18 de setembro de 2021

Nossas Letras

|BALTAZAR GONÇALVES|

Inspetor na oficina

Um inspetor veio à oficina com ordens de avaliar o funcionamento da mecânica, sua opinião pode interferir nos cursos. Na semana seguinte, em relatório recebido, a empresa advertiu que “os procedimentos do fabrico depreciam os bons costumes”. Eles não aceitam bem o que se faz fora dos padrões estabelecidos no século passado. O inspetor escreveu em tom miliciano “queremos o bem de todos, mas fiquei incomodado em certos momentos da inspeção”.

Nossas Letras 11/09/2021
Baltazar Gonçalves
especial para o GCN
Um inspetor veio à oficina com ordens de avaliar o funcionamento da mecânica, sua opinião pode interferir nos cursos. Na semana seguinte, em relatório recebido, a empresa advertiu que “os procedimentos do fabrico depreciam os bons costumes”. Eles não aceitam bem o que se faz fora dos padrões estabelecidos no século passado. O inspetor escreveu em tom miliciano “queremos o bem de todos, mas fiquei incomodado em certos momentos da inspeção”. Ora, esse é o efeito esperado no trabalho da oficina: incomodar, desalojar, alentar, penetrar a mente rasa e produzir qualquer reflexão como antídoto ao alheamento, nossa manufatura deflagra o sujeito-objeto sem ação desalinhado.

Segundo o inspetor, entre nós “havia opinião desformada” - bem, se a manufatura foi percebida como “fora da fôrma” isso diz mais da percepção do inquisidor que das partes criadoras. Ao que parece, a discordância do sujeito na própria ação gerou na fonte cínica do pensamento dele incômodo libertário. Ele percebera que a mecânica desta moenda mastiga narrativas e cospe indultos. O inspetor se viu impelido a absorver ideias em fluxo e desconfortável se fechou entorpecido. A insensibilidade na cara dele era estampa de alegria deprimente, cara de emoji, ou máscara de insfluencer digital decadente, feliz por nada e satisfeito com o vazio que dá naquela falsa impressão de pertencimento.

Ao tentar assegurar uniformidade esvaziada de ideologia na obra, o inspetor distorceu ato e conflito. Em seus parâmetros, o tal relatório reflete políticas nefastas que tiram a esperança dos jovens desclassificando o conhecimento como ferramenta de análise, interpretação e reflexão crítica. O inspetor censura, “o trabalho de vocês deve ser entretenimento descontraído e saudável”. Ora, não estamos mais no jardim da infância, e o tempo da inocência está perdido porque tende a ser assim mesmo. O contrário de “saudável” seria “doente”? Mora grande perigo adjetivar cultura em termos morais, parece desejo de unanimidade e já disseram que toda unanimidade é burra, mesmo se rachada ao meio.

Operários não somos tolos, não existe neutralidade nos paradigmas. Quem pensa assim apenas foge da maturidade, destino final do fruto exprimido em oficinas artesanais onde nada detém a linguagem do bagaço espremido.



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  • Joao Barros Valim
    12/09/2021
    Gostei muito! Parabéns poeta!
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