29 de novembro de 2021

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O maior acidente da história do Brasil

Semanas atrás, o Brasil acompanhava apreensivo o desenrolar da escalada golpista empreendida em pessoa pelo presidente da República. As manifestações do Dia da Independência eram anunciadas como o começo do novo regime de Bolsonaro. Ameaças contra ministros, autoridades, instituições públicas e a democracia não faltaram. Jair prometia jogar fora das “4 linhas da Constituição” se necessário. O país entrou em estado de alerta.

Opinião 25/09/2021
Guilherme Cortez
especial para o GCN
Arquivo/Redes sociais
Presidente Jair Bolsonaro, discursando na ONU
Semanas atrás, o Brasil acompanhava apreensivo o desenrolar da escalada golpista empreendida em pessoa pelo presidente da República. As manifestações do Dia da Independência eram anunciadas como o começo do novo regime de Bolsonaro. Ameaças contra ministros, autoridades, instituições públicas e a democracia não faltaram. Jair prometia jogar fora das “4 linhas da Constituição” se necessário. O país entrou em estado de alerta.

Então, o 7 de setembro chegou. Com muito investimento e ônibus fretados saindo de todas as regiões do país, as manifestações bolsonaristas foram grandes, mas não o suficiente para implementar o golpe. Em seu discurso na Esplanada dos Ministérios para uma multidão de fanáticos, o presidente prometeu que reuniria no dia seguinte o Conselho da República, órgão consultivo responsável por analisar casos de intervenções e estado de sítio.

A senha estava dada. Com o respaldo dos seus apoiadores mais exaltados, Bolsonaro tentaria implementar um estado de exceção no país. Mas seus planos não passaram de bravatas.

No dia seguinte, o Conselho da República não se reuniu. Enquanto os bolsonaristas voltavam para suas casas, seu líder tentava recompor a confiança institucional que ele próprio passou a vida toda destruindo. Não por algum choque de consciência, mas para salvar a própria pele. O impeachment, que já era visto por muitos como uma hipótese remota, voltou ao centro do debate político nacional.

Isolado, Jair desautorizou os intentos golpistas de seus aliados e apoiadores e adotou sua versão “paz e amor” de fachada. Com a ajuda de Michel Temer, um especialista em golpes de primeira qualidade, publicou uma carta envergonhada para acalmar ânimos. Uma epopeia tão esdrúxula que seria cômica, se não fosse absolutamente trágica e reveladora da tragédia que estamos vivendo.

Durante semanas, o presidente proferiu ataques diretos contra instituições republicanas, autoridades públicas e o Estado democrático de direito ao vivo, a cores e em alto e bom som. Deixou claro, para quem quisesse saber, que seu objetivo era subverter a fraca e incompleta democracia brasileira. Cometeu dezenas de crimes de responsabilidade em flagrante. Só não concretizou seus planos porque, felizmente, não teve forças para tanto. E, mais uma vez, saiu impune, encoberto por uma mal escrita carta de desculpas.

A continuidade do governo Bolsonaro, depois de sucessivos e reiterados crimes de responsabilidade, é uma deformação democrática. Um país que ainda tem na memória o afastamento de uma presidente pela prática de “pedaladas fiscais” – uma expressão que a gritante maioria das pessoas não entende muito bem o que significa – não pode se conformar com a perpetuação de um presidente que colocou em risco a vida de milhões de pessoas na pandemia com sua postura negacionista e insensível ou que atacou frontalmente a Constituição que jurou respeitar.

Mas, além de criminosos, seus últimos movimentos foram taticamente errados. Sem conseguir consumar seu golpe e se vendo obrigado a recuar, Bolsonaro arriscou a confiança da parcela cada vez mais diminuta da sociedade que o segue irracionalmente e estava disposta a ir às últimas consequências. Ao invés do leão autoritário e destemido que seus apoiadores gostam de idealizar, Jair passou a imagem de fraco e medroso, que fala alto nos microfones, mas se acanha na hora de assumir suas responsabilidades.

Bolsonaro representa o que há de pior no Brasil: uma mistura de preconceito, ignorância e covardia. O acidente histórico que sua eleição representou vai custar caro e levar anos para ser revertido. Se restar algum vestígio de seriedade democrática neste país, Jair precisa ser afastado de seu cargo e responsabilizado pelos crimes em série que cometeu. Hoje, esse desfecho passa pelo presidente da Câmara Arthur Lira, única pessoa a quem cabe a decisão de dar andamento a um dos mais de cem pedidos de impeachment contra Bolsonaro, e que já demonstro que não o fará sem pressão suficiente.

O próximo sábado (2) vai ser mais um dia de manifestações em todo o Brasil contra o presidente, reunindo um amplo rol de partidos, organizações e orientações ideológicas. Com a crise ambiental, o desemprego galopante e a fome assombrando o país, esperar até 2022 para acertar as contas com o atraso representado por Bolsonaro não é uma opção viável.



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