19 de janeiro de 2021

Nossas Letras

Suas mãos

Não se mexem como antes, não ajudam no abraço, não recepcionam, não exibem anéis. Mas estão impecáveis e abertas, como a sugerir a mesma generosidade, a mesma coragem, a mesma ousadia e a mesma doçura de antes - Lúcia Brigagão

Nossas Letras 09/01/2021
Lúcia Brigagão
Especial para o GCN
Durante dois anos semanalmente, quartas-feiras, cinco da tarde, impreterível, religiosa e pontualmente ela vinha à minha casa. Rotina previsível. Tocava a campainha para avisar que chegara. Por detrás dos vidros da janela, como se espreitasse, eu acompanhava seus movimentos. Seus olhos, protegidos por óculos escuros de vários modelos, mas sempre enfeitados de brilhos, olhavam para cima, para baixo, para o alto, como a conferir a paisagem. Ao ouvir o barulho da fechadura eletrônica destravando o portão, entrava. Descia para encontrá-la. Com movimentos leves e delicados, apoiando a ponta dos dedos no corrimão de ferro, ela subia as escadas.  Entrava, elogiava minhas plantas, não perdia um só detalhe da decoração e, olhando para todas as direções, atravessava o corredor enquanto se dirigia para a ponta da mesa da sala de jantar, onde o café esperava por ela. Café, sim, pois que no Brasil chás não são preferência, nem rotina nacional. Ela se sentava, agradecia, comentava que a semana tinha começado quente. Todas suas semanas eram quentes, depois descobri, após acompanhar sua rotina mais de perto. Contava sobre as notícias e novidades do jornal – que ainda era impresso, as gravações para a televisão, as festas do final de semana passado e prospectava as da semana vigente. Limpava os dois cantos da boca com o dedo médio da mão direita, e aí eu podia conferir que sua manicura estava perfeita e que sim, ela usava o mesmo tom de esmalte rosado e brilhante, que era sua marca registrada. E falava, enquanto eu gravava tudo. Perguntava-lhe dos filhos, dos pais, dos amigos, das venturas e desventuras, das dores na coluna, dos projetos, dos antes, dos depois.  E ela falava, com fluência e propriedade, sem esbarrar nos detalhes. De vez em quando, a pausa para a observação de que tinha que me contar algum pedaço da história, mas que eu não publicasse o depoimento: ele era apenas para esclarecer ou reforçar o que ela dizia. Como resultado, tenho material altamente secreto e arquivado, em quantidade suficiente para editar outro livro.  Mais que sua voz inconfundível; mais que sua aparência bem cuidada; muito além dos brilhos, pulseiras, colares, rendas e outros enfeites, se ela tirasse todos os adornos, ainda assim eu a reconheceria pelas mãos. Eram lindas e expressivas e lhe dizia que apenas outra pessoa que eu conhecia tinha mãos com tanta energia, vivacidade e animação, além de bonitas, que era a Bibi Ferreira. Ela ria, acho que gostava da comparação. E falava, enquanto gesticulava. E gesticulava, enquanto falava.

Foram mãos engenhosas, talentosas, criativas, inventivas. Escreveram textos, enfeitaram com flores, confirmaram a notoriedade de centenas de pessoas. Mãos que ajudaram escolares a escrever seus primeiros textos, apontaram pessoas, seguraram microfones e a direção de muitos carros. Não sei se varreram casas ou seguraram cabos de panela, mas certamente afagaram os dois filhos, quando nasceram, enquanto viveram e quando, infelizmente, morreram contrariando a previsibilidade da natureza e a ordem natural das coisas. Mãos que foram apoios para alianças em dois casamentos. Seguraram afilhados, sobrinhos, vizinhos, afilhados, netos e bisnetos e foram usadas para apreender alças de bolsas, principalmente as de gala, bordadas e coloridas. Movimentaram-se em resposta a acenos de cumprimento, adeus ou apenas em reconhecimento da presença de outrem. E foram usadas em discursos memoráveis, como quando ela recepcionou convidados no lançamento do livro que registrou sua memorável passagem pelo Planeta. Hoje, suas mãos estão em repouso. Não se mexem como antes, não ajudam no abraço, não recepcionam, não exibem anéis. Mas estão impecáveis e abertas, como a sugerir a mesma generosidade, a mesma coragem, a mesma ousadia e a mesma doçura de antes.



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