06 de maio de 2021

Franca

ENTREVISTA

'Quase 40% vão a óbito', diz médico sobre pacientes intubados em Franca

Na linha de frente da covid, o médico pneumologista Marcelo de Paula Lima falou sobre o processo de internação de cada paciente, as mudanças provocadas pelas novas variantes e o acometimento de pessoas mais jovens: “Praticamente metade dos pacientes que internam hoje estão abaixo dos 60 anos”.

Franca 11/04/2021
Heloísa Taveira
da Redação
Heloísa Taveira/GCN
Doutor Marcelo de Paula Lima, pneumologista da linha de frente da covid-19 em Franca
Mesmo com mais de um ano de pandemia, ainda há uma série de dúvidas sobre o vírus, as suas modificações e os perfis mais acometidos pela doença. Para sanar algumas dessas questões, a reportagem do GCN conversou com o médico pneumologista Marcelo da Paula Lima, responsável por fazer a triagem de pacientes com covid antes da internação.

Geralmente, o coronavírus, mesmo com suas mutações, funciona de uma forma padrão: 80% dos infectados desenvolvem a forma leve da doença, 15% precisam de suplementação de oxigênio em um leito de enfermaria e os outros 5% evoluem para a fase mais crítica, onde a área pulmonar deste infectado já está enormemente comprometida e é necessária a intubação.

Para os pacientes da rede pública, esse processo tem início no Pronto-socorro Municipal, que é a porta de entrada das pessoas com suspeita da doença. Na unidade de saúde, os médicos examinam e, dependendo do quadro clínico, fazem uma solicitação via Cross, que é a central de regulação de vagas para internação. Já no hospital, no setor de pneumologia, os médicos plantonistas discutem as imagens e condições do paciente para definir se ele tem condição de internar, se vai para um leito de enfermaria ou de UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

Diferença das internações

De acordo com o pneumologista, em um primeiro momento são observados três critérios para a internação hospitalar: o teste positivo, febre alta e persistente há dias e a queda do oxigênio abaixo de 90%, chamada dessaturação. “Esses são os principais indicativos de um paciente que está evoluindo para uma forma grave da doença e implica na suplementação de oxigênio”, disse Marcelo.

Essa suplementação pode ser via nasal, através de um cateter, e faz com que o paciente consiga sair de 85% para 95% de oxigenação. “O ar ambiente tem um percentual de oxigênio de aproximadamente 21%. O restante é nitrogênio e alguns outros gases. Quando eu coloco um fluxo nasal pelo cateter, eu consigo aumentar essa fração expirada de 21% para até 42%”, afirmou. Esse procedimento pode ser feito em um leito de enfermaria.

“Quando isso não é suficiente, o paciente vai para a ventilação mecânica. Quando nem cateter, nem a máscara são necessários para saturar mais de 90% e a frequência respiratória continua aumentando, quer dizer que o paciente vai precisar contar com um respirador artificial e é intubado na UTI”.

Processo de intubação
Para um paciente ir para a ventilação mecânica, ele precisa estar com um comprometimento pulmonar de mais de 50%. Proporcionalmente, esse é um número significativo, já que a área pulmonar é muito extensa. Nesse processo de intubação, a ventilação mecânica faz o papel do pulmão com 100% de oxigênio na tentativa de estabilizar e aumentar a saturação para no mínimo, 90%.

No entanto, é um processo extremamente invasivo. “Você não consegue fazer esse procedimento com a pessoa acordada, porque é altamente traumático. Ela se rebate, contrai a glote e não deixa entrar o tubo. É necessário usar uma sedação e um bloqueador neuromuscular, que é, literalmente, fazer o paciente parar de respirar e assim introduzir o tubo na traqueia. Só é possível dessa forma, porque você sedou, tirou o estado de consciência e relaxou a musculatura dela”.

Com a paralisação da respiração do paciente, o ventilador mecânico faz esse papel de inspiração e expiração, enquanto o próprio organismo vai recuperando a função respiratória e eliminando as células inflamatórias do pulmão.

Para manter o paciente intubado, é preciso um conjunto de medicamentos, chamado kit-intubação, mas com o tempo de internação cada vez maior, o risco de falta desses medicamentos preocupa. “O problema não é usar essas drogas. O problema é manter esse paciente sedado e com o bloqueio neuromuscular. Você gasta até 20 ampolas por dia de medicamento. Então, imagina... Uma média de internação de mais de 25 dias, a quantidade de ampolas que você precisa para manter esse paciente sedado”, disse Marcelo. O pneumologista ainda ressaltou que as internações aumentaram bruscamente nessa nova onda da covid-19.

