04 de março de 2021

Nossas Letras

Futuro

Lúcia H M Brigagão assina o texto onde comenta as desditas trazidas aos humanos pelo coronavirus , que não só matou e sequelou até agora milhões de humanos ao redor do mundo como também interditou o valioso contato presencial que nos define como seres gregários. Com seu estilo irônico lança também um olhar sobre as vacinas.

Nossas Letras 23/01/2021
Lúcia Brigagão
Especial para o GCN
2021 começou diferente de todos os outros anos que vimos nascer. Mais triste, mais nebuloso, sem nos dar perspectivas, nem norte, nem sul, muito menos leste ou oeste. Encontrou-nos sem planos. Pior, estaqueados “en la mitad del patio”, sem possibilidade de vislumbrar ou antecipar a existência de dias melhores, como os vividos antes daquele fevereiro de 2020, mês e ano em que o mundo desabou.

31 de dezembro de 2020, 23h59min, à beira da hora da mudança do ano, naquele momento de euforia, excitação, considerado sinônimo de alegria, passagem, travessia, despedida e recepção festiva a novos tempos, nos percebemos atônitos, a maioria de nós já devastados por perdas de entes queridos, conhecidos ou  parentes, que tiveram seus corpos invadidos pelo bicho estranho, monstro destruidor, destrutor, destrutivo, arrasador, que se alojara em seus corpos e os sufocara. Mesmo nos esforçando para comemorar a continuação da vida; mesmo embalados pela música tradicional para alegrar a significativa passagem, nem assim conseguimos atingir a mínima porcentagem de excitação dos outros anos. Clima pesado. Parecia estarmos sob intensa neblina escura, sob chuva que nos molhava os ossos, escondidos nos beirais das casas, desamparados.

Maldito bicho microscópico, invisível a olho nu.  Tão avassalador quanto bombas e artefatos criados pelo homem, esse outro bicho com prática de devastar, haja vista o sucedido nas Grandes Guerras, no Vietnã, nas emboscadas palestinas, em qualquer tipo de contendas nas quais o vencedor sempre é o que destrói mais, da forma mais cruel que possa imaginar. Há muitas teorias sobre sua origem, reprodução e desenvolvimento mas, a despeito disso, ninguém sabe ao certo, ou com certeza, se foi fabricado, inventado ou criado. Chinês, quase certo, mas quem confirma a possibilidade? Como se espalhou? Não há resposta, mas tergiversações. Sabe-se que mata, quando não aleija: sobreviventes sempre mostram algum tipo de sequela que vai da leve perda de olfato ou paladar, ao pavor mais absoluto da menor possibilidade de reincidência da síndrome.

A maioria das doenças que perturbaram a paz dos homens, hoje podem ser evitadas por algum tipo de proteção eficaz. Há vacinas, tratamentos preventivos, conhecimento sobre formas de contágio e proteção. Hoje a maioria das doenças fatais de antigamente podem ser evitadas por algum tipo de proteção eficaz. Dessa particular síndrome, nosso desconhecimento é diretamente proporcional ao pavor do contágio. E a proteção que nos aconselham, beira a tortura.

Desde fevereiro passado, há quase um ano, estamos impedidos de nos abraçarmos, mesmo que familiares. Proibiram-nos a realização de pequenos trajetos de carro – urbanos ou intermunicipais. Viagens de avião estão suspensas. Nosso lazer, reduzido a poucas atividades. Cinemas fechados. Horário para irmos ao banco, padarias e supermercados apenas com estrita vigilância do distanciamento. Uso obrigatório de máscaras, impedindo-nos a visão do rosto do próximo. Crianças proibidas de proximidade com colegas de escola ou de execução de atividades esportivas coletivas. Nossos grupos de amigos, apavorados, só nos visitam nas redes sociais. Todos os dias notícias de perdas, todas irreparáveis. Caiu sobre a humanidade o véu da tristeza: somos bichos gregários, o isolamento nos faz mal.

Sob esse clima de filme de terror, apareceu a vacina salvadora. Perguntam-me se serei vacinada. Ainda não. Esperarei primeiro o resultado da imunização dos membros do Congresso Nacional e políticos em geral. Primeiro deputados, governadores, senadores, ministros, os supremos todos, vereadores. Observarei o resultado. Depois eu decido. Se der tempo, eu decido.



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