19 de janeiro de 2021

Nossas Letras

Duas Senhoras

Mas o mal não está posto naturalmente como a flor no campo ou o vírus avassalador, o mal é a qualidade das coisas que nomeamos para ter sobre elas algum controle - Baltazar Gonçalves

Nossas Letras 09/01/2021
Baltazar Gonçalves
Especial para o GCN
Não tenho ido a lugares e encontrado pessoas se não for mesmo necessário, onde encontrar motivo para uma crônica senão na rua, decidi visitar minha mãe, depois passaria no mercado, assim foi, é estranho o caminho das coisas até uma suposta beleza, também o caminho da rosa demora na haste espinhosa, vai vendo, ter beleza aqui e ali é questão de vasculhar e nem sempre estamos com a mente aberta para ver com olhar claro o mundo saturado, olhos virgens por assim dizer, com certeza dentro de nós há barulho absorvido, mas o mal não está posto naturalmente como a flor no campo ou o vírus avassalador, o mal é a qualidade das coisas que nomeamos para ter sobre elas algum controle.

Esse deveria ser o assunto, a ilusão de controle e a descoberta de que não controlamos quase nada, mas inverti os períodos da narrativa e agora lhes conto que a minha vizinha de porta, uma senhora de cabelos grisalhos, me chamou para ver a dama-da-noite que floresceu no quintal dela, que maravilha! num só pé mais de cinquenta flores, como traduzir a emoção de sentir o perfume daquele buquê? de perto exala o frescor do brejo, coisa vaga e comum, com o nariz mais distante capta-se o aroma do jasmim diluído na atmosfera branca intransponível das pétalas que são opacas e translúcidas (é mesmo impossível partilhar alguma verdade se não for por contradições).

Fui ver essa beleza, Ana chamou também a Miriam vizinha da mesma calçada, só não chamou a da frente porque na casa dela a família está contaminada pela covid, se coubesse eu traria a cidade inteira para ver as flores, o quintal é pequeno o suficiente para conter todos os vírus do corona espalhados no planeta, todo cuidado é pouco, por isso escrevo impressões daquele instante efêmero em que a dama -da-noite floriu sem importar-se com as 200 mil vidas perdidas para a pandemia no Brasil.

Todo cuidado é pouco, mas a gente vacila, eu tinha ido visitar minha mãe e passado no mercado, já saia do estacionamento quando uma velhinha toda curvada pediu-me carona, me leva para a igreja universal? pensei que não era comigo, era surreal e ela insistiu, me leva para a igreja universal? eu quis me fazer de surdo, olhei em volta e não vi ninguém que se importasse com ela, cedi ao ímpeto samaritano mas voltei atrás, podia estar perdida, demência ou Alzheimer, será? chamei o guarda do mercado que me disse com propriedade que ela vaga o dia inteiro entre sua casa perto do parque de exposições Fernando Costa e a igreja universal do centro, levo ou não levo? abri a porta de trás, a senhora entrou com muita dificuldade, estava sem máscara,como pode não ter sido contaminada? ajustei a minha máscara sob os óculos, ela começou a falar, me coloquei na história dela para compreender alguma coisa, pessoa sofrida, sozinha no mundo, de fé em não sei bem o que, amiga do bispo, amiga dos policiais, amiga dos amigos fiéis da igreja mas sozinha no mundo, e tão lúcida no falar incoerências que me entreguei como um desses poetas que escrevem cegos por amor a uma desconhecida em apuros, quando chegamos ao destino dela me certifiquei de que uma pessoa na igreja a recebesse, um conhecido dela a reconheceu, era freguesa ali e isso confirmava o depoimento do guarda no mercado, tudo certo, fim da história.

(quase me esqueci do poema que escrevi para marcar os episódios vividos)

BELA DAMA DA NOITE, MACIA SUAVEMENTE DOCE

ABRE SEU BRANCO INTRANSPONÍVEL QUANDO ESCURECE

E PERFUMA NA ESCURIDÃO QUEM A CONHECE;

BELA DAMA ATÉ O SOL RAIAR, DEPOIS MURCHA SECA

E MORRE COMO QUASE TUDO QUE SE PODE AMAR;

QUANDO DESVANECE O RESPLANDECER,

BELEZA ALGUMA DURA SEM ENCANTO



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