Novas variantes e seus impactos
O principal motivo da alta nas internações é o potencial maior que carregam as novas mutações do vírus. “Essas variantes são muito virulentas, ou seja, com pouco vírus a pessoa já contrai a infecção. Precisávamos ser muito expostos ao coronavírus na sua primeira versão para o organismo contrair a infecção. Essa nova mutação não. Com pouco vírus ela já entra no organismo”, falou o médico.

“Como ele é mais virulento e, consequentemente mais transmissível, cada vez mais pessoas estão contraindo o vírus. Portanto, mais internações, que são aqueles 15% e mais intubações, que representam 5%. Desses, quase 40% vão a óbito, ou quiçá, metade.”

Além da maior transmissibilidade, é nítido a mudança no perfil dos pacientes. Marcelo afirmou que essa mudança tem relação direta com as novas variantes do vírus. “Praticamente metade dos pacientes que internam hoje estão abaixo dos 60 anos. Isso não é só um reflexo da vacinação do idoso, porque metade dos pacientes internados são acima dos 60. A outra, que é abaixo dessa etária, tem muitos pacientes com 30, 35 anos, inclusive indo a óbito”, disse. “Nitidamente essa variante tem maior poder de transmissibilidade, infectividade e suscetibilidade para jovens”.

Fatores de risco
Embora nos boletins epidemiológicos de Franca as principais comorbidades associadas aos óbitos por covid sejam senilidade, hipertensão e diabetes, o pneumologista destacou a obesidade como um fator gravíssimo no manejo da doença.

“A grande maioria da população acima de 60 anos não tem hipertensão, uma boa parte tem diabetes, mas não hipertensão. Isso só se torna um agravante se o paciente tem uma condição no organismo mais deteriorada, mas não é esse o fator principal para desencadear a fase mais grave da doença”, afirmou.

Como a comorbidade que lidera o agravamento, a obesidade pode ser um fator decisivo no tratamento de um paciente. “Com o obeso você não consegue ventilar e oxigenar ele adequadamente. Vamos usar o exemplo de um obeso com acometimento pulmonar de 30%. Eventualmente ele vai precisar de internar em enfermaria. Já um paciente magro com as mesmas condições clínicas, mesmo com os 30% de acometimento pulmonar ele não iria precisar de enfermaria”.

Isso porque, segundo Marcelo, o obeso não consegue respirar adequadamente por conta do abdômen que faz pressão no diafragma e isso atrapalha na expansibilidade pulmonar. “A obesidade é uma comorbidade gravíssima, no sentido de mau prognóstico. Paciente obeso que tenha indicação de internação em função de dessaturação, a chance de ele evoluir para uma forma crítica é muito grande. Aumenta a possibilidade de mortalidade”.

Perspectivas de melhora
No cenário atual é comum que pacientes aguardem por um leito de UTI ou de enfermaria no atendimento do Pronto-socorro. A oferta de vagas é insuficiente há dias e, assim como muitos médicos, Marcelo de Paula não vê um sinal de alívio tão brevemente. “Acho que nem se dobrasse o número de leitos, não daria conta de enfrentar a situação como está hoje. E ao que parece, nem abril, nem maio. Provavelmente só no começo de junho vai começar a abrandar esse nível de gravidade”, disse.

O médico acredita que “vai morrer muita gente ainda, porque na verdade, não para de chegar paciente grave”. Ele relatou um episódio diário que vem enfrentando no hospital: “No nosso caso, ligam para a gente e falam assim: ‘Doutor, tem mais seis pacientes’. Depois, à tarde, chegam mais quatro pacientes. E aí para, porque é quando lota a UTI. De repente morrem cinco pacientes e começa todo esse processo de novo. Está desse jeito a coisa”.

O único fator capaz de trazer esperança na luta contra a pandemia é a vacinação. “Não vai parar de chegar porque essa doença está acometendo pessoas jovens e a única chance que nós temos é a vacinação. Para efeito epidemiológico, ela vai diminuir sim, mesmo com nível de eficácia de 60% ou 70%, ela deve, praticamente, acabar com a pandemia”, disse Marcelo. “Só que até nós conseguirmos atingir a imunidade de rebanho, vão morrer muitas pessoas”.



COMENTÁRIOS

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  • Gabriel
    11/04/2021
    Jornal covidal.
    • Darsio
      12/04/2021
      Deixa de ser idiota, meu caro. Se o jornal não lhe agrada, que então vá ler outra coisa. Aliás, você sabe ler? Pois, tu sabes que uma das marcas de vocês ruminantes, adoradores de genocida, é ser muito burro. E bota burrice nisso!
  • Dorrutgh
    11/04/2021
    Parabéns .quem não sabe. O coração para de bater .quando coloca a tubulação força o coração ❤️.estão matando o povo .Deus está vendo tudo isso.
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