29 de novembro de 2021

Nossas Letras

JOSÉ LOURENÇO

Uma brasilidade francana

Antonio Constantino, patrono da cadeira 5 da Academia Francana de Letras, foi colaborador da Arlequim, Revista de Actualidades, e na edição de 29 de dezembro de 1927, encontra-se interessante contribuição sua, intitulada O Pasmado. Nela, o escritor se refere à expressão modernista que trouxera no seu livro "Este é o canto da minha terra'..., publicado havia apenas três meses. Reproduzo-a na íntegra e na grafia original:

Nossas Letras 25/10/2021
José Lourenço
especial para o GCN
Antonio Constantino, patrono da cadeira 5 da Academia Francana de Letras, foi colaborador da Arlequim, Revista de Actualidades, e na edição de 29 de dezembro de 1927, encontra-se interessante contribuição sua, intitulada O Pasmado. Nela, o escritor se refere à expressão modernista que trouxera no seu livro "Este é o canto da minha terra'..., publicado havia apenas três meses. Reproduzo-a na íntegra e na grafia original:
 
O movimento de nacionalismo literário, a que se empresta o titulo de brasilidade, vae ensejando a descoberta de lindas cousas até agora inapercebidas. Mais attenção voltada ao que é nosso, legitimamente brasileiro. Porque (vem a propósito a phrase do fino artista do verso Manoel Carlos) os modernos são caçadores de thesouros e, como tal, não teem rota certa. Mas, no anseio que os incita a procurar sempre, no intenso labor em busca do veeiro occulto, topam, a cada instante, preciosidades que remanesciam incógnitas aos olhos dos poetas e prosadores.
 
De tudo o que forma e enfeita o lirismo dos nossos campos, no enredeado das bellezas rescendendo o cheiro da terra prodigiosa e marcadas pelas cores derramadas, em desordem da palheta da natureza tropical, os bardos antigos, e a maior parte dos de hoje, só aproveitaram paisagens e scenas, que estropiavam, para lhes dar os pastores tardigrados de cajado e sacola, os cantos dos rouxinóes forasteiros e as mansas ovelhas dos campos europeus. E, mais interessante, enxotaram do próprio rancho o Sacy, a Mãe-d'Agua, o Caapóra, a Mãe-da-Lua, para alugal-o aos avejões da mythologia greco-latina.
 
Cegueira e exaggero.
Cegueira — ante a raça e a nacionalidade. Exaggero — ante os estrangeirismos sem significado.
O trabalho dos modernos-brasileiristas carece ainda de certeza de finalidade. Pesquisam. Batem a mataria inexplorada, sem rumo fixo. Porque atravessam a época da transição.
 
E, emquanto o bandeirismo literário vae revelando o outro Brasil, liberto de moldes estrangeiros, o indígena começa a comprehender os thesouros da Terra que lhe surgia ao espirito misteriosamente barbara e inentendida.
 
X X X
 
Paga a pena, o trabalho de um estudo dessas "cousas" que entretecem a poesia do passado e das tradições. E, dellas, limitar-me-ei ao rápido registro de alguns commentarios sobre o pasmado.
 
Taunay, salvo equivoco, foi o único escriptor que citou o pasmado em um dos seus trabalhos literários, porem, fêl-o de passagem, sem interpretar o lirismo daquelle fantasma de porteira que resta na quietude dos campos: "Este pasmado está podre e breve deixa cahir a porteira" Dahi se infere que Taunay registrou o pasmado como o velho moirão da porteira ainda existente, quando, aqui no Oeste de São Paulo, é moirão remanescente da porteira de outróra. E' sosinho, quasi sempre fincado entre macegas brutas, beirando a estrada a que dava accesso antigamente e hoje intransitável, esquecida.
 
Ha, portanto, differença entre o pasmado do romance de Taunay e o que conheço. Demais, o próprio vocábulo "pasmado" significa espantado, aturdido. Tenho que o moirão é pasmado como alguem que se vê ao desprezo dos mais.
 
Ora, se se admitte esta ultima significação que é a verdadeira, improcede chamar-se pasmado ao moirão que ainda sustenta a porteira em estrada transitavel.
 
X X X
 
O certo é que o antigo moirão, solitário no abandono dos campos, apenas procurado pelos pássaros vagabundos, é em si de um lirismo incomparável. Fora da alegria da paizagen, fica de longe voltado para a kermesse da vida, lugubre no silencio do seu isolamento, triste na viuvez da sua saudade!
Em viagem por estranhas paragens sertanejas muita vez no corisco do olhar atravéz das campinas cobertas de verdura um pasmado me surgia, no seu doloroso aspecto de monge solitário, no vôo do automóvel em carreira louca. Era como a recordação de alguma cousa extincta na voragem dos annos.
 
X X X
 
Delle tirei um poema do meu "Este é o Canto da Minha Terra...":
O PASMADO
E’ o moirão de um velha porteira que ficou
sosinho, na tristeza da sua solitude,
á margem da velha estrada.
Em meio da alegria dos campos
só elle, o pasmado, resume
a immensa melancolia das cousas desprezadas
 
E’ o abantesma de outros tempos.
E’ a recordação mumificada, olhando o que se foi
como se o olvido estivesse a carpir-se
quieto na hypnose do próprio abandono !
 
Ainda, no topo, entalhada na madeira
a pequenina cruz da antiga porteira
assignala-o como a divisa de um templario
armado para a cruzada da Fé.
E, na lethargia dos ermos,
o pasmado é o sacerdote solenne
que, na ascése, se mortifica a meditar
ílagiciado ao martírio das saudades!
Crescem-lhe em torno as macegas do espinhento caruru,
e os juás lhe offertam o veneno
côr de ouro dos seus fructos sazonados.
 
E, emquanto as batuiras titilam
aos trilos tiritantes dos pios tremidos,
o pasmado conserva-se
immoto, de pé,
a escutar a cantiga que o carreiro
entoa agora, á musica do carro,
ao longe,
desviado por outros caminhos.
 
Afinal, as cousas antigas, que simbolizam
a fatuidade de tudo sob a erosão do Tempo,
teem uma alma e um lirismo em que se escondem bellezas inigualáveis.
E á caça desses thesouros andamos nós, batedores da Nova Crença.
 
Observo que no referido livro o poema termina assim: “desviado por outros caminhos...”. E há a seguinte nota explicativa:
 
Chama-se “pasmado”, na terra do A., Oeste do E. de São Paulo, ao velho moirão que resta de uma porteira antiga, marco derradeiro da estrada, que já ninguem percorre. E o “pasmado” tem aspecto triste, sombrio, apenas procurado por um passaro vadio, que lhe pousa no alto, descuidadamente. 
Muito me acrescentam as intencionalidades e os bastidores da criação: enriquecem a leitura, levando a mais alcances; aprimoram a criação, na medida em que têm a força de um ensinamento revelador. Tudo isso para dizer o mínimo.
 
E que livro fundamental este, para a compreensão da literatura de Antonio Constantino no contexto do movimento modernista de expressão regional. O título já evidencia isso, e poemas como O Carapina, que vivifica a paisagem rural, e Os Cupinzeiros, emblematizam a arte de encontrar lirismo em coisas outrora inusitadas. Outrora?
 
* Disponível em: Acesso em: 29 set. 2021.


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