20 de janeiro de 2022

Nossas Letras

JOSÉ LUÍS MENDONÇA

Estória de um natal angolano

O BATUQUE | Tumbum… tumbundumbum… tumbum… tumbundumbum… tumbum… tumbundumbum. Mamá Wembu ouviu o rufar do batuque, código percutido na pele do ngoma , comum a todas as famílias das sanzalas daquela região. Mukanda do povo, a dizer “mamá Wembu vem, uma criança vai nascer, vem mamá Wembu, vai nascer uma criança”. Leia mais no artigo de José Luís Mendonça.

Nossas Letras 18/12/2021
José Luís Mendonça
especial para GCN
O BATUQUE | Tumbum… tumbundumbum… tumbum… tumbundumbum… tumbum… tumbundumbum. Mamá Wembu  ouviu o rufar do batuque, código percutido na pele do ngoma , comum a todas as famílias das sanzalas daquela região. Mukanda  do povo, a dizer “mamá Wembu vem, uma criança vai nascer, vem mamá Wembu, vai nascer uma criança”.

A SENTINELA | Lenguenu ouviu o som do ngoma. Era soldado e estava de sentinela nessa noite de Cacimbo, na fronteira do perímetro ocupado pelas tropas de uma brigada de infantaria.  Quando entrou para a tropa tinha apenas catorze anos. Agora tinha vinte e um, era robusto, de olhar implacável e corpo marcado por céleres cicatrizes de uma mina escondida sob os pés de um camarada. O que Lenguenu mais queria era bazar  da tropa. Naquele tempo, quando as armas calavam esporadicamente, um soldado recebia missão de garimpar nas margens do grande rio, para alimentar e remuniciar as armas da brigada. De tanto garimpar para o brigadeiro, Lenguenu conseguiu esconder um diamante no sopé de uma mateba . De madrugada, voltou à pedra do seu tesouro e recuperou a dádiva da natureza. Era do tamanho de um grosso dente de milho. Trazia no bolso essa lubóia  que lhe permitiria, depois de desertar, entrar pela fronteira Sul, até à Namíbia, e ali fixar residência, arranjar esposa e constituir família.

A PARTEIRA | A alguns quilómetros dali, mamá Wembu ouviu o som do batuque. A mensagem era-lhe dirigida. Pegou na sacola de parteira tradicional e saiu dos escombros da igreja, onde tinha arrumado um cantinho para viver. Era mesmo no antigo altar. Ainda lá estava a cruz com o Cristo pregado, a sangrar, desde há dois mil anos. Mas antes de se pôr a caminho da fala do batuque, ajoelhou diante da grande cruz furada pelas balas. Pedia sempre a Deus pelo sucesso dos partos. Naquela mesma igreja, Mamá Wembu recebera das madres a arte natural de ajudar a parir crianças. Um dia, não se sabe de onde, o flagelo da guerra caiu sobre aquele povo.

A guerra chegou como dentes inesperados de hóssi, o leão, e esventrou a igreja. O grande sino de cobre só sangrava silêncio, meio enterrado no chão. Nesse mesmo dia apagou-se o olhar doce e a voz de chuvisco do pároco.  Nesse mesmo dia poisou no capim à volta da igreja um helicóptero que bebeu as madres. E nunca mais se pregou o evangelho naquele povo. A guerra parece tinha vindo para ficar. A lua cheia brilhava naquela noite de 23 de Agosto e destacava os muitos caminhos de pele de Nzamba, o elefante, que o tempo desenhara no rosto de Mamá Wembu. Andava rota e andrajosa, esquecida dos homens, que se tinham esquecido de ser pessoas. Mas ela não conseguia esquecer o seu povo e lavrava forças para caminhar e salvar as crianças que queriam sair dos ventres das suas mães, mesmo sob o violento rugir da guerra.

A LUBÓIA | Percorreu dois quilómetros. Tinha agora de contornar uma pequena povoação ocupada por canhões e kalashnikovs. Ouviam-se tiros e explosões de morteiros e granadas. Os homens combatiam no meio da povoação. Uma sentinela viu-a aproximar-se e rugiu: “Alto! Quem vem lá? Nem mais um passo!” “Boa noite, senhor soldado, eu sou a Mamá Wembu. Ouvi o batuque de alguém que está na hora do parto. Sou a parteira deste povo e vou ajudar uma criança a nascer”, respondeu a parteira. “Não podes passar, estamos em guerra, ainda vão te matar aí à frente!”, sentenciou a sentinela, apontando a arma ao peito da mais-velha. Mamá Wembu virou-lhe as costas e retornou pelo caminho de onde viera. Tinha percorrido uns 200 metros, quando ouviu uma explosão e a noite ficou iluminada por um súbito clarão.

