10 de abril de 2021

Nossas Letras

As duas faces da Internet

“Enquanto ignorarmos os perigos que se escondem em obscuros ambientes da internet, corremos o risco de um tipo de entorpecimento psíquico que pode influenciar nossas escolhas, inclusive as políticas".

Nossas Letras 13/03/2021
Sônia Machiavelli
Especial para o GCN
Timothy John Berners-Lee, 63 anos, britânico, é daqueles caras sobre os quais a gente diz ao ler a biografia: “é gênio”! Físico por formação, cientista da computação e professor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), tornou-se mundialmente conhecido por ser o criador da World Wide Web, o famoso termo técnico www. Em 1980, enquanto atuava como contratado da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, propôs um projeto baseado no conceito de hipertexto para facilitar a partilha e atualização de informações entre os pesquisadores. Mas só nove anos depois viu a oportunidade de unir hipertexto com internet e criar o www. O primeiro site foi ao ar em 1991; era uma página simples de texto que oferecia uma explicação sobre o que era o wwwe como um leigo em física quântica poderia criar um navegador, configurar um servidor web, etc. O então jovem Berners-Lee mudava a comunicação no mundo, abrindo caminho para a internet como a conhecemos hoje. Ele apostou "numa plataforma aberta que permitiria a qualquer pessoa, em qualquer lugar do planeta, trocar informações, ter oportunidades de acesso e colaborar para além de barreiras geográficas e culturais". Visto sob esse ponto de vista, representou um grande avanço para a humanidade.

Mais que nunca, nos últimos doze meses a internet foi de extraordinário valor para que milhões pudessem trabalhar em home office, assistir aulas, comprar comida, conversar com familiares e amigos, entreter-se com vídeos, filmes, lives, atualizar-se com os acontecimentos. Etc. Mas essa espetacular conexão que proporciona conforto aos usuários, esconde uma face hedionda que vem se acentuando com o passar do tempo. Hoje a internet virou também espaço de disseminação de notícias falsas, vídeos adulterados, teorias conspiratórias, vis ataques anônimos, calúnias, difamação, subversão do que ainda se considera civilidade. Como se tudo isso já não fosse demais, criou um novo modelo de capitalismo, a partir da produção de dados e informações fornecidos espontaneamente por todos nós, internautas, que alimentamos o sistema de gigantes como Google, Facebook, Amazon, Apple, Microsoft. Cada vez que damos uma googlada, postamos um comentário, compramos um livro, vemos um vídeo, ouvimos uma música, assistimos a um filme, não duvide: estamos fornecendo preciosas informações para aqueles que farão delas uma mercadoria.

Para esmiuçar o assunto, a filósofa norte-americana Shoshana Zuboff lançou o livro “A era do capitalismo de vigilância” (já traduzido para o português e publicado pela Intrínseca). Capitalismo de vigilância é como ela chama ao florescimento, nas últimas duas décadas, de um ciberespaço focado em extração massiva de dados de usuários para vendê-los a empresas interessadas, o que é um roubo. Com um adendo: a fim de despertar o interesse de bilhões, um dos braços do sistema amplificou conteúdos mais tóxicos, porque eles suscitam mais engajamento, o que é manipulação. Exemplo dessa toxidade temos experimentado no Brasil da era bolsonaro.

Só um exemplo. Desde que a Covid foi declarada pandemia há um ano, protocolos básicos foram estabelecidos por cientistas como prevenção ao contágio: uso de máscaras, higienização com álcool, distanciamento social. Pois não é que, por razões puramente políticas, tais cuidados foram alvo de campanhas distorcidas, disseminadas por internautas nas redes sociais? Para se ter uma ideia do estrago, em abril de 2020 os dez principais sites de desinformação sobre a Covid receberam 300 milhões de acessos, comparados aos 70 milhões dos dez principais sites de informação sobre saúde pública.Quase 20% desse conteúdo foi checado como falso, mas continuou circulando. “Foi assim que o “capitalismo de vigilância” contribuiu para a morte de centenas de milhares de cidadãos”, diz Shoshana, atualizando o país, já que o fenômeno ocorreu também nos EUA de Trump.

Se causa perplexidade pensar que número gigantesco de dados pessoais de usuários está guardado e será usado para gerar lucro em momento oportuno, provoca certa angústia ter conhecimento de que o ambiente de mentiras e deturpação da internet não só já levou muitos à morte como pode modificar o nosso contexto político-social. O que podemos fazer? É difícil responder, até para a autora do livro acima citado. Mas fica claro que enquanto ignorarmos os perigos que se escondem em ambientes da internet, corremos o risco de um tipo de entorpecimento psíquico que pode influenciar nossas escolhas, inclusive as políticas. Isso recai sobre o tema da democracia, fortemente ameaçada em nossos dias. Aliás, por aqui, a campanha eleitoral de 2022 já começou.



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  • José osmar
    16/03/2021
    Inclusive me desculpe temos que tomar cuidado até com vc ,porque nem tudo que é incutido em nossas mentes, idéias de cima para baixo,ninguém detém a verdade absoluta ,porque tudo que se propaga diz Salomão,somente 20% é verdadeiro
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