22 de outubro de 2021

Nossas Letras

SONIA MACHIAVELLI

Dias escaldantes

“Tomara que chova/ Cem dias sem parar/ A minha grande mágoa/ É lá em casa não ter água/ Nem pra me lavar”. Esses versos carnavalescos de Paquito e Romeu Gentil, mantidos no imaginário brasileiro, reapareceram nas redes sociais nas últimas semanas, por óbvias razões. E me fizeram pensar que marchinhas podem ser avaliadas como crônicas do século passado, constituindo capítulo interessante da música popular.

Nossas Letras 25/09/2021
Sonia Machiavelli
especial para o GCN
“Tomara que chova/ Cem dias sem parar/ A minha grande mágoa/ É lá em casa não ter água/ Nem pra me lavar”. Esses versos carnavalescos de Paquito e Romeu Gentil, mantidos no imaginário brasileiro, reapareceram nas redes sociais nas últimas semanas, por óbvias razões. E me fizeram pensar que marchinhas podem ser avaliadas como crônicas do século passado, constituindo capítulo interessante da música popular. Entre as décadas de 40 e 60, registraram fatos que nos permitem hoje viajar pela história do país, já que nas letras encontramos crítica social, episódios políticos e registros circunstanciais. Várias delas versam sobre a falta de água que assolava a população carioca, como aparece em “Vagalume”, de Vitor Simon e Fernando Martins, lançada em 51: “Rio de Janeiro/Cidade que nos seduz/De dia falta água/De noite falta luz”. Nessa época, Elizabeth Bishop, poeta norte-americana laureada com o Pulitzer, que viveu sete anos no Brasil, foi convidada a traduzir ambas as citadas para o inglês. Ficou perplexa com a nossa vocação para extrair alegria de algo que a ela parecia insuportável. Sua cultura a impedia de entender a nossa maneira de sofrer as agruras do clima associadas à incompetência administrativa.Pensando melhor, ela tinha razão, pois não há como afastar o mau humor quando a torneira seca, o banho não acontece, o cesto de roupas sujas transborda, as plantas murcham e o sol queima como brasa.

O tempo passou, a crise hídrica paulatinamente atingiu outros estados, tornou-se mais grave a cada estação. E assim brasileiros de todas as regiões passaram a sentir já no começo da primavera um pouco da dificuldade de viver dos nordestinos, descrita com realismo por Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos. País com inúmeras bacias hidrográficas, 12% da quantidade total de água doce no planeta, o Brasil parecia não carecer de cuidados até o início deste milênio.Hoje a realidade é outra, pois há rios secando em decorrência de florestas amputadas que respondem ao seu modo, cobrando preço alto. No último 21 deste setembro escaldante, Dia da Árvore, a imagem de toneladas de toras de madeira de lei destinadas ao forno de uma metalúrgica representou um contraponto doloroso à data. E o problema não é só local, embora se agudize por aqui. Há evidentes sinais de mudança climática no mundo. Lideranças lúcidas prenunciam era difícil para os pósteros. O planeta é de todos, não haverá salvação para uns e danação para outros. Ou nos unimos na preservação do meio ambiente, ou estaremos todos condenados.

Envolta nesses pensamentos, originados da crise de abastecimento que se abate sobre nós, francanos, como se já não tivéssemos tantos desafios a serem enfrentados, eu pergunto se me lembro de alguma primavera como essa, que obrigou a Sabesp a impor um racionamento de água nos moldes atuais. Não; não me recordo de dias assim escaldantes, nem de ar tão seco em Franca, terra reconhecida por seu clima ameno. Dias atrás, fagulha na zona rural virou incêndio, destruiu plantações, matou animais. Na última quinta-feira, faísca atingiu material facilmente inflamável e incinerou todos os componentes de uma fábrica de buchas, com enorme prejuízo para um empresário. Quanto ao nosso precário corpo, parte da natureza, acusa danos a toda hora. A boca seca rápido, as mucosas do nariz ficam irritadas, os olhos ardem, crianças e idosos desidratam com facilidade, o ânimo para o trabalho cai. Reclamamos com razão.

Toda crise traz em si uma virtude, dizem os orientais. No caso da água que escasseia, talvez possamos aprender que todos temos responsabilidade pelo nosso próprio futuro. Viver melhor ou pior resultará de nossas próprias escolhas. Quem sabe essa escassez nos leve a valorizar de fato “o precioso líquido”, aposto muito bem colocado nos textos de autores que lemos na infância. A falta pode ser oportunidade para novos comportamentos, pois há muito desperdício doméstico. Quando, há trinta anos, o príncipe Charles disse que fechava a torneira enquanto escovava os dentes, foi motivo de chacota. Não deveria ter sido. A água que vai embora numa simples operação como essa é impensável. Assim como o é a água que uma máquina consome para lavar cinco quilos de roupa. Faça o teste.

Nunca é demais lembrar, pois há quem disso se esqueça, que se 75% da superfície do planeta é composta de água, somente 1% é potável. Metade de nosso corpo é água. Perdemos mais de dois litros por dia, que devem ser repostos sob risco de morte. Por tudo isso deveria estar escrito numa tabuleta acima de toda torneira: “A água potável é finita”. Ter consciência dessa finitude pode ensejar uma mudança de hábito. Países como a Alemanha taxam alto o excesso de consumo, impedindo assim o desperdício em banhos longos e lavagem de carros e garagens. Por outro lado, precisamos, como cidadãos, cobrar mais de quem nos governa. Necessitamos dar um basta às mentiras, à falta de planejamento, à incompetência, ao atraso tecnológico, a tudo que representa empecilho à Vida. Preservar nossas fontes de água limpa e manter de pé nossas florestas é imprescindível. Que ninguém duvide: a água potável será um bem cada vez mais raro no mundo. Como em alguns filmes de ficção científica, quem detiver poder sobre ela poderá definir o destino da humanidade.

Se a arte puder servir de inspiração, evoco Guilherme Arantes, em uma proposta lírica para pensar um problema que pode se tornar trágico:“Água que nasce na fonte/Serena do mundo/E que abre um profundo grotão//Água que faz inocente/Riacho e deságua/ na corrente do ribeirão/Águas escuras dos rios/Que levam a fertilidade ao sertão/Águas que banham aldeias/E matam a sede da população/Águas que movem moinhos/São as mesmas águas/Que encharcam o chão/E sempre voltam humildes/Pro fundo da terra/ Terra! Planeta Água...”

 



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