29 de novembro de 2021

Nossas Letras

SONIA MACHIAVELLI

A Era dos Homens

Quarenta representantes de povos indígenas estão em Glasgow, onde acontece a Conferência do Clima. Entre eles, a ativista Txai Suruí, fundadora do Movimento da Juventude Indígena em Rondônia. Única brasileira a participar da abertura do grande evento, representa o povo paiter suruí da Amazônia e, no seu discurso para um público que reunia os principais líderes políticos do mundo, mais milhões de interessados na saúde da Terra, criticou “mentiras vazias e promessas falsas.” Leia mais do artigo da Sonia Machiavelli.

Nossas Letras 05/11/2021
Sonia Machiavelli
especial para o GCN
Quarenta representantes de povos indígenas estão em Glasgow, onde acontece a Conferência do Clima. Entre eles, a ativista Txai Suruí, fundadora do Movimento da Juventude Indígena em Rondônia. Única brasileira a participar da abertura do grande evento, representa o povo paiter suruí da Amazônia e, no seu discurso para um público que reunia os principais líderes políticos do mundo, mais milhões de interessados na saúde da Terra, criticou “mentiras vazias e promessas falsas.” Sem mencionar diretamente o governo brasileiro, defendeu o direito dos povos indígenas de participar das decisões sobre as mudanças climáticas.

Com trajes tradicionais e rosto pintado, afirmou:“Tenho apenas 24 anos, mas meu povo vive na Floresta Amazônica há pelo menos seis mil. Meu pai, o grande chefe Almir Suruí, me contou que devemos ouvir as estrelas, a lua, o vento, os animais e as árvores. Hoje, o clima está esquentando, os animais estão desaparecendo, os rios estão morrendo e as nossas plantações não florescem como no passado. A Terra está falando: ela nos diz que não temos mais tempo. Precisamos de outro caminho, com coragem e mudanças globais. Não em 2030, 2050, mas agora.” Depois, reafirmou em entrevista: “Estamos vendo a invasão de terras, a mineração sujando os rios, o aumento das queimadas, o desmatamento das florestas. As consequências disso são escassez da chuva, desaparecimento de animais e morte de rios.”

Ao ouvi-la, foi impossível não me lembrar do pequeno grande livro que acabei de ler, “Ideias para adiar o fim do mundo”(2019, Cia das Letras), de Ailton Krenak, líder indígena nascido em região gravemente afetada pela exploração de minérios. A fala de Txai, apesar de curta, apenas três minutos, impressionou pela intensidade do testemunho.

Quanto aos textos de Ailton Krenak, extraídos de palestras e entrevistas, fazem avançar na compreensão do gigantesco problema que estamos vivendo, com expectativas pessimistas sobre o que pode acontecer aos netos dos netos de nossos netos, pois a vida no planeta pode estar caminhando para o fim. Nas palavras do escritor pulsam não apenas o ativista, mas também o pensador, que nos leva a reavaliar o conceito de humanidade como algo separado da natureza. De forma clara, com argumentos convincentes e a linda linguagem metafórica de nossos índios, Krenak reitera que a origem do desastre socioambiental de nossa era reside em ver como estanques realidades que não o são. Reproduzo um trecho que considerei muito expressivo:

“O rio Doce, que nós, os Krenak, chamamos de Watu,”nosso avô”, é uma pessoa, não um recurso, como dizem os economistas. Ele não é algo de que alguém possa se apropriar; é uma parte da nossa construção como coletivo que habita um lugar específico, onde fomos gradualmente confinados pelo governo para podermos viver e reproduzir as nossas formas de organização (com toda a pressão externa).

O que está na base da história do nosso país, que continua a ser incapaz de acolher os seus habitante originais, sempre recorrendo a práticas desumanas para promover mudanças em formas de vida que essas populações conseguiram manter por muito tempo, mesmo sob o ataque feroz das forças coloniais, que até hoje sobrevivem na mentalidade cotidiana de muitos brasileiros- é a ideia de que os índios deveriam estar contribuindo para o sucesso de um projeto de exaustão da natureza.