Voltou-se para constatar que o jovem tinha sido atingido por um morteiro. Correu para ver se o podia socorrer, mas apenas encontrou os pedaços infinitos de um olhar luminoso como a lua de Agosto espalhados sobre o capim. Enquanto observava a inanidade da guerra decompondo aquele que há instantes fora um senhor soldado, a luz diáfana da lua fez brilhar um pequeno objecto que provavelmente tinha caído do bolso do soldado. Era uma lubóia! Mamá Wembu apanhou a lubóia e contornou aquela batalha. Meteu pelos carreiros de terra batida que bem conhecia como a palma da sua mão direita. O apelo do ngoma, tumbum… tumbundumbum… tumbum… tumbundumbum… tumbum… tumbundumbum, soava agora mais perto.

O NATAL | Debaixo de uma grande mulembeira estava o pai da criança, a bater na pele do tambor, acompanhado de um grupo de cerca de doze pessoas, velhos, mulheres e crianças. Os jovens não comiam mais a fuba do pilão das aldeias. A guerra era uma águia grande, escolhia os mancebos um a um e os levava nas suas garras rapaces.

Se aproximou do grupo. O batuque parou de cantar. À luz da fogueira, preparou os utensílios do parto. Tocou no ventre da mãe que jazia no chão sobre um pano e revelou: “Esta mulher ainda não completou os nove meses, mas o bebé já quer sair?” O mais velho do grupo, soba da aldeia e avô do nascituro respondeu: “Mamá Wembu, nós tivemos de fugir da nossa aldeia. Caíram muitas bombas e as nossas casas queimaram. Esta criança já quer nascer, por causa do medo que a mãe sentiu!” A parteira pediu ajuda a uma mais velha daquela aldeia sem norte e conseguiu pôr no mundo o bebé que nasceu aos sete meses de gestação, debaixo da árvore grande. Era tempo de cacimbo. Logo que a criança chorou o mundo, um dos makotas  do soba, que tinha conseguido arrastar dois bois do seu grande rebanho, ajuntou os animais ao lado da mãe e da criança.

A parteira redesenhou aquele quadro na alma das labaredas e começou a contar a história de uma criança que tinha nascido assim, ao relento, aquecida pelo calor dos animais, há muito, muito tempo, em Belém, na Palestina. E falou dos três reis magos e dos presentes que levaram para o menino. E falou das lições que ele transmitira os homens: “Ama o próximo como a ti mesmo. Se o teu irmão pecar contra ti, perdoa-lhe não apenas sete, mas setenta vezes sete. O seu nome era Jesus e é em sua homenagem que se celebra o Natal, todos os anos, na noite de 24 para 25 de Dezembro,” concluiu a velha parteira.

Então um dos makotas tirou toda a sua reserva de sementes contida num saquinho de pano e colocou-a junto da mãe e do recém-nascido. O segundo makota, que era ferreiro, ofereceu o seu machado novo. O soba também queria fazer uma oferta àquele menino que nascera no mato, no meio dos bois, num mundo frio e cruel, como Jesus nascera. Mas o soba tinha perdido tudo na guerra. Só trazia mesmo a roupa do corpo. No seu rosto pousou o canto triste daquele pássaro que canta sozinho lá nos confins da floresta.

Mamá Wembu aproximou-se dele e disse-lhe: “Soba, toma este diamante e faz a tua oferta ao menino Jesus.” O soba, com os olhos rasos de lágrimas, aproximou-se do menino, colocou a lubóia em cima do saquinho das sementes, enquanto o resto do povo sem terra olhava, e determinou: “Vamos dar a esta criança o nome de Jesus. E vamos construir casas em volta desta árvore para viver. Em homenagem a esta criança que nasceu como Jesus, este lugar se chamará Povo de Jesus. Tenho a certeza de que, assim, o outro Jesus que nasceu num dia de Natal, há muito, muito tempo, vai nos abençoar e vai proteger a nossa nova aldeia.” Um dos makotas puxou da palavra escondida no fundo da garganta e argumentou: “Mas, ó soba, hoje é dia 23 de Agosto, o Natal não é só no dia 24 de Dezembro? Como podemos chamar esta criança de Jesus?”

“O Natal é sempre quando a Paz chega e nasce na Terra uma nova vida”, concluiu o soba.

__________________

José Luís Mendonça é licenciado em Direito pela Universidade Católica de Angola e jornalista. Foi Prêmio Nacional de Cultura e Artes na categoria de Literatura no ano de 2015. Com a obra Lenda da mãe África e do filho que vendeu o coração, venceu a edição 2019 do prêmio literário Jardim do Livro Infantil. É autor de vários livros de poesia, um romance intitulado O Reino das Casuarinas e uma coletânea de 18 contos, Luanda fica longe. Publicou a antologia Tanto mar entre nós: Diásporas.

O especial Conto de Natal Angolano no Caderno Nossas Letras publica em dezembro quatro narrativas com a curadoria do professor e escritor membro da AFL Baltazar Gonçalves.



COMENTÁRIOS

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  • Paulina Lando Pedro
    31/12/1969
    Grande poeta, José Luís Mendonça .Adoro os seus contos cheios de emoção realidade dizer que espero muito de ti.
  • Sandro Sebastião
    31/12/1969
    Muito boa história, muito para refletir na narrativa. Meus parabéns, professor José Luis Mendonça.
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