20 de janeiro de 2022

Nossas Letras

THEREZA RICCI

O aniversário de Jesus

Nos meus tempos de menina , a minha cidade era muito pequena, as ruas em sua maioria não eram calçadas e o quarteirão em que ficava a minha casa era uma alegria só. Éramos uma família estendida por muitas casas. Ninguém passava necessidades. Quando um vizinho, por não ter dinheiro ou porque havia esquecido de comprar o café ou o açúcar, batia na porta da minha casa em qualquer hora, recebia de minha mãe a caneca ou canecão de alumínio cheio do produto. Leia mais no artigo de Thereza Ricci.

Nossas Letras 18/12/2021
Thereza Ricci
especial para GCN
Nos meus tempos de menina , a minha cidade era muito pequena, as ruas em sua maioria não eram calçadas e o quarteirão em que ficava a minha casa era uma alegria só. Éramos uma família estendida por muitas casas. Ninguém passava necessidades. Quando um vizinho, por não ter dinheiro ou porque havia esquecido de comprar o café ou o açúcar, batia na porta da minha casa em qualquer hora, recebia de minha mãe a caneca ou canecão de alumínio cheio do produto.

Quando alguém ficava doente, e principalmente uma criança, todos corriam para saber se precisava de ajuda. O médico era chamado e logo ele aparecia de jaleco branco com sua maleta preta a tiracolo. Conhecia todos e todas as doenças.

Não havia televisão e os rádios só em algumas casas. As ruas eram desertas. Lá de vez em quando se via alguém pilotando uma bicicleta ou empoleirado em cima de uma carroça puxada por cavalo. Os carros não existiam e os poucos que apareciam pela cidade eram importados; por isso, só os ricos muito ricos possuíam veículos. Não havia supermercados, apenas vendas ou vendinhas, e o leite e o pão eram vendidos em carrocinhas e entregues nas casas.

Por isso, à noite, enquanto na rua, nós as crianças, jogávamos amarelinha, pulávamos corda, brincávamos de esconde –esconde, os homens sentados nas calçadas também se reuniam para comentar sobre o trabalho, os acontecimentos do país, futebol, pois tínhamos craques famosos, histórias de pescadores e outras, para passar o tempo e aumentar a amizade.

Nas datas festivas, todos se reuniam para organizar as comemorações e as tarefas eram divididas entre todos.

Mas a aproximação do Natal era o período mais agitado da minha rua. Naquela época não era como hoje, em que a figura principal do Natal é o “Papai Noel” e não “Jesus”, cuja data celebra seu nascimento.

Nem todas as casas armavam árvore de Natal e espalhavam luzinhas elétricas pela árvore; mas todos na vizinhança tinham em sua sala de visita um presépio, onde não faltavam a manjedoura, com a presença do Jesus Menino, sua santa mãe Nossa Senhora, São José, os animais e os famosos Reis Magos com seus ricos presentes. Era também costume dos nossos vizinhos, no fim da tarde, durante todo o mês de dezembro, irem para uma das casas, rezarem em frente ao presépio e pedir ao Menino paz e felicidade para todos.

Enquanto os adultos cuidavam de rezar, nós as crianças ficávamos comentando o que iríamos ganhar naquele Natal e sonhávamos de olhos abertos, ansiosos para que o dia chegasse e Papai Noel descesse pela chaminé de nosso fogão de lenha, deixasse em cima dos nossos sapatos o presente desejado, o que às vezes não acontecia.

Mais uma das minhas lembranças mais ternas da véspera do Natal era a festa de Dona Benedita, uma mulher multa simpática, magra e muito ativa. Dona Benedita, por algum motivo que não me lembro, fez uma promessa ao Menino Jesus: se alcançasse seu pedido, faria uma mesa farta de doces para as crianças, para comemorar seu aniversário.

Dona Benedita deve ter recebido sua graça, porque todas as vésperas do Natal, durante toda a minha infância, lá pelas oito horas da noite, dona Benedita reunia as crianças da vizinhança e com uma lauda mesa de doces, com a presença obrigatória do bolo e suas velinhas, convidava o menorzinho da turma e, colocando-o em pé sobre uma cadeira, fazia com que o menino soprasse as velinhas e todas as crianças batiam palmas para o Menino Jesus. Era uma festa bonita e cheia de graça.

Hoje, quando chega o Natal, lembro-me da mesa festiva de dona Benedita, da sua crença em agradar Jesus, da alegria que iluminava o seu rosto, do bolo de chocolate todo enfeitado, de seus doces, principalmente o de figo, que na época, seu cheiro gostoso, impregnava a nossa rua.

 



COMENTÁRIOS

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  • MARCOS DANIEL DINIZ GARCIA
    31/12/1969
    me lembro de tudo isto, verdade tempos bons.. saudade
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