30 de julho de 2021

Nossas Letras

O futuro chegou antes

“Acho maravilhoso que ficcionistas sintonizem o futuro, e captem com suas antenas aquilo que um dia será realidade".

Nossas Letras 05/06/2021
Sônia Machiavelli
Especial para o GCN
Quando vejo meu neto de dez anos sendo advertido pelos pais em situação específica, me recordo de vivência parecida à dele e penso em mim nos anos 60. Também fui apaixonada por gibis e deixar as histórias no meio, às vezes no maior dos suspenses, representava enorme frustração. Explico.

É comum que o João, intimado a abandonar por alguns minutos sua leitura, em lugar de usar um dos muitos marcadores de página que lhe demos, deixe os gibis esparramados, abertos sobre mesas, cadeiras, qualquer lugar. Mãe e pai não entendem; avó sim. É como se ele não quisesse que a história se encerrasse ali, no fechar das páginas; como se as folhas pudessem escapar da brochura por um portal existente só na sua imaginação; como se abertas, fossem garantia de que o relato não fluiria, esperando-o em suspensão. Assim vai ele deixando a infância.

E assim fui eu até à adolescência, trocando gibis usados com meninos e meninas que aos domingos se aglomeravam na banca existente defronte do antigo Cine Avenida, onde às vezes íamos assistir a algum filme nas matinês. Nas páginas ou na telona viajávamos ao encontro de mundos fantásticos. Personagens semelhantes a humanos ou bem diferentes do gênero conduziam nossa imaginação para anos-luz de distância da Cidade Nova, onde a maioria morava.

Depois chegou a vez dos desenhos produzidos para a telinha. E fiquei apaixonada pelos Jetsons, família fantástica que vivia na moderníssima Orbit City. Essa paixão foi duradoura.

Na casa dos Jetsons havia televisores de telas gigantes, sem tubos feios e longos. As crianças faziam lições com o auxílio de máquina que as ajudava: bastava ler o enunciado de um problema e ela fornecia o caminho para a resolução com sua voz metálica. Era o sonho de todo estudante de ginásio da época, acordado de manhã pela voz da mãe ou o tilintar do despertador, enquanto a garota Judy e o menino Elroy sabiam que estava na hora de ir para a escola através de outra voz, oriunda de um aparelho que conversava com eles. E todo mundo daquela cidade futurista usava um tipo de relógio de pulso que fazia chamadas de vídeo e áudio.

De manhã, para ver o que estava acontecendo no mundo, o Sr. George, em lugar de abrir um jornal impresso, sentava-se diante de uma tela e lia as notícias. Às vezes essa tela trazia imagens em movimento de coisas que aconteciam bem longe - e na mesma hora! Depois de se atualizar sobre os últimos acontecimentos do planeta, George os comentava com sua esposa Jane, que por sua vez mexia nas teclas de um robô de nome Rosie, encarregado de todas as tarefas domésticas. Se não bastasse, ainda ajudava as crianças a trocar de roupa e às vezes levava o cão Astro para passear.

Quando sentiam fome, os membros da família retiravam saquinhos de ingredientes de um móvel parecido com geladeira, colocavam em outro menor, apertavam um botão, programavam o tempo e minutos depois a comida saía pronta e quentinha.

Se não pretendiam se afastar para longe de casa, deixavam na garagem seus carros voadores e usavam esteiras públicas, como essas que existem hoje nos aeroportos de todo o mundo. Orbit City era o paraíso: as pessoas trabalhavam só duas horas por dia, apenas duas vezes por semana. Numa sociedade altamente tecnológica, o resto do tempo era dedicado ao lazer criativo.

Essas histórias que nos pareciam extraordinárias foram criadas por dupla de gênios do desenho animado, Hanna e Barbera, em 1962. Antes, os dois haviam colocado para correr Tom e Jerry, assim como tinham voltado à Idade da Pedra para nos mostrar outra família, mas dentro dos padrões das cavernas: os Flintstones.

Acho maravilhoso que ficcionistas sintonizem o futuro, e captem com suas antenas aquilo que um dia será realidade. Quase todos os objetos e aparelhos imaginados por Hanna e Barbera para facilitar a vida dos moradores de Orbit City no ano 2062 já podem estar em nossas casas neste 2021. Os mais recentes chegados ao nosso país são o robô redondo que aspira todo o pó da casa e depois volta à sua base- sem fios, sem interrupção, sem barulho; e a secretária que nos lembra de tarefas programadas, desliga luzes, acende forno, nos reporta fatos, toca a música que lhe pedirmos- de Bach a Seu Jorge. Ela se chama Alexa.

Falta agora pensar num jeito fácil de ir a outros planetas e satélites desta nossa galáxia, como faz Elroy num carro voador que o leva para passar um fim de semana na Lua com seus amigos. Neste 5 de junho, quando o mundo reflete sobre o Meio Ambiente, reconheçamos que temos maltratado demais a Terra. Ferimos sua pele, envenenamos suas artérias, sujamos os mares, queimamos florestas, alteramos a atmosfera, escurecemos o céu com gases asfixiantes, promovemos o aquecimento das calotas polares, liquidamos espécies que nunca mais serão vistas e assim inviabilizamos aos poucos a Vida. É bom ir preparando uma saída, porque haverá um momento em que a situação do planeta ficará insustentável. Alguma dúvida?



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