03 de março de 2021

Nossas Letras

No seio das palavras

“Na primavera os japoneses vão em bloco aos parques admirar as flores das cerejeiras, as “sakuras”, que duram apenas sete dias e depois caem atapetando o chão. A esse espetáculo, que vai muito além do olhar, chamam “Hanami”.”

Nossas Letras 13/02/2021
Sônia Machiavelli
Especial para o GCN
“V. Ex.a é um energúmeno!” Ouvi o moço se dirigindo enraivecido a certo político e me perguntei se este conheceria o alcance semântico da proparoxítona. Que está associada a coisa ruim todos sabem; até as vogais fechadas nos transmitem sensação de abafamento. Mas que tenha vinte e um sinônimos é surpreendente: imbecil, ignorante, idiota, pateta, tonto, boçal, inepto, estúpido, tapado, besta, burro, estulto, desequilibrado, descontrolado, desatinado, desnorteado, furioso, exaltado, louco, arrebatado, fanático. Todos juntos explicam o tutano que jaz bem lá dentro do osso etimológico da herança helênica: “energúmeno é aquele que acolhe dentro de si o demônio”. Cruzes! Concluo numa busca rápida à memória que o antônimo é bem mais usado, embora a maioria desconheça a sua origem. Se energúmeno é quem hospeda o Cão, entusiasmado é quem tem Deus no coração. Um viva aos gregos!

Deixo o energúmeno pra lá, na certeza de que aquele que semeia ventos colhe tempestade. Hoje quero ficar só com as boas palavras que se destacam no nosso léxico de reconhecida riqueza. Escolher as mais expressivas pela conjunção de sonoridade e sentido é algo bem pessoal, sei disso. Mas vou listar as dez que mais me agradam: verdade, amor, esperança, paz, vida, felicidade, filho, sonho, emoção e saudade. Esta última não poderia ficar fora de jeito nenhum, já que não encontra equivalente em outro idioma. O sentimento da falta que nos faz aqueles a quem amamos é o mesmo, porque todos somos humanos, aqui ou na Cochinchina. Mas a expressão literal em outras línguas não chega aos pés da nossa. Saudade é palavra tão bonita que entra frequentemente na escrita de prosadores e poetas como Bastos Tigre: “Saudade, palavra doce/ que nos traz tanto amargor/ saudade é como se fosse/ espinho cheirando a flor// A palavra é bem pequena,/ mas diz tanto de uma vez;/por ela valeu a pena/inventar-se o português.” Eita!

Entretanto, se temos essa palavra intraduzível, outras línguas apresentam verbetes em idêntica situação. Só conseguimos traduzi-los com uma ou mais frases. Foi o que descobri recentemente. A ver.

Quando o falante do português toma conhecimento da promoção de um colega, o que diz? Ainda que nem sempre seja sincero , é possível que lhe ocorra um ”fico alegro com seu sucesso!” Um pragmático alemão traduziria isso com um gutural “gönnen”, e o exitoso já se sentiria cumprimentado. Se o caso é comunicar a alguém que está ansioso por viajar, correr o mundo (especialmente depois dessa pandemia castradora de liberdade), a palavra germânica é “wanderlust”. Para expressar seu prazer de tomar-um -chopp -ao -ar -livre- num -dia-de-sol, um norueguês fala “utepils” e nem precisará desenhar. Na Dinamarca, traduzir a sensação de degustar uma sopa quente num dia gelado, aconchegado no sofá preferido, cabe num vocábulo de cinco letras: “Hygge”. E quando na primavera um pai sueco avisa aos filhos que no dia seguinte irão ao parque pela manhã - para ouvir o canto dos pássaros- apreciar a natureza- fazer um piquenique, fala assim: “Gökotta”. Não acrescentará mais nada; todo mundo vai dormir mais cedo.

“Ai palavras/ Ai palavras/ Que grande potência a vossa/ Todo sentido da vida/ Principia à vossa porta”, cantou Cecília Meirelles em português do Brasil. Mas vem mesmo é do Oriente aquela que solitária indica a capacidade de encontrar beleza na imperfeição e aceitar a impermanência da vida, um dos temas caros à nossa linda poeta. Quando chega março, os japoneses se preparam para ir em bloco aos jardins, admirar as flores das cerejeiras que duram sete dias e depois caem atapetando o chão. A esse espetáculo, que vai muito além do olhar, chamam “Hanami”. Os nipônicos recebem agradecidos a manifestação da natureza, louvam a beleza efêmera e reconhecem que um ciclo se fecha para a abertura de outro. A fim de nomear todos esses movimentos da alma usam apenas duas palavrinhas, “Wabi-Sabi”, que podem significar mais que um ensaio ou um tratado sobre o contínuo movimento da nossa frágil vida.

Palavras são potentes e dentro delas cabe um mundo. Entretanto, não nos esqueçamos de Montaigne, na sua sábia afirmação de que metade delas pertence a quem as fala e outra metade a quem as ouve.”



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