08 de maio de 2021

Nossas Letras

Outono

“Acima de tudo e de todos, sobre a cidade, o céu é puro azul inocente, sem jaça, ainda ignorante das nuvens pesadas que em algum tempo surgirão afoitas a trazer o frio.”

Nossas Letras 24/04/2021
Sônia Machiavelli
Especial para o GCN
Dálias florescem em vasos toscos, cuja pintura descascada lembra passado de chuva, sol, descuido. Apesar das condições adversas não se quebrou, ainda contém a terra úmida que alimenta raízes, hidrata caule, permite as flores, controla o cair das folhas, sustenta apenas o tubérculo onde a vida vegetal descansará até que chegue a próxima primavera. A utilidade de um vaso é seu vazio.

A hera agarrada à parede tenta reter o verde que esmaece lentamente para dar lugar a um tom acastanhado que por sua vez cederá vez ao bordô que daqui a pouco será nada. Mortas todas as folhas, veremos só hastes desenhando caminhos sinuosos, agarradas à cal pelas gravinhas fortes que seguram a seiva , bombeada desde o subterrâneo por força surpreendente. De norte a sul, de leste a oeste, desenharão nos muros imagens curiosas onde nossa imaginação verá estradas ou mapas.

Folhagens cor de cobre a que botânicos batizaram como coléus começam a esmaecer e apresentar estrias na superfície enquanto os dias vão se tornando mais curtos. Nosso povo, na sua sabedoria e linguagem poética, as chama de coração-partido. Um pouco por conta do formato das bordas, outro tanto por causa das estrias acentuadas. Até que o Sol volte a brilhar por muitas horas e restitua cor aos canteiros, elas desbotarão.

Buganvílias extirpadas em agosto de seus galhos secos e espinhudos, arrebentam nas pontas tenras botões que formam cachos diferentes segundo a espécie. Elas são um lembrete de que tudo está em movimento, nada é permanente, ainda que nos escape a dinâmica do todo. Ao contrário da vida humana, a vegetal é previsível. Para nossos olhos cansados de indefinições, e nossas almas estressadas por ameaças à vida, isso é um conforto.

Uma bromélia que durante todo o ano manteve num canto qualquer seu verde intenso nas folhas duras, no fim desse abril irradia do centro uma haste cor-de-rosa onde poucas e delicadas flores exibem um tom espetacular, mistura de azul e roxo, milagre até então aguardado porque dura apenas 24 horas; quem não as vê, perde; é como um eclipse ao contrário.

Folhas debilitadas caem sobre gramados e calçadas quando a brisa das manhãs e dos entardeceres ganha status de vento. Primeiro as pequeninas e mais frágeis, em seguida as maiores. Já ressecadas, têm como destino o solo, ao qual conferem toque setentrional ao espaço tropical, onde bailam até se transformarem em húmus, palavra que deveria sempre despertar humildade.

Acima de tudo e de todos, sobre a cidade, o céu é puro azul inocente, sem jaça, ainda ignorante das nuvens pesadas e cinzentas que em algum tempo surgirão afoitas a trazer o frio. De muito longe, de lugar antigo onde há velhos livros, pratas brilhantes, cristais lapidados e amores trágicos, chega uma canção oriunda de um violino cujas notas monocórdias acalmam a alma como canção de ninar. É Verlaine nos versos pungentes que resistem há mais de cem anos: “Le sanglot long/ des violons/de l'automne//Blessent mon coeur/d'une langueur/ monotone// Tout suffocant/ et blême, quand/sonne l'heure//Je me souviens/des jours anciens/ et je pleure//Et je m'en vais/au vent mauvais/qui m'emporte//Deçà, de là/pareil à/la feuille morte.” Ao ouvi-los, Rimbaud bradou: “E tudo é música!”

O outono é também um estado de espírito.



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