22 de outubro de 2021

Nossas Letras

SONIA MACHIAVELLI

Antigas e novas palavras

Uma professora de linguística elencou há cinco anos, em alentado trabalho acadêmico, as dez palavras mais ditas pelo falante do português: “ coisa, casa, tempo, ano, dia, vez, homem, senhor, senhora, moço/moça. Desconfio de que elas nasceram com a fundação do Condado Portucalense, semente geográfica plantada por Vímara Peres no século IX, na região que hoje é a cidade do Porto, e crescendo tornou-se independente em 1139, por obra e graça de Afonso Henriques. Esse príncipe teve assim seu nome ligado umbilicalmente à formação de Portugal.

Nossas Letras 18/09/2021
Sonia Machiavelli
especial para o GCN
Uma professora de linguística elencou há cinco  anos, em alentado trabalho acadêmico,  as dez palavras mais ditas  pelo  falante do português: “ coisa, casa, tempo, ano, dia, vez, homem, senhor, senhora, moço/moça. Desconfio de que elas nasceram com a fundação do Condado Portucalense, semente geográfica plantada por Vímara Peres no século IX, na região que hoje é a cidade do Porto, e crescendo tornou-se independente em 1139, por obra e graça de Afonso Henriques. Esse príncipe teve assim seu nome ligado umbilicalmente à formação de  Portugal.  

Às  palavras acima poderíamos chamar prosaicas. Na mesma pesquisa, as poderosas, que se definem  por evocar a  grandeza da vida e a complexidade da condição humana, compreendem “humanização, metamorfose, gratidão, natureza, apogeu, comunicação, pertencimento, fecundação, possibilidade, plenitude.”  As mais belas? “Esperança, fé, alegria, felicidade, amor, paz, luz, saúde, sorriso, verdade” - não por acaso  aquelas  às quais  recorremos quando enviamos mensagens  para desejar a alguém o que há de melhor no mundo. Uma curiosidade: dentre os advérbios, indicadores de circunstâncias, o “não” ocupa o primeiro lugar e o “sim” não aparece listado entre os dez mais usados, ficando atrás de “mais, muito, já, quando, mesmo, depois, ainda, menos.”

Se algum instituto especializado em linguagem fizesse hoje uma pesquisa para apurar a  lista das  palavras  mais  usadas nos últimos vinte meses pelos brasileiros, acho que encontraria “medo, pandemia, dor, coronavirus, lockdown, vacina, negativismo, morte, raiva, covid.”  São termos tristes do idioma. O primeiro é antiquíssimo; o último, novinho, não tem dois anos. Assim  é a língua.  Como a vida, fenômeno dinâmico. O idioma mantém palavras que são de uso constante; registra a transformação  ocasionada pelos chamados fenômenos linguísticos; acolhe as que surgem por conta da necessidade de nomear o que passa a existir;  coloca no nicho das obsoletas as que deixam de ser empregadas: alguém  já ouviu a palavra “espiriteira” nesse século?

Somos homo loquens. A cada ano a Academia Brasileira de Letras inclui novos termos no dicionário oficial. São aqueles impostos pela vivência diária que os transforma ao longo do tempo; ou os oriundos de  áreas do conhecimento enriquecidas por aquisições e mudanças. A última adição  promovida pelos acadêmicos bate nos mil.  Do mundo empresarial chegam, entre tantos, “compliance”, “coworking”; do universo político, “fake news”; da área digital, “live, podcast, webnário”; do segmento das finanças, “criptomoeda”. A  psicologia contribui com vários, entre eles “resiliência” e “ressignificar’’; a arquitetura  adicionou “gentrificação”; o movimento feminista,  “sororidade”; a  nutrição  trouxe o vegano;  a filosofia cravou o “pós-verdade”. Etc.

O léxico da nossa língua  é sem dúvida rico: na última edição, o Houaiss contabilizou cerca de 400 mil palavras. Quanto à oralidade do português do Brasil, influenciada por timbres indígenas  e africanos, ela decorre também da sintaxe que confere à frase ritmos singulares, considerados suaves e eufônicos por ouvidos estrangeiros. No mundo dos verbetes, onde o poeta aconselhou a entrar mansamente,  existe até um que afirmam ser único, “saudade.” Sua  tradução para outro idioma não encontra exata correspondência.

O inverso é verdadeiro. Passando os olhos por outras línguas (que não a inglesa, tão presente no nosso cotidiano), podemos encontrar vocábulos que nos fazem falta. Um deles está  no dinamarquês “hygge”. Não é aconchego, conforto, paz, satisfação ou bem-estar. É a soma de tudo isso  e  significa “valorizar os pequenos prazeres da vida”. Os alemães dizem “wanderlust”, para expressar desejo  profundo por viajar e se extasiar com o mundo. Em  lugar de verbalizar  como nós ”Ah, nunca imaginei que tudo pudesse acabar bem!”, um holandês dirá apenas: “Tafalle!” Na Noruega, “a delícia de saborear um chopp ao ar livre num dia de sol” é sintetizado em”Utepils”. Mas o máximo da concisão está no sueco “Gokotta”, cuja  equivalência em português ultrapassa  uma dúzia de palavras: “acordar cedinho para fazer um piquenique  e apreciar o nascer do sol e a natureza”. Há muitas outras do gênero, ou seja, intraduzíveis.

Se me fosse permitido escolher uma palavra estrangeira para  entrar no nosso idioma, seria a japonesa “Wabi-Sabi”. Ela traduz  uma forma de pensar ligada à  busca por conexão com o autêntico e a natureza, reconhecendo três realidades essenciais: nada dura, nada é completo, nada é perfeito.Então, nosso foco deve estar noprocesso e não no produto final; nosso olhar na  jornada e não na chegada; nossa atenção no instante e não no futuro.

Banhada pela filosofia oriental, Wabi (simplicidade)-Sabi ( beleza do desgaste do tempo)  sugere que devemos encontrar beleza na imperfeição e aceitar a impermanência  da vida. Mas penso neste momento que antes da palavra precisaríamos desenvolver a condição de acolhê-la.

Voltarei ao tema.

 

 



COMENTÁRIOS

A responsabilidade pelos comentários é exclusiva dos respectivos autores. Por isso, os leitores e usuários desse canal encontram-se sujeitos às condições de uso do portal de internet do Portal GCN e se comprometem a respeitar o Código de Conduta On-line do GCN.

Ainda não é assinante?

Clique aqui para fazer a assinatura e liberar os comentários no site.

Veja mais Textos

MAIS LIDAS

COLUNISTAS

ECONOMIA Atualizado 1 hora atrás

  • Dólar Comercial:
    Data:
  • Dólar Turismo:
    Data:
  • Euro:
    Data:

LOTERIAS Atualizado 1 hora atrás

  • Mega-Sena:
    Sorteio: , , , , , Data: 30/11/-0001
  • Quina:
    Sorteio: , , , , Data: 30/11/-0001