22 de outubro de 2021

Nossas Letras

BALTAZAR GONÇALVES

Quem é quem na fila do pão

Quando a cidade faminta e eu atrasado, na Ouvidor Freire com a praça do correio em perspectiva, o congestionamento nas ruas estreitas evocou a Franca antiga onde o capim mimoso crescia anônimo ao deus-dará. Anonimato é uma dádiva. Não devaneia, Bill, se você não se concentra bate a nave. Na esquina da General Carneiro tem esse restaurante popular, a fila dobra a esquina. Sabe-se que na fila do pão muitos perderam tudo. Atenção no semáforo, vai abrir.

Nossas Letras 25/09/2021
Baltazar Gonçalves
especial para o GCN
Quando a cidade faminta e eu atrasado, na Ouvidor Freire com a praça do correio em perspectiva, o congestionamento nas ruas estreitas evocou a Franca antiga onde o capim mimoso crescia anônimo ao deus-dará. Anonimato é uma dádiva. Não devaneia, Bill, se você não se concentra bate a nave.

Na esquina da General Carneiro tem esse restaurante popular, a fila dobra a esquina. Sabe-se que na fila do pão muitos perderam tudo. Atenção no semáforo, vai abrir.

O restaurante presta serviço de utilidade pública, bacanas engravatados e damas cobertas de fina estampa não comem comida subsidiada. Quem ficaria exposto uma hora ao sol para comer talvez a única refeição que teria em 24 horas? Só os derrotados pela engrenagem da moenda. Cidades são máquinas, Franca é a capital do calçado. Eu devaneio, tu devaneias, ele devaneia, nós viramos a cara. Vida de gente humilde não vende romance na Saraiva do shopping.

O carro pára com meus pensamentos dentro. Então percebo aquele homem olhando-me como se encontrasse em sua mente o lugar de onde me conhecia. Olhos sorri-dentes. Existe uma distância considerável entre conhecer e reconhecer. O olhar dele me tocou como se uma brisa soprasse moita de capim. 

As relações entre as pessoas estão cada vez mais superficiais, ninguém tem tempo para doar um segundo e fazemos disso estilo de vida. A miséria singular do nosso tempo tem no verniz do discurso “a vida tá corrida, eu não tenho tempo para nada” a falácia “tempo é dinheiro”. Aquele homem na fila do pão podia ser eu em outra narrativa. Me senti exposto.

Os amigos mais próximos sabem que precisei de ajuda de estranhos quando a história da minha vida era beco sem saída. Eu aprendi a duras penas que tudo que nos acontece pode ser percebido como circunstancial. Assim, o bacana engravatado talvez tenha sido um adolescente assalariado preso na rotina das fábricas; a dama vestida de fina estampa, adolescente esperançosa que se casou por conveniência dos pais e fortuna, mas que ainda hoje, amargurada, se lembra do namoro proibido devorado nas circunstâncias.

De fato, tudo muda o tempo todo. Talvez não na velocidade de quem deseja e sente o peso do momento. Ali, no cruzamento dos tempos, as três colinas da vila Franca do Imperador se comprimiram num montículo de areia facilmente soprado pelo vento. Eu me reconheci no olhar duro, meigo e manso daquele homem na fila do pão. E porque era bom sentir-me descoberto e frágil como o capim repisado, vaguei no pensamento e quando avancei acelerando para virar a esquina entrei na contramão.

A General Carneiro traz o fluxo no sentido estação-centro, é mão de subida, e os carros fazem força de muitos cavalos para chegar ao plano. Cavalos, tropeiros, carroças, carruagens, carros: eu flutuava na contramão. Há duzentos anos não tinha nada construído aqui, cerrado e capim por relva. Espalhado recolhido ouvi alguém me socorrendo com um grito: é contramão! Era a voz daquele homem que parava o trânsito para que eu pudesse voltar de ré e retomar meu caminho.

Com o sinal do semáforo fechado atrás de nós, segui em frente, olhando pelo retrovisor o passado sem saber ao certo quem era quem na fila do pão.



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