03 de março de 2021

Nossas Letras

Filosofia para quê?

Sonia Machiavelli traz à baila alguns filósofos que podem nos ajudar com suas reflexões sobre ser humano, tempo, consciência, liberdade, finitude, ética e a construção que compete a nós mesmos empreender: a da nossa vida.

Nossas Letras 06/02/2021
Sônia Machiavelli
Especial para o GCN
Tomei coragem, coloquei máscara, calcei luvas. Não para sair de casa, o que faço raramente desde o início do isolamento. E sim para empreender algo que vinha desafiando a minha alergia ao pó. Acontece que tenho com meus livros uma relação de grande intimidade, de modo que às vezes eles me chamam da estante. E lá de cima me gritavam alguns que a miopia avançada e a memória decrescente não conseguiam identificar. Peguei a escada doméstica e burlando conselhos dos mais sensatos, que temem me ver com fêmur fraturado, subi seis degraus sem dificuldades.

Só um pouquinho empoeirados lá estavam alguns dos títulos de Filosofia que li nos meus anos de formação. Um deles me fez lembrar notícia recente sobre a Espanha, que repôs a disciplina na grade curricular do curso equivalente ao nosso ensino médio. A matéria havia sido abolida em 2013, depois de décadas de presença nas salas de aula do país que foi berço de um filósofo célebre, Sêneca, nascido em Córdoba.

Por aqui, nem pensar, já que o curso foi ameaçado de exclusão da Universidade pelo atual governo, que se empenha em desmanchar o que é bom e valoroso. A alegação dos gênios que estão à frente do Ministério da Educação é que filosofia não seve para nada. Eu fico com aqueles que não a consideram útil ou inútil, mas extremamente necessária. Ela pode nos ajudar a toda hora, na nossa vida cotidiana, no crescimento individual, na construção de uma ética que nos permita conviver de forma saudável com os contraditórios.

Com sua licença, leitor e leitora,e ajudada por meus livros, vou lembrar alguns filósofos e suas chaves de pensamento. Começo com Sócrates e seu aforismo “Conhece-te a ti mesmo”, que nos convida a olhar para nosso interior. Sigo com Platão em busca da verdade absoluta. E prossigo com Aristóteles, comparando a comunidade dos humanos à das abelhas, para concluir que somos seres sociais. Epicuro defende o direito ao prazer não como satisfação dos menores caprichos, mas como conquista de um estado de calma, algo inconciliável com uma vida desenfreada. Antes de todos, Heráclito havia descoberto que tudo muda o tempo todo no mundo.

Séculos depois deles Marco Aurélio enfatiza o vínculo da Razão Universal que liga o homem à natureza. Montaigne, já na Renascença, avoca a dignidade humana, o livre arbítrio, a responsabilidade pelos próprios atos. Pascal chama ao ser humano “caniço pensante”, por conta de sua fragilidade enquanto corpo finito frente ao universo infinito. Descartes afirma a existência do sujeito: “Eu sou, eu existo”- essa a frase verdadeira, com o verbo ser.

No século XVIII Locke faz o primeiro questionamento sobre a propriedade privada. Espinosa prega a defesa da liberdade de pensar e se exprimir, numa recusa veemente à censura. Montesquieu, já antevendo a Revolução Francesa, lembra que “os poderes devem estar separados e equilibrados, a fim de que um poder freie e controle o outro e haja moderação”.

Rousseau proclama que a força nada tem a ver com o direito. Kant crava a noção de que a liberdade representa um risco e quem teme assumir sua vida a apequena.

No século XIX desponta Hegel reafirmando que é a consciência de si que distingue o homem na natureza. No seguinte, Bergson avança com o papel da memória e foca na temporalidade dessa consciência, “uma ponte lançada entre o passado e o futuro”. Bachelard escreve sobre o perigo da opinião, sempre ligada à utilidade, ao que dá certo, enquanto a ciência busca um conhecimento verdadeiro. Então chega Freud enunciando sua teoria do inconsciente: nossos pensamentos não são tão claros como gostaríamos de crer, suas origens nos escapam, existem lacunas na consciência. No rol dos que pensam o mundo, Sartre ensina que a existência precede a essência, estamos sempre nos construindo. E Foucault se dedica à análise da marginalidade e das formas que a discriminação pode assumir- o asilo, a prisão, a sexualidade.

Essas são algumas verdades atemporais, pilares da nossa construção humana, política e social. Elas podem nos ajudar a caminhar com sabedoria na vida, que só é fácil para os alienados. Viver não é apenas comprar, vender, lucrar, monetizar, consumir, transitar... Viver só faz sentido se for além disso e se visar a um propósito que não seja egocêntrico, malévolo ou indiferente aos que fazem parte da mesma jornada.



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