20 de janeiro de 2022

Nossas Letras

BALTAZAR GONÇALVES

Natal sem máscaras

Estava sozinho, não sabia o que era passar o natal isolado. Todos te deixaram, onde estão seus amigos? Enquanto podia bancar a festa, todos eram presentes. Mas agora tinha decidido encarar-se de frente, sem subterfúgios. Precisava nascer de novo, tinha perdido todas as ilusões. A causa do seu sofrimento era a fuga do Agora: refugiando no passado encontrava suas obsessões, no futuro só expectativas vãs. A dor alojada na impossibilidade de ficar bem sozinho, não aceitava quem era ou tinha se tornado. Leia mais no artigo de Baltazar Gonçalves.

Nossas Letras 18/12/2021
Baltazar Gonçalves
especial para GCN
Estava sozinho, não sabia o que era passar o natal isolado. Todos te deixaram, onde estão seus amigos? Enquanto podia bancar a festa, todos eram presentes. Mas agora tinha decidido encarar-se de frente, sem subterfúgios. Precisava nascer de novo, tinha perdido todas as ilusões.

A causa do seu sofrimento era a fuga do Agora: refugiando no passado encontrava suas obsessões, no futuro só expectativas vãs. A dor alojada na impossibilidade de ficar bem sozinho, não aceitava quem era ou tinha se tornado. Ele desejava ser outro, qualquer um satisfeito.

A vida toda usou máscaras, uma para cada ocasião e uma de predileção quando no meio das multidões. Em casa, ele tirava facilmente o disfarce, era como mudar de roupa. Um dia tirou muito rápido o figurino e não percebeu que ficara desfigurado completamente, sem máscaras na cara que lhe dessem feição.  Foi nesse dia, ao perceber o vazio que era, que decidiu deixar colada na cara sem forma aquela máscara predileção, imagem que idealizava de si. Nem no banho a tirava. Com o tempo, perdeu a coragem de olhar-se no espelho porque sabia o sorriso de sempre sem brilho. Ele que um dia sorriu com os olhos. Acabou aceitando a reação das pessoas à sua farsa, mas perdera o senso de realidade e não confiava em mais ninguém.  Onde estão seus amigos? Preciso nascer de novo.

Em breves momentos lembrava quem tinha sido e uma alegria modesta trazia-lhe felicidade miúda. Quando o desejo de morrer foi mais forte que o isolamento incômodo ele percebeu a falta de coragem.

Era natal, lembrou-se de um amigo da infância e convidou-o para a ceia. Talvez reconhecesse num velho conhecido os traços do seu rosto perdido. Limpou a casa, escondeu as máscaras e preparou a mesa para dois.

Meia hora antes do combinado e nada, nenhuma mensagem, ele não vem. As últimas lembranças afetivas da infância sumiram como balões no céu da noite mais escura. Eu serei o meu natal. Uma lágrima de autopiedade magra já escorria quente sobre a máscara predileta quando ouviu a campainha.

Era o amigo de infância que trazia consigo mais cinco pessoas. Pediu desculpas pelo inconveniente e disse que aquelas pessoas faziam questão da sua companhia e ficariam sozinhas no natal se ele não as trouxesse.  O anfitrião tentou sorrir, sua máscara quase caiu. Entraram, seriam sete à mesa.

Antes, durante e depois do jantar, comeram emoções requentadas. Cada um contava de si histórias improváveis. Ninguém se gabava do sucesso, foram derrotados pela vida e trocaram suas ilusões por esperança. Ninguém parecia preocupado em causar boa impressão ou aceitação social. Estou em péssima companhia, ele jugava enquanto ouvia:

Eu roubei uma joalheria para pagar o tratamento de câncer da minha filha e fui preso, não pude enterrar a criança, engoli o luto, foi pior que a cadeia. Eu não consegui fugir do país depois que a minha fábrica faliu, quis explodir os bancos credores e tentei suicídio duas vezes.  Eu fui expulsa de casa quando assumi a minha namorada lésbica. Eu sou ateu e minha família não me aceita depois que deixei a batina. Eu saí da cadeia semana passada e já tenho emprego, mas não tenho onde morar. Meu deus, ele pensava, que máscara devo usar com essa gente?

Embora ele julgasse mal aquelas pessoas, o amigo ouvia sorrindo com os olhos e aquele brilho sinalizava bem estar. Então ele perguntou ao amigo de infância, o que a vida fez da sua vida? (era a frase decorada para o momento), e o amigo relatou uma espécie de currículo invertido pautado em perdas, desafios, derrotas, desespero, medo, depressão, angústia e libertação. Quando ele disse contabilizar estragos sem lamentações tinha no rosto uma alegria verdadeira.

A máscara do anfitrião já não fazia sentido, parecia não ter mais função. Olhava atentamente, eram simplesmente pessoas celebrando a presença um do outro. Era o natal acontecendo. A vibração do instante aflorou sua Presença, sobre o verniz das conveniências ele pode sentir-se vivo. E sorriu, com os olhos ardendo em chamas.



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