22 de outubro de 2021

Nossas Letras

SONIA MACHIAVELLI

Sementes do Oriente

Quem segue na Internet o cotidiano de imigrantes brasileiros que vivem de resgatar produtos no lixo americano, doméstico ou de lojas, já terá se deparado com situações inusitadas. Famílias de classe média que resolvem trocar os móveis de sua casa, colocam tudo na calçada, para ser levado pelos caminhões que três vezes por semana circulam pelos condomínios. Vemos móveis com defeitos fáceis de serem reparados; eletrodomésticos em bom estado; eletrônicos em condição de uso. E no lixo das lojas, roupas, produtos de maquiagem, bijuterias, objetos de decoração. Dentre esses, poucos são realmente lixo,

Nossas Letras 02/10/2021
Sonia Machiavelli
especial para o GCN
Quem segue na Internet o cotidiano de imigrantes brasileiros que vivem de resgatar produtos no lixo americano, doméstico ou de lojas, já terá se deparado com situações inusitadas. Famílias de classe média que resolvem trocar os móveis de sua casa, colocam tudo na calçada, para ser levado pelos caminhões que três vezes por semana circulam pelos condomínios. Vemos móveis com defeitos fáceis de serem reparados; eletrodomésticos em bom estado; eletrônicos em condição de uso. E no lixo das lojas, roupas, produtos de maquiagem, bijuterias, objetos de decoração. Dentre esses, poucos são realmente lixo, alguns estão ainda na embalagem e com etiqueta de  preço. É uma realidade comum às culturas já sedimentadas no consumismo e desse “lixo” têm vivido muitos que se aventuram na América. Ali é preciso desfazer-se do usado para acolher o novíssimo, realidade que desvela muitos componentes na orquestração da economia. E se expandimos nossa avaliação para outras áreas do existir, veremos mais de uma sociedade do que ela aparenta.

Diferente do consumo consciente, a ação de comprar sem necessidade, motivada por impulso ou desejo pelo mais recente, está muito atrelada às sociedades capitalistas como a norte-americana. Reflexo da globalização e da mídia, o consumismo é motivado por uma série de fatores que envolvem desde a urgência de vender das indústrias até as táticas de propaganda utilizadas para manter o desejo de comprar. Como todos os dias as populações são bombardeadas por anúncios que relacionam a posse de um produto diretamente com a felicidade, cria-se e se alimenta um processo de alienação e ilusão. Ou seja, milhões de pessoas começam a acreditar que o vazio e a insatisfação que sentem podem ser preenchidos por objetos e consumo. O novo atua como um anestésico, mas logo ficará obsoleto ao olhar do consumidor que estimulado pela publicidade buscará substituir o bem adquirido por outro mais recente. Pode ser o celular, o carro, a bolsa, o sapato, a roupa, aqueles móveis ultrapassados, a casa... E assim a roda gira sobre o eixo do novo, do perfeito, do reluzente.

É aqui que entra wabi-sabi, palavra japonesa sobre a qual falei há duas semanas nesse espaço, prometendo voltar a ela. Permeado pelo pensamento oriental, o vocábulo que une wabi (simplicidade) e sabi (desgaste do tempo) sugere que devemos encontrar beleza na imperfeição. Nesse contexto é que se compreende tanto o valor de uma peça restaurada quanto o repeito aos idosos. Tudo que tem história possui valor, não deve ser descartado.

Filosofia que mira a transitoriedade, a incompletude e a imperfeição da vida, base dos ideais zen-budistas, fundamenta uma estética que inclui assimetria, simplicidade, economia, modéstia. Um vaso trincado pode ser reparado e se tornar mais resistente, valioso e singular porque exibirá na fissura um momento de sua história. Num rosto enrugado, as marcas do tempo conferem uma imperfeição que é bela porque conta a passagem das décadas. Uma cicatriz não precisa necessariamente ser removida, ela é capítulo de uma biografia. E os cacos da vida podem se tornar edificantes se não os escondermos de nós mesmos com vergonha ou medo; se aceitarmos que nossos defeitos são também o que nos converte naquilo que somos. Não há pessoas perfeitas; todos nós, em algum momento, nos despedaçamos. A resina que conserta um vaso japonês e o torna único pode ser a sabedoria que nos reorienta ou a esperança que nos reanima ou a resiliência que nos fortalece.

As coisas imperfeitas, transitórias, incompletas são belas. Objetos usados e pessoas envelhecidas não precisam ser descartados. A sabedoria atemporal de wabi-sabi é grandiosa e nos oferece a real dimensão dos problemas corriqueiros diante do milagre da existência humana. Acolher essa ideia pode tornar menos estressante  nossa vida contemporânea, altamente mediada pelo consumismo e seu correlato- o materialismo. Há alguns títulos sobre o tema com boas traduções para o português. Dentre eles, destaco “A riqueza da vida simples”, de Gustavo Cerbasi; “Wabi Sabi: para uma perfeita vida imperfeita”, de Beth Kempton; “Kintsugi: o poder de dar a volta por cima”, de Edgar Ueda.

Livros também são sementes que podemos plantar nessa primavera que começa. E esperar que germinem e cresçam as plantas e floresçam embelezando nossa vida.



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