10 de abril de 2021

Nossas Letras

Tecidos & Texturas

“Cetim: alguns poemas são apenas acetinados e nem por isso de qualidade inferior, outros têm cetim apenas nas camadas do forro.”

Nossas Letras 03/04/2021
Baltazar Gonçalves
Especial para o GCN
A alfaiataria é uma das profissões mais antigas na história da humanidade. Cobrir o próprio corpo, depois de saber-se no mundo, teria sido o primeiro gesto criativo de, segundo a mitologia judaico-cristã, burlar os efeitos da vergonha e o peso do arrependimento na cena do paraíso.

No entanto, vestir o corpo é anterior a quaisquer mitologias. Usar uma segunda pele mostrou-se prudente na proteção contra o frio, dentro e fora das cavernas ancestrais. Desde a necessidade de sobrevivência às nuances descartáveis da moda e consumo, costurar para vestir é traço permanente na evolução dos costumes; não há quem não se vista e quem não se sinta nu mesmo bem vestido. Escrevo como se me despisse para quem soubesse usar este véu como luva e esta echarpe no lugar de camisa; cada um faz o que pode com o que tem em mãos.

A primeira lição da alfaiataria é saber se o tecido dará caimento às peças segundo a matéria-prima utilizada: tecidos de fibras naturais possuem valor agregado, não absorvem calor, são arejados, mas devem ser lavados a seco. Lavar poesia tecida em fibra natural mais de uma vez é arriscado, as pontas da leitura podem encurtar ou alongar; já as fibras sintéticas são duráveis e nos poemas podem ser lidas inúmeras vezes sem prejuízo do acabamento.

Tecidos & Texturasde A a Z (parte um)

ALGODÃO: o caimento de um poema tecido em algodão depende diretamente da quantidade de fios utilizados. Um exemplo é a fina ironia e a ambiguidade tecidas com 80 fios. O número exato de fios evita que o poema fique transparente mostrando o que não se deseja aparente e ainda deixando à mostra o que precisa ser notado.

ALPACA: largamente usados em ternos e paletós, é fibra leve de brilho suave. Se tramada com lã alpaca dá versos elegantes, mas desconfortáveis se a temperatura ambiente subir.

BATISTA: tecido de nome ambíguo usado em poemas de algodão ou fibra sintética. Sua tessitura lisa permite versos livres e transparentes como lingerie. Por ter caída sensual no corpo da leitura,

forro e lenço são acessórios dispensáveis e fundamentais ao mesmo tempo caso o desejo de expor o corpo seja proporcional à distância do toque.

CETIM: alguns poemas são apenas acetinados e nem por isso de qualidade inferior, outros têm cetim apenas nas camadas do forro. Para vestidos de noiva recomenda-se o melhor cetim. Na composição de poemas de corte godê as saias esvoaçantes feitas de cetim devem brilhar porque em movimento essa é sua natureza. O brilho do movimento é sempre boa opção se o efeito esperado for a captura do olhar.

CHIFFON: é um tecido levemente transparente e vaporoso. Poemas em chiffon sintético são mais secos, como palavras que dizem exatamente o que querem dizer. É fino, mas tem peso. Não chega a dar volume que se perceba exagerado. No caimento do poema esvoaçante, em geral maleável, o chiffon pede o forro da releitura.

COURO: existem muitos tipos, o aspecto áspero traduz naturalidade. Os veios e as possíveis deformações de uma peça em couro darão poemas

reflexivos e complexos - lugar comum da condição humana.

 

(continua na próxima edição desse caderno)



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