29 de novembro de 2021

Nossas Letras

JOSÉ LOURENÇO

Um pouco do patrimônio literário de Franca

Quem desce a alameda principal do Cemitério da Saudade, se virar à direita logo depois da capela, a poucos metros encontrará, ainda à direita, sob o número 645, o mausoléu tombado de Ygino Rodrigues, nascido no dia 11 de janeiro de 1872, na cidade de Goiás, onde nasceria, 17 anos depois, Cora Coralina.

Nossas Letras 16/10/2021
José Lourenço
especial para o GCN
Quem desce a alameda principal do Cemitério da Saudade, se virar à direita logo depois da capela, a poucos metros encontrará, ainda à direita, sob o número 645, o mausoléu tombado de Ygino Rodrigues, nascido no dia 11 de janeiro de 1872, na cidade de Goiás, onde nasceria, 17 anos depois, Cora Coralina.
 
Morando em Franca desde meados de 1901, no ano seguinte ouviu o boato e assim respondeu: Ainda não morri! Não estou morto, / D’agouros maus dispenso a sombra escura; / Embora viva doente e sem conforto, / Ainda não desci à sepultura! // Ainda não morri! Neste meu horto, / Aonde bebo o fel da desventura, / Indiferente a tudo, sempre absorto, / Inda em meu corpo a vida está segura. // Querem que eu morra? Ah! Eu compreendo o gosto / Que terão de lançar sobre o meu rosto / Um punhado de terra, um torrão frio... // Mas não morri, hipócritas perversos, / Ainda continuo a fazer versos, / Portanto, ó mochos, cessai o vosso pio!
 
Morreu no dia 04 de julho de 1907, aos 35 anos de idade, e foi sepultado às 5 da tarde, na presença de muita gente que, quatro meses depois, se uniu e construiu o mausoléu em que um livro aberto traz o epitáfio: Passou pela terra / Cantando e sofrendo.
 
Escrevia o seu nome com ipsolon, embora batizado Eginio Rodrigues – sobrenome do padrinho. Primeiro publicou Dinamites, depois Pampeiros, em 1895; Faíscas, Flores do Deserto; Aerólitos foi em 1904, e o seu último livro, Trinos e Trenos, dedicado ao povo de Franca, assim se inicia: Os versos que ides ler, leitores e leitoras, / Versos feitos de luz e de trevores feitos, / Não têm emanações acariciadoras, / Não são áureos na forma e no fundo perfeitos...

Ora eles timbre têm de vozes gemedoras, / Ora, cantam, gazis pássaros satisfeitos... / Ora, eles têm de Romeu alegre o canto ameno, / Ora, eles têm de Eurico o amargurado treno. // Choram na mandolina intensa da Tristeza / E cantam na guitarra ardente da Alegria! / Vezes têm o esplendor musical da devesa, / Vezes, a roxa unção d’atra melancolia, / São baladas azuis dignas d’uma princesa / São blasfêmias cruéis que solta uma enxovia...

D’eleitos serafins são preces, são diademas, / De reprobos também são uivos e pocemas! / Deixai passar o meu harpejo solitário, / Embalado no vosso imáculo carinho... / Tem a vida o Tabor e tem o seu Calvário, / Como a rosa também tem o perfume, o espinho... / Forasteiro infeliz a seguir meu fadário, / Esta lembrança deixo à beira do caminho: / “Trinos e Trenos”! Eis convosco o meu abraço / a dádiva singela e humilde que vos faço.
 
Ygino Rodrigues é patrono da cadeira número 20 da Academia Francana de Letras, atualmente em concurso para ser ocupada por quem sucederá Carlos Alberto Bastos de Matos, valoroso aefeelista que nos deixou a obra que condensa a vida do poeta, e conta-nos que certa manhã a cidade de Franca leria, para memória até nossos dias, uns versos que – segundo se diz – teriam sido escritos de um jato, sobre a mesa e a pedido da jovem Joaninha, filha do dono do bar: A pinta preta que tu tens no rosto / É uma pinta mimosa e tão pequena, / Que te dá mais encanto e mais amena / Graça, qual nuvem leve em céu de agosto.

Faz um soldado abandonar seu posto, / Faz queimar-se na luz uma falena, / Invejam os anjos da mansão serena / A pinta preta que tu tens no rosto. // E eu imagino até, bela menina, / Que Deus de ti, um dia, enamorou-se / E chorou de pesar e de desgosto... // Chorou... e a branca lágrima divina, / Gota do céu, caindo, transformou-se / Na pinta preta que tu tens no rosto...
 
Outras duas cadeiras estão em concurso: a de número 16, que tem como patronesse a grande escritora francana Evelina Gramani Gomes, e a de número 22, que tem como patrono o médico e poeta, um dos fundadores da Santa Casa de Franca, Jonas Deocleciano Ribeiro. 
 
José Lourenço é promotor de Justiça aposentado e atual presidente da Academia Francana de Letras.


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  • tacoteco
    31/12/1969
    boa paginabbb
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