08 de maio de 2021

Nossas Letras

Diferenças

|Tristes tempos em que respeito e medo da morte estão latentes. Ou desaparecidos."

Nossas Letras 24/04/2021
Lúcia Brigagão
Especial para o GCN
“Faz muito tempo. Padeiros, leiteiros e verdureiros saíam de madrugada de seus estabelecimentos para entregar respectivamente pão, leite e verduras diretamente na casa do cliente - prova de que atendimento direto ao consumidor não é novidade. Era comum usarem terno e chapéu, uma elegância só. Sem vans adesivadas, padeiros subiam na carroça que trazia o nome da padaria pintado à mão na lateral e levavam, solenemente, de porta em porta, o alimento que inaugurava as manhãs de todas as casas.  Algumas donas de casa esperavam-nos à porta de casa com dinheiro nas mãos ou nos bolsos dos aventais que usavam na frente do corpo, para não sujar os vestidos. Se não dinheiro, levavam a caderneta que registrava cada compra - fechada, paga e zerada todo final de mês. 

O leite, natural, sem tratamento, vinha colocado em vidros transparentes, hoje considerados peça de lojas de antiguidade. Chegavam cheios e marcados, e eram trocados pelos imaculadamente limpos: as donas de casa lavavam-nos até voltarem a ser translúcidos, sem qualquer cheiro. O leite tinha que ser fervido em casa, o que era feito em fogões à lenha e, ao esfriar, deixava nata de quase três centímetros na vasilha. Com ela fazia-se creme de leite e manteiga. Os pães vinham embrulhados em papéis pequenos que os envolviam apenas na parte central, bojuda. Invariavelmente eram do tipo baguete e grandes: cortados, tirava-se deles pelo menos seis boas fatias.

Os verdureiros tinham veículos ligeiramente diferentes. Na falta de caminhonetes, na busca de maior eficiência, suas carroças tinham carrocerias abertas e ali eram expostos legumes, ovos, verduras e frutas. Todos usavam buzinas, instrumentos que produzem som estridente, para anunciar a chegada e, pelo toque, é que se reconhecia cada fornecedor. Davam atendimento, um dedo de prosa e iam embora lentamente, a sacolejar nas ruas sem calçamento, parando em todas as portas para atender ora os habituais fregueses, ora novos clientes. Padeiros e leiteiros deixavam as entregas nas soleiras das portas, toda vez que os donos das casas prolongavam o sono. As mercadorias não desapareciam se não eram entregues em mãos. Era uma época em que ladrões, que já existiam, pelo menos respeitavam casas de família. Faz tempo, isso.

Hoje, tempo de pandemia, correria, pressa, os entregadores - de comida pronta - são os motoqueiros que não temem nem por suas próprias vidas e, muito menos pelas vidas alheias. Atravessam sinais fechados, desobedecem às instruções de trânsito, são capazes de ofender verbal ou gestualmente qualquer motorista de carro, ou pior, pedestre, que ouse permanecer na sua mão sem lhes dar passagem, mesmo que isso signifique atrapalhar o tráfego. Xingam, ofendem, balançam suas motos para demonstrar perícia e habilidade com a máquina. Entrar em casa pelo portão da garagem, principalmente se localizada em quarteirão de rua com intenso movimento urbano, quando se está `a frente de motoqueiros apressados é tarefa para heróis.

Tristes tempos em que respeito e medo da morte estão latentes. Ou desaparecidos.

 

(Texto de 2 de abril de 2016, reeditado com modificações em 21 de abril de 2021.)



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