17 de janeiro de 2022

Nossas Letras

SONIA MACHIAVELLI

Acalantos

Presentes em todas as culturas, as cantigas de ninar, também conhecidas por acalantos, surgiram quando a primeira mãe, sem saber o que fazer para que seu recém-nascido dormisse, começou a sussurrar alguma melodia. E porque somos seres a quem a linguagem define, a melodia depois ganhou palavras e com elas narrativas. Leia mais no artigo de Sonia Machiavelli.

Nossas Letras 04/12/2021
Sonia Machiavelli
especial para GCN
Presentes em todas as culturas, as cantigas de ninar, também conhecidas por acalantos, surgiram quando a primeira mãe, sem saber o que fazer para que seu recém-nascido dormisse, começou a sussurrar alguma melodia. E porque somos seres a quem a linguagem define, a melodia depois ganhou palavras e com elas narrativas. A mais antiga canção de ninar que se conhece data de 2000 a.C. Foi descoberta numa escavação no Iraque nos anos 50, é de barro, do tamanho da palma da mão, e sua escrita cuneiforme convida uma criança a dormir pois, caso contrário, “um demônio acordará com fome e virá devorá-la.”

É sabido desde sempre que a voz materna acalma o bebê. Ainda mais se acompanhada do balançar suave do corpo feminino. São as primeiras lições de música que recebemos. Ao nosso país os acalantos chegaram com as portuguesas e foram adaptados às culturas indígena e africana, que contavam também com suas próprias canções. Durante séculos, gerações de brasileiros adormeceram com Nana Neném: “Nana neném/Que a Cuca vem pegar/Papai foi pra roça/Mamãe foi trabalhar”; Boi da Cara-Preta: “Boi, boi, boi/ Boi da cara preta/ Pega esse menino/ que tem medo de careta”; Bicho-papão: “Bicho-papão sai de cima do telhado/Deixa esse menino dormir sossegado”; Tutu Marambá: “Tutu Marambá/ não venhas mais cá/ Que o pai do menino/ te manda matar”; Desce Tutu: “Desce Tutu/ De cima do telhado/ Vem ver se essa menina/Dorme um sono sossegado.”

As narrativas acima são aterrorizantes. Durante séculos a mensagem foi a mesma: um ser malévolo pode ceifar a vida de um bebê chorão, caso ele não se cale e durma. Mas, poderá pensar algum leitor sagaz, uma leitora mais atenta, se os bebês nem conhecem palavras, como é que podem se sentir ameaçados? Especialistas explicam que o responsável por apaziguar a mente dos pequeninos é o som. É a linguagem das notas musicais e não a dos vocábulos que tem efeito calmante. Junte-se o timbre da voz materna e a explicação se torna convincente. Pois ainda que abafada dentro do útero, a voz da mãe vai sendo paulatinamente reconhecida pelo feto desde que o aparelho auditivo se forma e a audição se desenvolve. No aconchego do colo, sentindo a batida do coração de sua mãe e ouvindo os sons macios da canção que o embala, o bebê resgata suas sensações de vida intra uterina. Isso lhe traz conforto e tranquilidade, porque seu grande pavor é ter sido arrancado de um lugar perfeito onde nada lhe era exigido, para ocupar outro onde tudo lhe pedirá esforço.

Mas nem todos os acalantos têm letras que apavoram. Existem alguns de delicado lirismo. Na língua alemã, um dos mais familiares chama-se Guten Abend, Guten Nacht (“Boa noite, Boa noite”) e foi composto por Brahms. Ele o enviou como presente a Bertha Faber, ex-namorada, para que ela o cantasse para o filho recém-nascido. E a famosa Twinkle, Twinkle Little Star ( “Brilha, brilha estrelinha”), atribuída ao austríaco Mozart, vem de velha canção francesa para a qual o compositor trabalhou um conjunto de doze variações. Estando em Paris, recebeu de uma poeta inglesa, Jane Taylor, a letra que anexou à primeira edição da partitura. Aliás, o poder encantatório dessa canção junto às crianças é de impressionar. Talvez por ser das mais cantadas pelas mães, é uma das primeiras que os filhos aprendem. Em português, depois que entrou para o repertório da Galinha Pintadinha, tornou-se onipresente em casa onde haja crianças pequenas.

Canções de ninar se vinculam à vida humana que precisa ser acolhida, amada e cuidada para que cresça, se desenvolva plenamente, ganhe autonomia. Olhando presépios que marcam nossa entrada nesse dezembro de mais um ano difícil, imagino o menino e sua família. Penso neles em outros momentos do ano, porém é nesse mês que fico mais sensibilizada diante da criança deitada no cocho transformado em berço. Nenhuma hospedaria tinha lugar para a jovem prestes a dar à luz, acompanhada de seu marido José, marceneiro de semblante sereno segundo a tradição dos evangelhos e dos artistas.

No aramaico, idioma falado na região onde Jesus nasceu, como seria uma canção de ninar? Só alguém daqueles lugares distantes, de alguma aldeia perdida entre um deserto e um oásis, poderia responder, com base na tradição, com que acalanto Maria embalava Jesus. É então que me lembro de um que apresenta pequenas variações em Portugal e no Brasil, onde os personagens são os membros da Sagrada Família. Recupero, pela capacidade da memória, a voz de uma das incontáveis mães-coragem desse nosso mundo onde injustiça, indiferença, desamor e preconceitos apequenam a vida. Com o filho no colo, a mulher inesquecível cantava no quarto precário, em noite obscura: “Estava Maria na beira do rio/ Lavando os paninhos de seu bento filho/ Lavava a senhora, José estendia/ Chorava o menino do frio que fazia/ Não chora meu anjinho, não chora meu pequeno/ Se o filho do rei está num leito de feno.”

Maria, José e Jesus, abrigados na estrebaria rústica, aquecidos pelos animais, cobertos pelas estrelas, acenam com esperança e nos convidam a olhar para o que de fato é essencial: amor, acolhimento, amparo, cuidado, vínculo, parceria. E a responsabilidade que temos diante de toda vida que irrompe.

Sônia Machievelli é jornalista, escritora e editora do GCN.



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