20 de janeiro de 2022

Nossas Letras

SONIA MACHIAVELLI

Os oito poetas de “Poétalas”

O botânico frente a uma flor quer saber o seu gênero.O biólogo diante de um pássaro busca descobrir sua espécie. O arqueólogo surpreendido por pegada insólita, se debruça investigando eras. O historiador enfronhado em manuscritos pretende estabelecer épocas. O matemático encara um problema com absoluta objetividade. O arquiteto faz cálculos para erigir uma ponte concreta. O geógrafo enxerga nos mapas vales e montanhas. Leia mais no artigo de Sonia Machiavelli.

Nossas Letras 27/11/2021
Sonia Machiavelli
especial para GCN
O botânico frente a uma flor quer saber o seu gênero.O biólogo diante de um pássaro busca descobrir sua espécie. O arqueólogo surpreendido por pegada insólita, se debruça investigando eras. O historiador enfronhado em manuscritos pretende estabelecer épocas. O matemático encara um problema com absoluta objetividade. O arquiteto faz cálculos para erigir uma ponte concreta. O geógrafo enxerga nos mapas vales e montanhas. O oceanógrafo dá notícias de desvãos nos mares. O cardiologista encara o coração como uma bomba de sangue. Oftalmologistas receitam lentes para melhorar a visão.

O poeta avista a mesma flor e voa nas suas pétalas. Vê o mesmo pássaro e pensa em liberdade. Uma pegada na rocha lhe suscita perguntas transcendentes. Manuscritos o instigam sobre as mãos que os escreveram. Dois e dois às vezes lhe parecem cinco. As pontes lhe sabem mais a conexões entre sentimentos que ligação de margens. Acidentes geográficos mapeiam suas memórias. O coração jamais é compreendido só como motor pulsante mantendo o organismo físico. E os olhos da alma, garante, costumam não sofrer de miopia .

Shakespeare, falando pela voz de Teseu em “Sonho de uma noite de verão”, diz assim: “O olhar do poeta, girando em delírio/ Vai do céu para a terra, da terra para o céu;/ E, no que a imaginação vai tomando corpo,/ Sua pena capta a essência das coisas desconhecidas/ Moldando-lhes a forma e dando a um nada construído no ar/ Um nome e um ponto de interrogação”. O suíço Charles-Ferdinand Ramuz completou as palavras do bardo quando escreveu no seu “Diário”: “A poesia não está nem nos pensamentos, nem nas coisas, nem nas palavras; ela não é nem filosofia, nem descrição, nem eloquência: ela é inflexão.” Fernando Pessoa, em “Alguma Prosa”, comenta que há uma breve distância entre o sentir e o fazer, pois um poema lírico depende da existência intelectual de uma emoção, ou seja, na sua recordação. E nossa Adélia Prado sintetiza exemplarmente pelo avesso o que é tudo isso : “Olho pedra, vejo pedra mesmo”. É quando Deus lhe tira a poesia, resume.

Pois foi nessas claves de Shakespeare, Ramuz, Pessoa e Adélia Prado que li os poetas francanos que lançaram no dia nove desse mês a coletânea “Poétalas”, organizada por Carlos Roberto Goulart, o Carogo. Na primeira orelha ele afirma que “escrever é tecer os fios mágicos que saem dos nossos pensamentos”. Na segunda, José Lourenço Alves, escritor, poeta e presidente da Academia Francana de Letras, comenta: “Por ser sobre o amor, tanto mais me instiga esse livro. Sagrada palavra. Ainda surpreendo-me que sete notas musicais produzam tantas possibilidades melódicas”. No prefácio, João Carlos Borba, repórter da CNN, jornalista, palestrante, escritor, avisa que “o poeta não apanha uma flor no jardim, colore ou modifica as suas pétalas. Ele apenas eleva essa flor aos céus para que todos possam contemplá-la. E cada um perceberá a sua beleza, seja tocada pelo ouro do sol, ou pela prata do orvalho.” Concordo com ele. Cada leitor lerá os poemas de uma maneira, segundo suas próprias sensibilidade, óptica e circunstâncias.

Adria Tristão C. Comparini, que acompanho há muitos anos e a quem agradeço a carinhosa homenagem, abre o volume com “Temporalidade”, que me surpreendeu pelo amadurecimento. Retomando de forma singular a metáfora que associa vida e natureza, ela aborda a precariedade da existência em quatorze versos dos quais destaco: “Cada folha que cai/ é um minuto que passa/ E nesse compasso voraz/ Tudo passa/ Tudo flui e nos desgasta”. De Carogo pinço “Brinde”, por evocar a preciosa relação com o leitor: “Te peço um favor:/ aceita esse presente./ Meu poema agora é teu/ façamos um brinde./Brindemos com poesia/ a tua e a minha parceria.” Cirlene de Pádua Teixeira com “Arreda, melancolia” é assertiva como sempre, nos versos de imagens pertinentes ao tema: “Afasto das lembranças/ As teias mal tecidas/ As quirelas insistentes/ Os malmequeres, as desavenças/ Mudo os pensamentos,/Cultivo a alegria/ e deixo fluir o amor/ que vive em mim.” Izete Teixeira, de estilo conciso, transforma uma queixa comum no relato pungente de “Distância”: “Cai a noite/ O sono não vem/ Só consigo pensar/No que nem fica/ nem vai embora./ É o lamento da vida/ Ou a vida agora/ que passa madrugada afora”. “Para o meu bem”, estrofe de sete versos elegantes e afetuosos, desvela características de outros escritos de José Carlos Vaz: “Se quiseres meu amor/ Eu te dou/ Se quiseres a minha vida/ Dou-te também/ Pois viver me ensinou/ Que o amor/ É a razão que a vida tem”. O soneto, que desde o século 16 conquista poetas e leitores, conduz os sentimentos de Paulo César Correa Borges em “Saudades”, que começa assim: “O pianista toca piano/ O que é óbvio, mas vai além dos sentidos,/É o piano que toca;/ A ausência, a distância, os amores perdidos”. Silvana Bombicino Damian quase ao final da antologia, que privilegiou a ordem alfabética, mostra sua prosa lírica e alguns poemas. O “Poema de Alto Mar” , de quatro estrofes, estabelece ricas associações a partir de um naufrágio metafórico: “Salvem primeiro as crianças/ que vivem dentro de mim/ De quatro, cinco anos, mais e menos/Espalhados por aí/ Procurem nos camarotes, proa e popa/ Perguntem ao timoneiro, ao capitão/ Não deixem nenhuma se perder/ Não permitam que maculem seus olhos/ De ver dia amanhecer”. Belíssimo. E Walter Chimello, em construção que lembra antiga litania, mas cuja mensagem é muito atual, faz sua ”Súplica ao Deus menino: (...) Na comemoração de seu Nascimento,/ Presenteie o mundo que sonhou/ Curando esse mundo enfermo/ Nas almas, corpos e corações/ E por merecimento ou misericórdia,/ Nos livre dessa tenebrosa pandemia/ Que aflige toda humanidade!”

Em grego as palavras poema, poeta e poesia estão unidas por raiz comum que remete ao ato de criar. Poetas criam com palavras o que já babita suas almas, mas ainda se encontra naquele estado informe ao qual chamamos sensações, intuições, sentimentos, emoções, perplexidades. Poetas traduzem nossa essência humana em seus versos ritmados ou de pés quebrados. Poetas nos ensinam a amar melhor. Benditos sejam.



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