29 de novembro de 2021

Nossas Letras

SONIA MACHIAVELLI

Um mundo em colapso

Regina é orfã: a mãe fugiu no fim de sua infância, o pai morreu no início de sua vida adulta e ela foi acolhida por vizinhas. São mulheres amorosas, solidárias, éticas - mas tão pobres quanto ela, embora isso não signifique ignorância, alienação, desconhecimento do mundo. Nesse lar a jovem, que abandonou um mestrado em universidade pública, busca sentidos para a vida e reflete sobre o que vê à sua volta: decadência das instituições, degradação do meio ambiente, aumento da violência, escassez dos recursos básicos à sobrevivência, e, junto a tudo, o fracasso da vida em comunidade. Leia mais no artigo de Sonia Machiavelli.

Nossas Letras 12/11/2021
Sonia Machiavelli
especial para o GCN
Regina é orfã: a mãe fugiu no fim de sua infância, o pai morreu no início de sua vida adulta e ela foi acolhida por vizinhas. São mulheres amorosas, solidárias, éticas- mas tão pobres quanto ela, embora isso não signifique ignorância, alienação, desconhecimento do mundo. Nesse lar a jovem, que abandonou um mestrado em universidade pública, busca sentidos para a vida e reflete sobre o que vê à sua volta: decadência das instituições, degradação do meio ambiente, aumento da violência, escassez dos recursos básicos à sobrevivência, e, junto a tudo, o fracasso da vida em comunidade.

De vez em quando Regina pensa na mãe, Lupe, que está muito longe, vivendo como artista de circo. Assim o leitor toma conhecimento, logo nas primeiras páginas, dos principais personagens de A extinção das abelhas, romance de Natália Borges Polesso, premiada com um Jabuti em 2019.

Trata-se de mais um romance de temática distópica, como vários que foram publicados no Brasil e exterior durante a pandemia. O vírus trouxe ameaça à vida humana e diante de milhões de mortes, uma sensação de perigo iminente levou ficcionistas a criarem histórias onde o futuro parece inviável. Junte-se à Covid-19 as questões ambientais e o ressurgimento do autoritarismo em vários países para que se tenha uma ideia do que encontrar nessas narrativas.

Como muitos de nós, a protagonista avança para um futuro que lhe parece cada vez mais incerto quando, de repente, isso já não é apenas percepção: o mundo onde ela vive entra realmente em colapso, a tal ponto que os governos criam um “colapsômetro” que aparece na segunda das três partes do livro e vai registrando índices assustadores do fim. “Da humanidade e não do mundo tal qual é conhecido,” como registra uma das personagens.

Enquanto acompanhamos Regina, sua namorada, suas amigas e pessoas que ela encontra no caminho, todas angustiadas com o inevitável, tomamos conhecimento do paradeiro da mãe que abandonou a família para se tornar “a mulher peluda” de uma troupe circense. A única foto que a filha tem a mostra assim, vestida como gorila, segurando a cabeça numa das mãos e sorrindo junto de outros artistas.

Essa imagem materna impactante se transformará numa espécie de escape para a filha abandonada. Sem emprego, num mundo onde os empregos escasseiam, Regina se torna cam girl, moça que cobra por performance erótica na internet. Sua nova persona, Divaine, faz da cabeça da gorila, também chamada monga, parte essencial para não ser reconhecida e para excitar os homens que a procuram.

Essas duas existências paralelas, a da mãe e a da filha, são os eixos de sustentação da narrativa. Em suas trajetórias errantes, inquietas, angustiadas e muito sofridas, embora marcadas pela liberdade que lhes parece ser o maior valor, evoluem para o mesmo fim solitário, embora sinalizem de forma sutil a vontade de se reencontrarem e a certeza de que isso jamais acontecerá. O toque político permeia todo o romance, de forma paulatina e crescente, apresentando já no terço final milícias que dizem proteger condomínios fechados daqueles que estão do lado de fora dos muros; ataques sistemáticos às minorias e à comunidade LGBTQIA+; um exótico presidente que evoca Deus mas age de forma diversa a qualquer ideia de transcendência.

Nessa altura, o leitor pode estar se perguntando sobre o sentido do título. O que tem a ver a extinção das abelhas com o fim do mundo? O fato de o livro contar com personagens majoritariamente lésbicas (apenas dois homens compõem a pequena população da história), pode levar a pensar numa comunidade onde o feminino seria dominante, a partir do pressuposto de que a função do zangão na colmeia é apenas fertilizar a abelha-rainha, morrendo depois disso. Mas conferir único sentido a tal metáfora seria apequenar e injustiçar a narrativa, que lança mão de outros temas, alertando não só para o significado da morte de milhões de abelhas por conta do uso de pesticidas ilegais, como também para a temperatura que sobe e os vegetais que desaparecem dos mercados, revelando uma cadeia de eventos em irrevogável direção ao fim.

Na natureza as abelhas são imprescindíveis ao processo de fertilização das plantas. Sua ausência representaria trágica diminuição na produção de alimentos, com consequente risco à vida. Por outro lado, sendo seres gregários, como nós, vivendo num sistema sofisticado, seu desaparecimento pode ser visto na narrativa como sinalização da falência de uma organização social onde o bem comum deixou de ser prioritário.

Apesar do extremo pessimismo da primeira à última página, a autora acena com possível saída, ao apontar um início de enxame em meio ao caos total. Uma abelha sozinha se perde no vendaval; mas se ela se reúne a outras pode formar de novo uma colmeia.

O grande problema, a encrenca maior, a tragédia que parece se formar – e o romance mostra nas entrelinhas - é que não estamos reagindo como seria necessário. O movimento de inflexão gritado pelas Gretas e pelas Conferências do Clima não se concretiza e só ele nos permitiria mudar o rumo de um apocalipse. Nossa inércia poderá traçar nosso fim.



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