2020
Sonia Machiavelli
Especial para o GCN
Moro num lugar abençoado porque tem muitas árvores e, em decorrência, grande variedade de pássaros anunciam as manhãs. Posso tomar café olhando casal de canarinhos no muro ou almoçar apreciando beija-flores sobre buquês de kalandivas. Para atraí-los, espalho pedaços de mamão, migalhas, sementes.

Ao vê-los penso no milagre da vida que pulsa encoberta por penas amarelas, azuladas, verdes, cinzentas. Ou amarronzadas como a dos urbanizados pardais. É a mesma vida que rutila nos olhinhos que buscam alimentos lá do alto, patamar que causa inveja a quem não tem asas e está condenado a viver com os pés no chão.

Em dias de sol, mal tocam as plantas rasteiras, eles voam para os arbustos; desses para o telhado; e dali para as alturas. Alguns ficam mais próximos dos humanos quando estão chocando seus ovinhos. Cultivo orquídeas em vasos colados em parede e as passarinhas adoram fazer deles sua maternidade. Respeito-as a ponto de nem varrer o piso ao redor, quando elas estão ali esperando mais uma vida romper a casca e ganhar a luz. É bonito vê-las depois alimentar os filhotes até que estejam fortes o suficiente para voar. Lá um dia me deparo com o ninho vazio e sei que o mundo dos alados conta com mais alguns habitantes.

A vida das aves é finita como a nossa; ainda mais frágil, é certo; e está submetida a ilusões que lhes custam caro. Igual ao que acontece a nós, humanos. Disso tive prova na sexta-feira, quando lia tranquilamente na sala uns poemas de Mário Quintana e lá de fora vinha a algazarra das crianças sortudas da vizinhança com presentes recém-ganhados. Ouvi um baque violento no vidro em forma de triângulo escaleno que arremata a fachada de minha casa, já próximo ao telhado. De imediato pensei que era uma bola chutada com muita força, tal o barulho. Olhei imediatamente para cima a fim de atestar se não me causara prejuízo. O vidro estava intacto. Mesmo assim resolvi falar com as crianças para que tivessem cuidado.

Ao abrir a porta, tive de imediato uma reação de susto. Sobre o capacho, com as pernas brancas e pés de unhas compridas voltadas para cima, estava um pássaro inteiramente negro de uns quinze centímetros, se contasse o bico. Compreendi o que tinha acontecido. Ele tinha vindo lá do alto, e se enganado com a transparência do vidro. Com certeza havia acelerado o voo ao ver lá de cima as flores num vaso ou as frutas numa bandeja, ambos colocados sobre a mesa de jantar. O impacto fora tal que ali estava ele estremecendo em espasmos que considerei sintomas da proximidade da morte.

Tomei-o nas mãos e as crianças se aproximaram pesarosas. “Coitadinho”, falava uma. “Que dó”, exclamava outra. E logo todas davam palpites. Um menino sugeriu enterrar o pássaro numa caixa de sapatos. Mas o coração ainda batia e, com cuidado, coloquei o corpinho de poucos gramas debaixo de um pé de alfavaca, que mantenho no jardim por conta de seu perfume. “Vamos deixar que morra aqui ; não vamos mexer com ele.” Elas entenderam e se afastaram pesarosas.

Voltei meio abalada para dentro de casa e atendi a uma chamada de celular que se prolongou mas pelo menos me tirou daquele estado. Era um amigo com votos de boas festas. Pouco depois de desligar, ouvi a campainha, abri a porta e vi as crianças de novo. Estavam alegres, saltitantes. Apontavam para o lugar onde eu havia colocado o passarinho. Uma menina esperta contou o que tinha acontecido naquela meia hora pós-acidente: “Ele começou a se mexer devagarinho, ficou de pé, tremeu, mas conseguiu bater as asas e voou. A gente viu! Primeiro voou para o murinho, depois para a árvore e depois para o céu. A gente viu!”

“-Que incrível!”, falei.

E a menininha, toda convicção, olhando para cima, manhã nublada de Natal :

“-É que a gente rezou para o Deus dos passarinhos”.



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