29 de novembro de 2021

Nossas Letras

SONIA MACHIAVELLI

Subsolos

Quando Dostoievski publicou “Diário do Subsolo” tinha acabado de completar 43 anos. Sua vida, até então, fora marcada por tragédias. Com dezessete, órfão de mãe, perdeu o pai violento que odiava, assassinado pelos servos de sua propriedade. A partir de então, as crises de epilepsia que o acometiam desde os sete recrudesceram, segundo alguns biógrafos multiplicadas pelo remorso que o escritor passou a sentir. Leia na íntegra o artigo de Sonia Machiavelli.

Nossas Letras 29/10/2021
Sonia Machiavelli
especial para o GCN
Quando Dostoievski publicou “Diário do Subsolo” tinha acabado de completar 43 anos. Sua vida, até então, fora marcada por tragédias. Com dezessete, órfão de mãe, perdeu o pai violento que odiava, assassinado pelos servos de sua propriedade. A partir de então, as crises de epilepsia que o acometiam desde os sete recrudesceram, segundo alguns biógrafos multiplicadas pelo remorso que o escritor passou a sentir. Ele mesmo escreverá num de seus romances: “Todos os homens desejam a morte do próprio pai”. Tendo ingressado aos 18 anos na Escola de Engenharia Militar de São Petersburgo, apaixona-se pela literatura de Schiller e Hoffmann, Gogol e Pushkin. Forma-se, trabalha dois anos na área, mas abandona o emprego dizendo que “o homem é um mistério e quero penetrar o seu interior”. Publica “Pobre Gente”, mal recebido porque em lugar de expor um país dominado com mãos de ferro pelo Czar Nicolau 1º, o escritor busca “o coração profundo do homem, onde o bem e o mal se enfrentam”. Não se intimida com as críticas e publica “O Sósia”, arquétipo de “Diário do Subsolo”, que só viria à luz em 1864. Antes disso, seria preso por subversão e condenado à morte. Escapando da execução no momento do fuzilamento, foi enviado à Sibéria pra cumprir nove anos em trabalhos forçados. Não se sai ileso disso tudo.

Ao retornar a São Petersburgo, a terra natal, funda a revista “Tempo”, onde sua fé se expressa na adesão a Cristo, que diz preferir, “se for o caso, à própria verdade”. Publica no mesmo ano de 1861 “Humilhados e Ofendidos” e “Recordação da Casa dos Mortos”, a crônica da descida aos infernos que foram seus anos na Sibéria. Durante os dois anos seguintes trabalha no “Diário do Subsolo”, o prólogo dos grandes romances que viriam: “Crime e Castigo (1866); “O Idiota”(1868); “Os Demônios”(1871); “O Adolescente”(1874). E “Os Irmãos Karamazov”(1880), um ano antes de morrer. Formam individualmente e no conjunto uma imensa polifonia, com personagens que são ao mesmo tempo “insetos libidinosos e anjos diante de Deus”.

Não é fácil ler Dostoievski. É pesado e pode ser doloroso, porque o tom é em grande parte sombrio; e os personagens são geralmente atormentados. Mas é importante e necessário fazê-lo se o leitor não se contenta com a racionalidade do “dois mais dois são quatro”, como repete com frequência o protagonista de “Diário do Subsolo”. Comparado ao que fez Shakespeare no teatro com dois séculos de antecedência, o escritor russo levou para o primeiro plano de sua ficção a complexidade dos sentimentos humanos, o que irá impressionar Freud a ponto de o criador da psicanálise eleger “Os Irmãos Karamazov” como “o maior romance já escrito”. Dostoievski não faz concessões ao leitor. Ele vai fundo aos subterrâneos. Se alguém quer começar a lê-lo, deveria escolher “Diário do Subsolo” como ponto de partida. Especialmente nessa edição mais recente da Martin Claret, que tem prefácio de Oleg Almeida, autor da elogiada tradução para o português e de notas esclarecedoras. Traduzido para as línguas latinas como “A Voz Subterrânea”, “Memórias do Subsolo”, “Notas do Subsolo” e “Notas do Subterrâneo”, a obra se divide em duas partes, e até o século passado às vezes era desmembrada, por equívoco dos editores. As duas são interdependentes, embora a primeira (“O subsolo”) seja um intenso monólogo e a segunda (“A respeito da neve molhada”) uma narrativa. Vejamos o que nos mostram.

Em lugar de fazer a síntese da primeira, melhor é transcrever a nota assinada que o escritor coloca na abertura: ”Tanto o autor deste diário quanto o “Diário” em si, são, bem entendido, fictícios. No entanto, as pessoas que escrevem tais diários não apenas podem como devem existir em nossa sociedade, considerando aquelas circunstâncias em que a nossa sociedade se formou de modo geral. Eu queria destacar, tornando-a mais visível para o público, uma das personalidade do nosso passado recente.” Dostoievski se refere a a um dos períodos mais sombrios (1825-1855) da história russa, sob a liderança do czar Nicolau 1º. O texto começa com a frase definidora do protagonista anônimo: “Sou um sujeito doente... Sou um sujeito maldoso. Um cara repulsivo eu sou.” Nas quarenta páginas seguintes o vemos atormentado, desequilibrado, neurótico procurando desvendar seu subterrâneo psíquico num discurso verborrágico que escreve provavelmente num subterrâneo físico, como milhares de outros existentes sob a beleza arquitetônica de São Petersburgo.

Na segunda parte, o narrador, atormentado por sua consciência, retoma fatos de vinte anos. Relembra a forma despótica como interagia com seu criado, Apollon; o jeito cínico como se relacionou com a prostituta Lisa; o despeito no forçado convívio com ex-colegas de escola. Invejoso, ressentido e cruel, alterando complexo de inferioridade e mania de grandeza, ele comenta seus sentimentos : “Era uma tortura martirizadora, uma ininterrupta e insuportável humilhação de pensar (e de sentir, ininterrupta e diretamente) que sou uma mosca nojenta e repugnante- embora a mais inteligente, a mais desenvolvida e a mais nobre, bem entendido!- uma mosca que não para de ceder passagem a todos e que todos andam humilhando e ofendendo.”

Tanto no discurso, amparado às vezes por considerações sociais, quanto no enredo que constrói a segunda parte, a consciência humana é metaforizada por Dostoievski como lugar escuro e escondido, o subsolo, onde o personagem se encontra tão fechado em si mesmo que mal consegue se encontrar, procurando na escrita de seu diário alguma luz. Perturbado consigo, com a realidade circundante, a existência humana e sua própria sanidade, o “homem do subsolo” exibe a face mais sombria de sua alma: “Nas memórias de qualquer pessoa há coisas que esta não revela a todo mundo, mas tão somente aos seus amigos. Há também outras que ela não contará nem aos amigos, mas tão somente a si mesma e de modo secreto. Por fim, há tais coisas que essa pessoa teme revelar até a si própria.”

Essa capacidade para se autoanalisar, que até então não havia aparecido na ficção de nenhuma cultura, surpreendeu leitores e especialmente ficionistas que a partir daí irão criar uma tradição na literatura russa, inspiradora de Kafka, de Camus, de todo romance psicológico que se multiplicará no Ocidente. Por isso, “Diário do Subsolo” é considerado o primeiro romance existencialista da história. Só três décadas depois Sartre escreverá: “A existência precede a essência”, formulando os princípios da filosofia existencialista.

 

 

 

 

 



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