20 de janeiro de 2022

Nossas Letras

BALTAZAR GONÇALVES

Natal brota em quem deseja florescer

Natal de areia, é bem assim que recordo os primeiros natais da infância. Lá vem o Bill recordando o passado, “tempo bom que não volta mais”. Nada disso, não sou passadista. O natal, se vier, é agora. É no agora que vivemos, não existe carne viva na memória, só reminiscências. E dizer isso não é dizer pouca coisa. Leia mais no artigo de Baltazar Gonçalves.

Nossas Letras 11/12/2021
Baltazar Gonçalves
especial para GCN
Natal de areia, é bem assim que recordo os primeiros natais da infância. Lá vem o Bill recordando o passado, “tempo bom que não volta mais”. Nada disso, não sou passadista. O natal, se vier, é agora.

É no agora que vivemos, não existe carne viva na memória, só reminiscências. E dizer isso não é dizer pouca coisa. As tais reminiscências, ou o restinho do bom ou do ruim que vivemos (ou imaginamos ter vivido) podem ser peso morto que se deixa com dificuldade lá onde não existe nada além de idealizações.

Queria falar do natal de um jeito mais simples, às vezes consigo, questão de tempo e choro. Para mim, o natal só chega quando sinto muito e chego à lagrimas. A tal simplicidade é difícil de ser alcançada, engana-se quem acredita que o simples é fácil. Pessoas simples são desertos enormes. Quem diz de si “sou humilde e não tenho cultura, quase não li nada e tenho dificuldade para entender coisas complicadas” são elas mesmas oásis de cultura embotada e guardam infinitas combinações de saberes apesar de toda metafísica no simples gesto de encomendarmos uma pizza pelo iFood.

Eu falava do natal de areia e acabei espalhando poeira, o tempo é grão invisível escorrendo por ampulhetas secretas.

Minha mãe fazia presépios de papelão e areia, tudo artesanal de valor incomparável. No artesanato estava a mensagem: façamos o natal acontecer com nossas próprias mãos. Eu ajudava recolhendo areia do Rio Grande, morávamos em Rifaina, imaginava pavimentar a estrada até Belém para que Gaspar, Belchior e Baltazar chegassem a tempo de saudar o Menino Jesus, mestre e senhor nosso, na noite escura em que Maria daria à luz esperança para o mundo.

Para renascer, antes é preciso morrer; ou deixar que morra. Apesar da modernidade nuclear e atômica dos algoritmos digitais, o tempo escorre para dentro de nós trazendo a Judeia das areias escaldantes, o tempo traz areias da escravidão, mas também passagens por mares e rios confluentes dentro de nós. Para o menino que fui, este que ainda espera o natal, o Jordão era o Rio Grande dividindo São Paulo e Minas Gerais.

Naquela época, ajudando a montar o presépio, eu espalhava areia sob as patas dos camelos que levariam três reis magos à Belém. Eu queria levar presentes para o menino rei dos judeus, mas, assim como o filho de José carpinteiro eu também sempre fui pobre. Com o tempo, me tornei complicado e, como já me disseram, um tanto revolucionário por dizer coisas simples que toda gente entende: as coisas do mundo devem pertencer a todos para que não haja fome nem natais escuros para uns e iluminados para outros. Mesmo temendo vez outra ser crucificado, dividir para multiplicar ainda é o caminho da nossa transcendência.

O natal é uma boa ideia, mas salvação de nossas almas depende única e exclusivamente de nós mesmo. Calma! Não é heresia, mesmo que pareça. Acontece que já tentaram nos salvar muitas vezes, e sempre foi em troca de algo. Desconfiamos de quem nos ajuda ou pretende “salvar”, seja pessoa ou instituição, pois vimos muitas guerras em nome de Deus e concluímos faz tempo onde se mata ou escraviza em nome do Amor não há amor algum. Foi assim em toda História depois de Cristo, “levemos o salvador para essa gente simples sem cultura e alma” e depois “paguem o dízimo para que possamos continuar salvando o mundo da miséria e da fome”.

Hoje me pergunto, quantas lâmpadas são necessárias para substituir a Estrela Guia? Os piscas-piscas iluminam o breu das nossas consciências acendendo o natal em nós? Em mim demora, mas acaba acontecendo porque no pisca-pisca das emoções que foi 2021 era uma vez uma cidade apagada imersa em luto coletivo num país apagado.

Entristecidos que fomos, é um esforço enorme acender o natal sem esquecer dos nossos desertos que atravessamos. Mas é preciso. Meu esforço começa escrevendo para louvar o instante, o agora onde somos eternos, e possa recuperar a alegria ao ver uma estrela artificial brilhar no alto de um prédio. Depois, um pisca-pisca numa fachada antiga restaurada na praça central de Franca. Depois, a cidade iluminada desde o centro até as vilas, com a beleza simples e sofisticada de saber viver o momento em plenitude.

Soube que uma amiga montou árvore de natal feita de livros; outra, árvore de desejos onde enrolou pedacinhos de papel com palavras amorosas para criar 2022 possível. Antes de ontem, as mãos gentis do Nascimento me deram pequenas lâmpadas que piscam e iluminou meu jasmim no pequeno canteiro do meu quintal. E o natal aconteceu dentro de mim, preciso iluminar.

O melhor que o natal desperta em todos talvez seja o sentimento de pertencer, de fazer parte de algo maior que brota em quem deseja florescer. Já posso te desejar FELIZ NATAL ou devo esperar vinte e cinco de dezembro?



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