08 de maio de 2021

Nossas Letras

Precisamos falar sobre o Henry

“Mesmo que seja desconfortável, temos de conversar a respeito do que aconteceu, porque é uma repetição de outro caso, o de Isabela Nardoni, já quase esquecido. De lá para cá, o que mudou?”

Nossas Letras 17/04/2021
Sônia Machiavelli
Especial para o GCN
Nos últimos dias, diante das evidências, ampliou-se entre nós a perplexidade diante da morte do menino Henry, quatro anos, torturado pelo padrasto, um vereador carioca com diploma de médico. Segundo a polícia, houve conivência da mãe, atualmente ocupando cargo de confiança no Tribunal de Contas do Rio de Janeiro.

A biografia do “Dr. Jairinho”, eleito com 16 mil votos, revela homem violento, embora a aparência de bom moço. Há relatos de agressões contra ex- mulher, filhos, amantes e filhas dessas. A primeira registrou queixa antes de se divorciar, mas voltou atrás e a retirou. As outras não ousaram fazer o mesmo, temerosas de que o abusador pudesse se vingar: esse é um dos males mais antigos do Brasil, o poder que intimida os mais fracos. E as vozes que se calam podem ajudar a alimentar monstros.

Monique é a mãe que corresponde bem ao estereótipo de mulher obcecada por padrões estéticos quase inalcançáveis que pedem lipos, silicones, botox, dietas, academias e tudo mais que o mercado disponibiliza. Essa, aliás, tem sido marca de um modo de existir que encontra no vazio interior uma de suas molas e no consumismo outra. Muitas não querem filhos que lhes deformem o corpo e exijam cuidados. Monique era uma delas.

O ex-marido, Leniel, disse em entrevista que levou tempo a convencê-la de que um filho deveria ser bem-vindo, porque ela hesitou quando se descobriu grávida. Ele, que sonhava com a paternidade, parece ter sido muito presente na vida do filho e viu na pandemia “a sonhada oportunidade de ficar mais tempo em casa,” já que trabalhava em plataformas de petróleo em alto mar. Ironicamente foi isso, uma convivência mais próxima, que azedou a relação do par, separado no final do ano passado. Dois meses depois Monique foi morar com o doutor.

Um casal formado por Jairinho e Monique não teria condições de educar uma criança. Porque ele revelou-se alguém que, além de graves distúrbios psíquicos, sentia-se invulnerável por conta de seu cargo e relações suspeitas.Porque ela reafirmou-se narcisista que não queria perder o status alcançado com o novo casamento. Egocêntricos não conseguem amar ninguém. E na relação entre pais e filhos, que não deve ser romantizada, é bom dizer, o amor tem de ser maior que a raiva, para que a morte não vença a vida.

Acho que precisamos falar sobre o Henry para elaborar essa tragédia que nos magoa, entristece e mancha enquanto humanos. Às vezes queremos ficar distantes porque admitir que uma mãe silenciou e permitiu que seu filho fosse morto é reconhecer que humanos podem fazer coisas horríveis. Os gregos sabiam muito sobre a complexidade da alma; não por acaso nas suas tragédias há tantos infanticídios.

Mesmo que seja desconfortável, temos de conversar a respeito do que aconteceu, porque é uma repetição de outro caso, o de Isabela Nardoni, já quase esquecido. De lá para cá, o que mudou? Em nosso país, já tão açoitado por outras catástrofes, na última década 2083 crianças de 4 anos e menos foram assassinadas dentro de casa por adultos que deveriam em tese protegê-las. Os dados são da Associação Brasileira da Pediatria, que acredita em número maior de vítimas, dada a subnotificação.

No caso de Henry, é muito perturbador pensar que alguns desconfiavam e outros sabiam que o menino era vítima da crueldade e violência do padrasto, a ponto de vomitar em presença dele. Entretanto, ninguém fez nada, de fato, para proteger a criança, desamparada naquele mundo onde apenas o pai tinha condição de socorrê-la mas não conseguiu fazê-lo; algo lhe escapou. Nenhuma das esferas de proteção funcionou, o que faz crescer a percepção de que vivemos numa sociedade em que incontáveis adultos (?) estão se isentando da responsabilidade pelas crianças de seu entorno- e isso, em todas as classes sociais. São muitas as que vêm pedindo socorro de diversos modos, como o fez Henry sem ser ouvido. Será que chegamos a uma normalização da violência, onde é mais conveniente não acreditar, mais prático se omitir, mais fácil negar?

