07 de março de 2021

Nossas Letras

21 de Fevereiro

Vida difícil a de meus avós. Como italianos pobres, enfrentaram certa intolerância e preconceito dos moradores da cidade.

Nossas Letras 20/02/2021
Lúcia Brigagão
Especial para o GCN
Luiz, Adolfo, Agostinho, Adriano, em pé. Roberto, Lila, Nicola pai, Nicola filho, sentados. Faltam Alzira e Nair - precocemente falecidas e Elvira, a mais velha das mulheres.
Parte da minha família paterna está aqui representada por meu pai, tios e avós. Não sei a ocasião em que o momento foi imortalizado, imagino que tenha sido num aniversário ou comemoração de alguma das bodas de casamento do casal. Mas que foi solene, isso foi, embora certa dose de irreverência estivesse presente e vivamente manifesta, pela maneira como se vestiam. Todos eles de terno, dois sem gravata e meu pai com a dele já pronta para ser arrancada e posta no bolso do paletó, como de costume.  Vovó, como sempre, sóbria, bem penteada e séria. Acho que nunca vi vovó Lila sorrindo. Lembro-me dela à beira do fogão, às voltas com seus raviólis, seus molhos e cheirando a zuppa, que punha no fogão e começava a preparar assim que amanhecia o domingo que, aliás, eram todos festivos. Dois dos filhos do casal moravam em casas separadas, porém construídas no mesmo terreno e aí era fácil juntar quase toda a família no quintal comunitário, tão logo chegava o dia de folga, sob a parreira. Na porta da cozinha duas cadeiras, de costas uma para a outra apoiavam cabo de vassoura coberto com lençol – ou toalha de mesa – branquinho, local onde se secava, ao sol, a massa que vovó preparava com antecedência, cujo cozimento tinha horário para ser efetivado, momento em que era levada ao fogo. Pompa maior, que nesta semanal circunstância, nunca vi. Irmãos reunidos, sobrinhos esparramados, Tio Berto, o pai das “bonequinhas” - como meu pai se referia às gêmeas Lúcia e Raquel - morava ao lado, era fã de um bom vinho tinto, de bom queijo e adorava músicas italianas. Se não estou enganada que já faz tanto tempo, era dele a vitrola que reproduzia O Sole Mio, Mamma, Cella Lá, Cor’ngrato, que meu pai insistente e desafinadamente tentava acompanhar. Cantava com o cuore, sim, porém mal. Muito mal. Valia a intenção.   A influência de tio Berto sobre meu gosto musical foi grande. Através dele me tornei fã dos tenores e das óperas italianas. Vovô não falava muito sobre sua família de origem, mas era amigo, e gostava muito, do tio Pedro, marido de tia Maria, irmã de vovó Lila. Tinham profissões diferentes. Tio Berto herdou a barbearia e a profissão de vovô. Tio Luizinho trabalhava com construções. Tio Adolfo e tio Adriano eram bancários e tio Agostinho, advogado. Meu pai começou como barbeiro – o filho mais velho nas famílias italianas tradicionalmente seguia os passos do pai mas, por influência e insistência de minha mãe ele estudou, tornou-se funcionário de banco e teria feito carreira, não fosse sua relutância em sair da cidade, o que via como a possibilidade inadmissível de se distanciar da família de origem.

Vida difícil a de meus avós. Como italianos pobres, enfrentaram certa intolerância e preconceito dos moradores da cidade. Tinham profissões humildes: minha avó fazia pães junto com a irmã e a mãe, que distribuíam pessoalmente para a clientela.  Era esse o costume e assim foi feito: quando o bisavô Vittantonio Maniglia faleceu, deixando viúva e filhos, a responsabilidade com os irmãos mais novos e cuidados com Rosa Mônica, sua esposa, foi transferida para meu avô, que era o mais velho deles. Ele, assessorado por cunhados e cunhadas, conseguiu realizar a difícil tarefa. Nossa família, pelo lado de vovô Nicola, tem origem na comuna de Montesano Sulla Marcellana, província de Salerno, região da Campania, pertinho de Nápoles, onde pegaram o navio para o Brasi.  Pelo lado de vovó Lila, dizem, somos de Veneza, capital da região do Vêneto. Como milhares de outras famílias brasileiras somos, em parte italianos, em parte descendentes de negros, índios, e até de outros europeus. Miscigenados, até a raiz dos dentes.

Minha homenagem a todos os brasileiros descendentes de italianos, neste 21 de Fevereiro. Que comecem o dia cantando – com todo fôlego – Il canto degli italiani, também conhecido como Fratelli d’Italia ou Inno di Mameli, que é o hino nacional italiano. Três títulos para o mesmo hino nacional da Itália: exagero ou prova de nossa exuberância e criatividade?

Destaque do trecho mais bonito do belo e vibrante hino:

...”Uniamoci, amiamoci
l'unione e l'amore
rivelano ai popoli
le vie del Signore
Giuriamo far libero
il suolo natio
uniti, per Dio
chi vincer ci può?

Stringiamoci a coorte
Siam pronti alla morte
Siam pronti alla morte
l'Italia chiamò
...
l'Italia chiamò, sì!...”




COMENTÁRIOS

A responsabilidade pelos comentários é exclusiva dos respectivos autores. Por isso, os leitores e usuários desse canal encontram-se sujeitos às condições de uso do portal de internet do Portal GCN e se comprometem a respeitar o Código de Conduta On-line do GCN.

Ainda não é assinante?

Clique aqui para fazer a assinatura e liberar os comentários no site.

Veja mais Textos

MAIS LIDAS

COLUNISTAS

ECONOMIA Atualizado 1 hora atrás

  • Dólar Comercial:
    Data:
  • Dólar Turismo:
    Data:
  • Euro:
    Data:

LOTERIAS Atualizado 1 hora atrás

  • Mega-Sena:
    Sorteio: , , , , , Data: 30/11/-0001
  • Quina:
    Sorteio: , , , , Data: 30/11/-0001