12 de abril de 2021

Nossas Letras

As minhas 'Janelas de Quarentena'

“Do meu apartamento, o pedaço de céu, dentro da janela, era sinônimo de liberdade. Em um transe criativo de cinco horas, encontrei metros de fita de cetim coloridas e ‘bordei’ a rede de proteção do terraço, como uma forma de reinventar o espaço da cidade, oferecendo ao espectador uma prova de que ali a vida continuava.”

Nossas Letras 27/02/2021
Taly Cohen
Especial para o GCN
Foram meses de cárcere sem aviso prévio, sempre com um inimigo invisível à espreita; o medo de respirar mais do que deveria se misturava com o receio de guardar a compra do supermercado na geladeira; o isolamento total do mundo exterior conviveu de mãos dadas com a certeza de que a reclusão, apesar de sufocar, era a única chance de sobrevivência. Confesso que a sensação de estar imersa numa narrativa Kafkaniana foi o ponto de partida da série 'Janelas de Quarentena', a minha manifestação artística diante da pandemia nas grandes cidades.

A falta de espaços e a aglomeração natural da metrópole geraram em mim a curiosidade de pesquisar sobre como as pessoas estavam encarando a vida durante a pandemia nas grandes cidades. Comparei a vida em áreas menos densas, lugares onde minha família e amigos estavam vivendo, com o dia-a-dia das cidades verticais, como São Paulo, onde estou passando o meu lockdown. Todo esse processo provocou uma necessidade quase que catártica de humanizar a realidade da metrópole com a minha arte. Mas como fazer isso de dentro do meu apartamento? Foi então que olhei para janela e entendi que ela seria o meu meio de comunicação com o mundo exterior.

Do meu apartamento, o pedaço de céu, dentro da janela, era sinônimo de liberdade. Em um transe criativo de cinco horas, encontrei metros de fita de cetim coloridas e ‘bordei’ a rede de proteção do terraço, como uma forma de reinventar o espaço da cidade, oferecendo ao espectador uma prova de que ali a vida continuava e de que, de alguma forma, estávamos juntos e unidos em meio àquela situação extremamente desafiadora. A instalação foi como um grito de esperança que gerou ecos e respostas por todos os lados.

Depois de pronta, a obra causou interesse e reações das mais variadas no público que passava na rua e nos meus vizinhos, tanto do prédio onde vivo, quanto dos prédios em volta. Recebi mensagens de muitas pessoas que não conhecia e de vizinhos com quem nunca tinha conversado. A maior parte das pessoas me disse que o ‘bordado' que eu fiz na janela era como um respiro em dias intermináveis de lockdown.

A instalação foi o primeiro passo para a criação da série, 'Janelas de Quarentena’, que seguiu a mesma lógica do ‘bordado na janela’: a reinvenção do espaço urbano em tempos de pandemia. As obras foram desenvolvidas em chassis de madeira com telas de polietileno e fitas de cetim, que desenham o intervalo. Cada obra que compõe a série representa uma janela com todos os significados que ela pode oferecer: esperança, perspectiva, um novo dia, um começo, uma saída…

Após meses criando em chassis de madeira, comecei a buscar janelas antigas em antiquários e em depósitos de madeira de demolição. Tive vontade de dar vida a algo que estava morrendo. Desenvolvi um apego às janelas e a todas as histórias que se passaram de um lado ou do outro de cada uma delas. Elas são testemunhas de histórias de amor, de superação de dor, de vida… Elas me inspiraram a criar novos capítulos para as suas histórias, como uma busca para os novos capítulos da minha vida.



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