29 de novembro de 2021

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A culpa não é de São Pedro

Desde quinta-feira, Franca está passando por um racionamento de água. A cidade inteira foi dividida em 4 blocos, que estão se revezando entre 72 horas com água e 24horas sem. O rodízio, anunciado pela Sabesp no começo da semana passada, deixou a população apreensiva e fez muita gente procurar alternativas para os dias de racionamento.

Opinião 04/09/2021
Guilherme Cortez
Especial para o GCN
Desde quinta-feira, Franca está passando por um racionamento de água. A cidade inteira foi dividida em 4 blocos, que estão se revezando entre 72 horas com água e 24horas sem. O rodízio, anunciado pela Sabesp no começo da semana passada, deixou a população apreensiva e fez muita gente procurar alternativas para os dias de racionamento.

A falta de água não é uma realidade só em Franca. Há semanas, autoridades e especialistas estão alertando para o racionamento de água e energia em todo o país. A Agência Nacional de Enérgica Elétrica anunciou, na última semana, a criação de uma nova bandeira tarifária, com aumento de 6,78% na conta de luz dos brasileiros.

Em Franca, o racionamento se deve à seca do Rio Canoas, que abastece a cidade. O rio faz parte da Bacia Hidrográfica do Sapucaí-Mirim/Grande e, no último período, sofreu uma queda de 60% no nível de captação de água. O rodízio foi a alternativa encontrada pela Sabesp para evitar a escassez total nas próximas semanas.

Junto com o racionamento de água, a Prefeitura e a Câmara Municipal fizeram apelos pelo uso consciente da água pela população. Campanhas como essas são sempre bem-vindas. Afinal, conscientização nunca é demais. Mas o problema da falta de água na cidade vai muito além do consumo doméstico.

Falar em “aquecimento global” e “mudanças climáticas” parece uma realidade abstrata para a imensa maioria das pessoas, papo de “cientistas malucos” e “ecochatos”. Assim como ninguém imaginava que uma pandemia poderia parar o mundo em plena década de 2020, somos levados a pensar que os efeitos do aquecimento do planeta não podem nos atingir. O derretimento de geleiras parece uma realidade distante demais para nos preocuparmos.

Infelizmente, as consequências do aumento da temperatura da Terra são mais presentes do que gostaríamos de crer. Incêndios, secas e inundações são fenômenos cada vez mais recorrentes no mundo. Não é só em Franca que rios estão secando e o racionamento de água se tornando realidade. E se a emissão de gases poluentes na atmosfera não for urgente revista, será ainda mais presente nas nossas vidas nos próximos anos.

O Brasil, que já ocupou um papel de destaque internacional na defesa do meio ambiente, nos últimos anos tem chamado a atenção mundial pelas queimadas e índices de desmatamento recorde na Amazônia e no Pantanal, sob a batuta de um ministro do Meio Ambiente investigado por crime ambiental. Mas não precisamos ir muito longe para falar de queimadas. Nessa época do ano, não faltam incêndios na nossa região, que destroem áreas verdes, prejudicam a qualidade do ar e afastam as chuvas que poderiam abastecer o Rio Canoas, por exemplo.

Falando em desperdício, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 70% da água consumida no mundo inteiro é utilizada pela agropecuária e 22% pela indústria. O consumo doméstico, a quem sempre se destinam as campanhas de conscientização, é responsável por apenas 8% desse uso. Mais uma vez, em Franca não é diferente: os curtumes estão no topo da lista de atividades que mais consomem água na cidade – muitos possuindo, inclusive, sistemas próprios de abastecimento.

O que seria cômico se não fosse trágico é que, na última quarta-feira, um dia antes do início do racionamento na cidade, os vereadores receberam representantes da Associação dos Loteadores de Franca para discutir – acreditem – a ocupação da bacia do Rio Canoas e a revisão da lei que preserva a área, ambas as medidas apoiadas pelo prefeito Alexandre Ferreira. O loteamento das regiões próximas aos rios produz a impermeabilização do solo, contribuindo para os alagamentos e prejudicando o abastecimento de água. No ano passado, inclusive, um terreno irregular com 65 lotes às margens do Rio Canoas foi denunciado ao Ministério Público, o que poderia causar sérios prejuízos ambientais para a nossa região.

No mínimo, às vésperas do desabastecimento da cidade, era de se esperar que os vereadores estivessem empenhados em reforçar a preservação da nossa principal fonte de água e não em reduzi-la. Mas a alternativa mais fácil é colocar a culpa em São Pedro pela falta de chuva.

 



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