Não devemos deixar que a morte de Henry sirva apenas à nossa perplexidade. Esse assassinato não pode ser esquecido. Deve ser motivo para que todos, inclusive nos diversos níveis institucionais de proteção, repensem suas obrigações para com a infância dos indefesos, dos frágeis, daqueles de quem se diz serem o nosso futuro. A que futuro pode aspirar uma sociedade que alimenta a impunidade, aposta no individualismo e não zela pela vida das suas crianças?



COMENTÁRIOS

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  • Carlos
    17/04/2021
    As pessoas existem sem se conhecer quem são. A essência do ser humano é espiritual, não é almática nem carnal. I Tessalonissenses 5:23 Há uma hierarquia a ser obedecida e as pessoas invertem para seu próprio dano. 1º o espírito, 2º a alma e 3º o corpo. Gênesis 1:20,23 Se o homem fosse animal teria sido criado numa mesma fornada do 5º dia como os demais. Gênesis 1:31 Por não ser animal o homem foi criado no 6º dia. Entenda que a ligação entre humanos (casamento) é espiritual, não é acasalamento como animais. Mateus 19:6 uma vez ligados se torna um, não tem como cortar... se o marido quebrar o braço a ortopedia conserta, a psiquiatria, etc., não existe ex. Tiago 4:4,5 Quem ama mata. Animais não matam pois o amor é espiritual. Tudo é claro, basta ler a bíblia.
  • Thiago Nogueira da Silva
    18/04/2021 1 Curtiu
    Se fosse com minha filha de 3 anos eu ia até o fim para matar esse desgraçado! Mas da pior e mais dolorosa forma possível a e como eu ia.
    • Beltrame Custódio
      19/04/2021
      Faço minhas as suas palavras meu amigo. Para defender minha família, deixaria todo o considerado \"socialmente aceito\" de lado e praticaria todo tipo de barbaridade. Visto que a família é sagrada e temos que protege-la!
    • Mariana
      19/04/2021
      Faria o mesmo, pela minha filha sou capaz de qualquer loucura para protegê-la .. ela pode não ter um pai presente, porém ela tem uma mãe que faria qualquer coisa por ela doa a quem doer.
  • Gerardo Prado
    21/04/2021
    No pais da impunidade, como vimos recentemente com a soltura do maior ladrao de nossa historia, e da inversao de valores, o que vai acontecer??? Esse tal jairinho ficara aguns meses ou semanas preso... e mais nada,.... logo voltara a ser eleito e ainda por cima vai querer se passar por vitima... e muito triste... ver nosso pais neste estado degradante...volto a dizer para apoiadores da esquerda que defendem psicopatas...vamos pagar muito caro pela impunidade que ja esta arraigado em nossa cultura.
  • Carlos
    22/04/2021
    CASO DO HENRY - Nínguém quer ajudar crianças em situação de risco como o Henry. S´tomam medidas inócuas. Deputado Helio Lopes está apresentando o projeto de lei PL 1386/21 Aumento de penas para padrastros e madrastas. Quem disse que o priblema é a pena ??? Por acaso o assaltante de bancos examina o código penal antes de assaltar ??? Da mesma Forma este padrastro não quer saber a dosimetria de penas, ele confia mesmo e na sua impunidade, na falta de provas que agredia a criança como outros que estupram. E submetem a ideologias de gênero. Cadê os legisladores ??? eles não existem, nem os municipais, nem os estaduais, nem os federais, se existissem teriam feito leis para proteger o Henry. Há quem chore pelo Henry, mas é matador de crianças quando aprova o aborto. Qual a diferença entre o feto e o adulto??? Apenas o tempo de nutrição..então, os animalescos raciocinam, se pode matar o feto, pode matar o henry. Toda pessoa que se divorcia e tem crianças e se unem a novos parceiros as condenam a morte. A fórmula da morte: “Crianças frutos de outros relacionamentos aos olhois dos padrastos são fetiches de chifre” Os côrnos matam tais frutos como o leão na alcatéia que vence o líder e mata os filhotes das leoas, para ter sua própria descendência e relativismo. Tem crianças que sofrem ao serem adotadas pois são forçadas sexualmente as ideologias de gênero. LEGISLADOR TINHA QUE FAZER LEI DE ACOMPANHAMENTO semestral obrigando haver audiências para perguntsr s criança adotada se não está sofrendo maus tratos....se AS CRIANÇAS ESTÃO SENDO RESPEITADAS, podem estar passando fome, mas não podem ser desrespeitadas. Vivemos tempo de comunismo, tempo do anti0cristo. Arrazoe quem quiser articule quem souber...
  • Caso Henry
    22/04/2021
    Levanta a mão ai quem acha que o psicopata drogado e embriagado Jairinho antes de dar pontapés no Henry ( que o vê como fetiche de corno) vai dizer: Primeiro deixa eu dar um olhada na dosimetria da pena.... ??????
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