22 de outubro de 2021

Nossas Letras

SONIA MACHIAVELLI

Dois romances sobre a loucura

Antes mesmo de “Parasita”, que ganhou no ano passado o Oscar de melhor filme, colocando a Coreia do Sul em evidência, milhões de assinantes do Netflix já tinham sido conquistados por títulos excepcionais, como “Navilera”, “Sonhos lúcidos”, “O hospedeiro”, “A ligação” e vários outros considerados pérolas vindas da Coreia do Sul. São obras marcadas pela excelência que resulta da soma da criatividade de autores, personalidade de diretores, talento de roteiristas, atuação de atores e cenários que mostram um país peculiar.

Nossas Letras 09/10/2021
Sonia Machiavelli
especial para o GCN
Antes mesmo de “Parasita”, que ganhou no ano passado o Oscar de melhor filme, colocando a Coreia do Sul em evidência, milhões de assinantes do Netflix já tinham sido conquistados por títulos excepcionais, como “Navilera”, “Sonhos lúcidos”, “O hospedeiro”, “A ligação” e vários outros considerados pérolas vindas da Coreia do Sul. São obras marcadas pela excelência que resulta da soma da criatividade de autores, personalidade de diretores, talento de roteiristas, atuação de atores e cenários que mostram um país peculiar. Localizada no sudeste da Ásia, a República da Coreia, mais conhecida por Coreia do Sul, originou-se da divisão de um território único até a Segunda Guerra Mundial. Fragmentada, a antiga nação deu origem à Coreia do Norte (comunista) e à Coreia do Sul (capitalista). A fronteira foi estabelecida pela passagem do paralelo 38° norte. A propósito, “Paralelo 38” foi o nome da coluna diária que o francano jornalista/ escritor/ diretor da Biblioteca “Mário de Andrade” Antônio Constantino assinou por anos no jornal O Estado de São Paulo.

Depois da Guerra o governo da Coreia do Sul investiu maciçamente em educação, o que a fez avançar rápido em cinco décadas. Em 1995 já figurava entre as doze maiores economias globais e entrou neste milênio no ranking dos cinco melhores países em tecnologia. Enquanto a Coreia do Norte se fechou para o mundo com seu governo autoritário e retrógrado, a do Sul evoluiu de forma admirável, inclusive nas artes, com destaque para o cinema e a literatura que, neste 2021, teve um de seus poetas indicado ao Nobel. O sucesso das letras se percebe também pelo grande número de traduções para línguas ocidentais.

Gostei muito de dois romances contemporâneos, escritos por mulheres, lançados no Brasil em 2019. O primeiro, “A Vegetariana”, da ficcionista Hang Kang, recebeu em 2020 o importante “Man Booker International Prize”. O enredo se desenrola rapidamente para contar a história de Yeonghye, jovem casada que, de repente, no meio da noite, depois de um pesadelo onde vê animais ensanguentados, decide deixar de comer carne. De início ela se torna vegetariana, o que causa constrangimento e estranheza na família e entre amigos. Aos poucos, vai deixando de ingerir qualquer tipo de alimento, à exceção de água. Paulatinamente o leitor percebe que o comportamento da mulher é um protesto contra a violência sutil que a cerca , conduzindo-a a um tipo de mansa loucura onde transformar-se numa espécie vegetal pode ser a saída. Áspero, o mundo por onde a protagonista transita é destituído de qualquer tipo de amor ou compaixão, sendo marcado por machismo e indiferença, com personagens desprovidas de empatia, à exceção da irmã, narradora da terceira parte do livro, que começa com o ponto de vista do marido e continua com o do cunhado, sem dar voz a Yeonghye.

O segundo é “O bom filho”, de You-jeong Jeong . Neste romance mais alentado em número de páginas que o anterior, relata-se a história de um jovem de classe média alta,  Yu-jin, nadador de carreira brilhante interrompida por ataques de epilepsia. Os remédios receitados por sua tia, psiquiatra de renome, têm efeitos colaterais que o impedem de  prosseguir nadando, o que lhe causa profundo desgosto. Certa manhã ele acorda sentindo cheiro de sangue, e ao descer a escada que leva ao térreo encontra o corpo da mãe na sala. Como se acometido por uma amnésia, Yu-jin tenta em vão recuperar os fatos das horas anteriores, mas apenas se lembra de ouvir a voz da mãe, que ora parece chamá-lo, ora pedir socorro. E assim começa a busca perturbadora desse filho (que tem um irmão) para esclarecer o que houve. No caminho a autora constrói um labirinto de dúvidas que tanto permeiam a memória do protagonista quanto alimentam um suspense que segura o leitor o tempo todo. Uma surpresa para brasileiros é a citação e referências ao filme “Cidade de Deus”, importante elemento de intertextualidade.

Embora no gênero Hang Kang e You-jeong Jeong tenham criado narrativas marcadas pelo suspense e mistério que lembram Stephen King, escritor norte-americano, elas constroem ao mesmo tempo ensaios psicológicos que perturbam e surpreendem. Nos dois romances a loucura é o tema, sempre custoso de ser abordado. Em ambos ela é tratada pelas escritoras com profundidade de análise e imersão em regiões por demais sombrias da alma humana. Recomendo a leitura.

 



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