22 de outubro de 2021

Nossas Letras

BALTAZAR GONÇALVES

A rainha das flores

Contaram-me essa história que aconteceu, mesmo de verdade, há muito numa fazenda perto da Serra de Claraval. Falar de amor parece fora de moda, viver hoje pede força e coragem, mas saber do amor pode ser tão poderoso quanto bala de revolver.

Nossas Letras 02/10/2021
Baltazar Gonçalves
especial para o GCN
Contaram-me essa história que aconteceu, mesmo de verdade, há muito numa fazenda perto da Serra de Claraval. Falar de amor parece fora de moda, viver hoje pede força e coragem, mas saber do amor pode ser tão poderoso quanto bala de revolver.

Dizem que Amarílis sonhava amar. Moça do interior, vivia entre árvores e bichos, e de sondar pessoas tristes quase sempre ouvia “quem ama sofre”. Pois eu quero morrer de amor, ela dizia. Decidida, Amarílis clamou aos céus; em desatino, rogou aos infernos: quero morrer de amor.

Era noite quando a graça do tormento lhe fora concedida. Aos poucos, não de pronto por magia como acontece nos contos de fadas, mas assim como se conta sabendo que na vida cada coisa tem seu próprio tempo. Com os sentidos divididos entre horta e o vazio no peito, Amarílis desejava ardente: de onde me virá o auxílio?

Quando o que havia de acontecer não podia esperar mais, as sombras recolhidas na penumbra, da soleira da janela esgueirou-se um morcego cambaleando sobre os ombros de Amarilis. A criatura indefesa se debatia, e mal pousada debaixo da cama, aos pés da moça, fitou seus olhos úmidos. Compadecida sem medo ela curou a asa quebrada e aqueceu o convalescido, e sentiu pena. Foi dele companhia até o crepúsculo do sétimo dia.

Naqueles dias, a moça distraída cantava modas antigas e colhia flores no campo como se fosse uma abelha rainha. Alimentou o hóspede com mel e ternura. Em sua fantasia, era amor o que Amarílis sentia. O bicho por sua vez permaneceu como chegara, com ares de orgulho e faminto.

Depois de um tempo, embora curado e pronto para voar, a criatura servia aos caprichos de Amarilis curvando de forma elegante para que os dedos dela roçassem o pelo macio. No crepúsculo do sétimo dia, ao entrar no quarto com o pote de mel nas mãos, Amarílis paralisou diante dessa visão aterrorizante: das patas frágeis do animal erguia-se um homem. O mel que trazia escorreu até seus pés, Amarílis tremia. Vestido apenas de trapos e fios de lã, o homem sorria mostrando os dentes, mas exibia um brilho nos olhos que não pôde ser descrito ou comparado.

Ele dá um passo, firme. Dá outro. Ela recua. Ele avança e penetra a atmosfera que a cerca dobrando os joelhos para lamber o caule da flor adocicada quando Amarílis cede. No momento em que o homem mais belo que já existiu se levanta, Amarílis tomada se deixa cair nos braços de quem poderia matá-la.

Não viveram felizes para sempre, um deles morreu. Eu disse que essa história não era conto de fadas, que aconteceu de verdade. Ainda hoje os moradores de Claraval dizem que o vampiro retornou até a última lua minguante para desabrochar Amarílis com o seu sangue e afiar os dentes.



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