22 de outubro de 2021

Nossas Letras

Consumo, logo existo

No poema “escárnio e maldizer” do meu livro “Diário dos miseráveis” (Penalux, 2021) o consumismo desenfreado que apodrece oceanos reaparece como temática num diálogo com o Boca do inferno.

Nossas Letras 05/09/2021
Baltazar Gonçalves
Reprodução

Gregório de Matos tinha um apelido, era chamado “o boca do inferno” porque incomodava a sociedade escravocrata brasileira da sua época. O poeta “boca de brasa” viveu entre 1636 e 1696 e já denunciava as engrenagens do capitalismo mercantil que transformava o Brasil em agroexportador e o povo brasileiro em mercado consumidor. Apesar do poeta-profeta, logo os produtos industrializados ingleses afogariam a Guanabara, os saxões desenhariam o futuro em que hoje mergulhamos. 

Se trocarmos “Bahia” por “Brasília” atualizaremos o poema mais famoso de Gregório de Matos: “Triste Brasília! ó quão dessemelhante / Estás e estou do nosso antigo estado! / Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado, Rica te vejo eu já, tu a mi abundante. / A ti tocou-te a máquina mercante, / Que em tua larga barra tem entrado, / A mim foi-me trocando, e tem trocado, / Tanto negócio e tanto negociante.” 

No poema “escárnio e maldizer” do meu livro “Diário dos miseráveis” (Penalux, 2021) o consumismo desenfreado que apodrece oceanos reaparece como temática num diálogo com o Boca do inferno. O suposto bom Bloom mineiro tenta unir o barroco brasileiro retorcido ao discurso distorcido do irlandês James Joyce atendo ao que a língua saxã pode e quer nesse mundo onde a cada dia valemos menos que um fluxo de consciência.

 

ESCÁRNIO E MALDIZER 

 

Pareço bobo, mas não sou parvo.

A terra é redonda e deus não existe.

Dito isso daquilo nego porque preciso:

a ciência em toda parte é responsável

pela tristeza funda espalhada no mundo.

 

Abortando o assunto rezo escárnio

A são gregório de matos guerra,

Que ele bote o mundo de cabeça para baixo

E eu cague um poema bonito na privada

Assim:

 

crucifiquem a poesia com força

linchem a primeira pessoa

até que o osso do indigente apareça branco

no índice do ibope, depois 

coroem um ladrão de sorte

deem a ele emprego na república;

espinha o verbo e chupa sua ferida

porque ela é só isso: é sua, é ferida

 

Se essa verborragia não restaura a aura perdida da palavra 

Tampouco o sentimentalismo da coisa errada no lugar certo;

Como um bom Bloom mineiro finjo de morto 

Para beijar a poesia do coveiro

Ulisses jesus cristo! 

Salvai-nos do porre sonolento

Me deem logo um copo de tupy quilombola

Que essa escola anglo-saxã é maçada;

Meta de uma vez seu greenwich na sua bolsa prada

Se fendi ou fode com seu hilde palladino tanto faz

Pouco importa como você goza louis vuitton


 

   



COMENTÁRIOS

A responsabilidade pelos comentários é exclusiva dos respectivos autores. Por isso, os leitores e usuários desse canal encontram-se sujeitos às condições de uso do portal de internet do Portal GCN e se comprometem a respeitar o Código de Conduta On-line do GCN.

Ainda não é assinante?

Clique aqui para fazer a assinatura e liberar os comentários no site.

Veja mais Textos

MAIS LIDAS

COLUNISTAS

ECONOMIA Atualizado 1 hora atrás

  • Dólar Comercial:
    Data:
  • Dólar Turismo:
    Data:
  • Euro:
    Data:

LOTERIAS Atualizado 1 hora atrás

  • Mega-Sena:
    Sorteio: , , , , , Data: 30/11/-0001
  • Quina:
    Sorteio: , , , , Data: 30/11/-0001