O Watu, que sustentou a nossa vida nas suas margens, entre Minas Gerais e Espírito Santo, numa extensão de seiscentos quilômetros, está todo coberto por material tóxico que desceu de uma barragem de contenção de resíduos, o que nos deixou órfãos e acompanhando um rio em coma. Faz um ano e meio que esse crime- que não pode ser chamado de acidente- atingiu nossas vidas de maneira radical, nos colocando na real condição de um mundo que acabou. Na cultura indígena, a Terra é organismo vivo, mãe e provedora dos humanos em amplos sentidos, não só na dimensão da subsistência e na manutenção da vida, mas também na dimensão transcendente que dá sentido às nossas existências.”

Em 1995, o Nobel de Química Paul Drutzen cunhou o termo Antropoceno, para definir a nossa era. Reuniu os temos gregos “antropo”(humano) e “ceno”, referência às eras conhecidas desde a origem do nosso planeta, idade estimada em cerca de 4,6 bilhões de anos, a mesma do sistema solar. Da mais antiga à mais recente, são quatro: Pré-cambriana, Paleozóica, Mesozóica e Cenozóica.

O Antropoceno, a quinta era, é essa que vivemos. A Época dos Humanos é citada por Krenak como a que deveria soar como um alarme nas nossas cabeças, porque “se nós imprimimos no planeta uma marca tão pesada que até caracteriza uma era, que pode permanecer mesmo depois de já não estarmos aqui, pois estamos exaurindo as fontes de vida que nos possibilitam prosperar e sentir que estávamos em casa, sentir até, em alguns períodos, que tínhamos uma casa comum que podia ser cuidada por todos, é por estarmos mais uma vez diante de um dilema: excluímos da vida, localmente, as formas de organização que não estão integradas ao mundo da mercadoria, pondo em risco todas as outras formas de viver- pelo menos as que fomos animados a pensar como possíveis, em que havia corresponsabilidade com os lugares onde vivemos e o respeito pelo direito à vida dos seres, e não só das abstrações que nos permitimos constituir como uma “humanidade” que exclui todas as outras formas e todos os outros seres.”

É perturbador refletir sobre esse tema crucial, porque o tempo corre e vemos poucos movimentos efetivos a favor da vida. A COP 26, que termina dia 12, vem cumprindo um papel, que é o de reunir lideranças, firmar acordos e mobilizar especialmente os jovens.

Mas é pouco. Gerardo Cebalos Gonzáles, professor de ecologia da Universidade Autônoma do México, em estudo publicado no último junho em parceria com colegas, afirma que cerca de 173 espécies de animais foram extintas entre 2001 e 2017. Nos últimos cem anos, aproximadamente quatrocentos vertebrados deixaram de existir. Essas extinções, no curso normal da evolução, teriam levado até dez mil anos para se concretizar. Inquietante é saber que se no passado remoto elas foram causadas por erupções vulcânicas maciças ou colisões com asteroides, a que ocorre agora não é culpa de catástrofes e sim dos seres humanos. É possível que estejamos protagonizando a sexta extinção em massa.

O mundo começou sem o homem e terminará sem ele- escreveu o antropólogo Lévi-Strauss. Diante das alterações do clima, especialmente a partir da revolução industrial, e com os inconsequentes atos de predação ao meio ambiente na contemporaneidade, marcada por mercado e mercadoria, capitalismo selvagem e lucro imediato,consumismo e descarte, parecerá pessimista perguntar se o Antropoceno será a era em que a Vida desaparecerá da Terra?

 

 

 

 

 

 

 



COMENTÁRIOS

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  • Derek strousser
    31/12/1969
    Essa moça, já foi desmascarada , é mais uma marionete das mídias globais que representam as ONGs que perderam as verbas milionárias com desculpa de conservação ambiental e meio ambiente, antes de ir em Glasgow passou no salão de beleza e estreou seus adereços indígenas comprados em lojas peruanas , fotos tiradas do sei iPhone com o seu namorado no shopping já foram descobertas e já estão nas redes sociais !!!!
  • marcos
    31/12/1969
    hipocrisia, na onu uma coisa na vida real totalmente o contarrio
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