20 de janeiro de 2022

Nossas Letras

SALVADOR DE JESUS XIMBULIKHA

A inocência geométrica dos sonhos

Nunca confiou na justiça, um abraço afastaria das garras da saudade quem vive quase morto? Na sua caminhada conturbada consolidou, a partir das quedas o declínio, o bem tatuado em tartaruga é luta. Quando nascemos num bairro onde tudo falta, até a ideia da falta não se percebe, e imagina-se que há gente acendendo faróis como aviso. Existe maneira afortunada de morrer?

Nossas Letras 11/12/2021
Salvador de Jesus Ximbulikha
especial para o GCN
Nunca confiou na justiça, um abraço afastaria das garras da saudade quem vive quase morto? Na sua caminhada conturbada consolidou, a partir das quedas o declínio, o bem tatuado em tartaruga é luta. Quando nascemos num bairro onde tudo falta, até a ideia da falta não se percebe, e imagina-se que há gente acendendo faróis como aviso. Existe maneira afortunada de morrer?

Ele não tem dúvidas, quem teve o privilégio de nascer dum reinado nunca sentirá filosofia físico-estrutural desequilibrada. E foi graças às circunstâncias do seu nascimento que ele converteu-se: a necessidade extrema e a pobreza material podem originar virtude e caridade. Quem pode explicar a inocência geométrica dos sonhos no Natal?

A ver pelo ano que foi cuspido, ele sente a urgência de compreender os contextos daquela escuridão já que o apocalipse é a realidade das ruas. Para que ler salmos a um maluco à vista de um contentor? Como obrigar que um menino de rua apresente diploma que lhe permita fazer cálculos matemáticos com propriedades metodológicas?

Nem sempre um kota sabe o que é uma adolescência perturbadora. Nem sempre quem esteja ao volante passou por uma escola de especialização. A verdade é que o destino não mostrou seus dentes aos sonhos de todos no bairro. Prova disso é o facto de que nenhum deles é funcionário público ou de uma empresa privada.

Não estudou quase nada, não passou do ensino básico. Olhou a lenha que circundava a panela de cor preta e notou lá dentro um bolo contingente dançando no cheiro celebrativo do natal. Mais um ano de vida para o kota inculpável. Dizem que os contextos justificam os avanços ou recuos sócio-históricos de uma nação sonhadora. O fumo denuncia que o bolo simples estava pronto para o consumo. Era dia natalino e a Casa dos Lamentos não devia ficar de fora por razão alguma. Pelo menos sabe-se que o sofrimento não é muito exigente, é barato para quem o procura em naturalidade imprópria.

Curvou os olhos, sentia que alguma coisa falhava. Limpou as mãos para não perder tempo. Levou o bolo à boca. «Esse mambo é simples. Como vamos comer um bolo desse tipo se parece que foi apanhado de um contentor?»

A mãe, quando notou que o filho titubeava feita andorinha à tarde, fez a seguinte sentença: «Filho, não perca tempo a fazer contas do que não é para ti. Olha a tua volta, compreendes o bairro onde estamos?»

A voz da mãe soou tal juíz a compreender que se tem de aplicar a equidade na tomada das decisões, estamos em face a um inocente. Não é nosso costume conhecer um pouco mais a Lei, e ela continua: “a justiça nunca foi justa”.

Ele olhou o lado oposto e sentiu o vazio. Sua mãe seguiu o raciocínio: «Seu pai faleceu na tropa, na guerra, e eu sou camponesa, como podes sonhar ser deputado ou ministro num país onde nascer é um erro?» Ele abanou a sua cabeça. Uma gota saltou dos olhos e feriu o chão vermelho do bairro.

Começou a chover fortemente. Entraram.

Lá dentro, sentado ao chão sem condições, ladrinho ou móveis. O amanhã era uma confusão que se devia evitar.

Ele compreendeu que há chão onde nossos pés não são bem-vindos, que o amanhã não existe nesse 25 de dezembro. Comeu o primeiro bolo da sua vida feito pela Vizinha, a única moça que procurava amizade com ele. A vida não acontece segundo o prognóstico da situação, a escola teria salvado sua família do caos? Os sonhos nunca foram gratuitos, sonha-se dentro da estratificação social.

Jurei nunca mais sonhar, permaneço no meu kubiku tal pedra inerte.

Mesmo quando vou às missas e ouço o padre explicar a homilia do dia, remo contra a maré. Talvez algum dia meu amigo inculpável descubra quem desenhou a nossa vida a partir daquele Natal. Foi em dezembro, e nosso caso não cabia a Jesus nem a Deus para soluções; cada um escolhe o caminho que lhe convém segundo as armas que descobre lutando dia a dia.

Ele foi ao garimpo tentar a sorte cavando diamantes.

Até hoje nunca voltou.

A mãe nos contou que seu desejo era ser jornalista.

Senhoras e senhores, quanto custam seus sonhos?

_____________

XIMBULIKHA é angolano de Saurimo, Lunda-Sul. Escritor poeta está concluindo o curso de Licenciatura em Ciências da Educação: Ensino da Língua Portuguesa na Escola Pedagógica da Lunda-Norte. Tem participações em antologias como “Flores em Quarentena” (Movimento Arcádia), “Kambas da Literatura” (Kamba Editora) e “Crónicas de Arruaça no País das Maravilhas” (Editora Palavra & Arte). Em 2021 publicou na antologia “Tanto Mar entre Nós: DIÁSPORAS” organizada por Baltazar gonçalves (Kotter, Brasil).

O especial CONTO DE NATAL ANGOLANO no Caderno Nossas Letras publica em dezembro 4 narrativas com a curadoria do professor e escritor membro da AFL Baltazar Gonçalves.



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