20 de janeiro de 2022

Nossas Letras

MARTINHO GAMBOA

Trilhos de uma aldeia natalina

O céu finalizava a lacrimação. O sol, timidamente, espreitava e aquecia a terra. Era a chuva de bênção que nutria as sementes nas lavras. Os camponeses sorriam ao tom do reco-reco e os velhotes sem dentes cantavam ao ritmo da marimba. Leia mais no artigo de Martinho Gamboa.

Nossas Letras 25/12/2021
Martinho Gamboa
especial para GCN
O céu finalizava a lacrimação. O sol, timidamente, espreitava e aquecia a terra. Era a chuva de bênção que nutria as sementes nas lavras. Os camponeses sorriam ao tom do reco-reco e os velhotes sem dentes, cantavam ao ritmo da marimba. Os pássaros saltavam de galhos em galhos. Cobras e outros seres viventes a finavam o silêncio entre as pedras.

Minha idade não suportava o riscar destes tempestuosos caminhos, mas minha mãe, Deolinda Rebeca, camponesa destemida, levava minha inocência a cruzar os trilhos que desenhavam o caminho que me levasse até à lavra.

Enquanto seguíamos, o nosso latido farejava, encantava-nos e ao mesmo tempo, afugentava os pássaros que faziam das árvores um palco natalino. As suas ladradas estavam entranhadas nas técnicas d´arte dum caçador experto, quando afiava seu nariz em farejo, os animais espetavam-se nos recantos longínquo da terra. Ao sabor do balançar da cauda, anunciava a localização dos fugitivos animais. Nós gostávamos do jeito dele de machão, frustrava actuação dos macacos e permitia o crescimento do milho e de outros produtos agrícola.

Era um exímio trabalhador. Minha mãe com a sua kinda na cabeça, pousada sobre uma rodilha, disse em voz viva, ao meu primo Durás, que pisava com os seus pés descalços, o palco do saber da missão católica da aldeia do longonjo. "Quem pensa que os cães são seres totalmente irracionais, derruba por inveja o trabalho que o nosso cão faz".

A inércia do vento, dito remoinho do vento, tentou sacar a kinda na cabeça da senhora, meu calção roto e sem cinto, escorregava de forma lenta. A mãe tinha o hábito de segurar minha mão direita, ao passo que, outra usava-a para segurar o calção velho, que não tinha cor aparente.

Naquele instante, a deusa do meu viver, ficara sem escolha. Pego a mão do filho ou protejo as biquatas? era a expressividade que seu rosto apresentava. Eu, menino rapazito, gritava por socorro; o habilidoso cão, que o tinha denominado por kwata, pelo facto de possuir a especialidade incrível, em agarrar de forma apressada, preferi nomeá-lo por um nome que dignasse a nossa língua bantu, aliás, os sobas, os sekulos e anciãs da aldeia não amolavam os tímpanos aos eloquentes da língua dos colonos. Quem falasse português era como se no vazio falasse. O vento desafiou as nossas valências, principalmente ao do kwata. Tudo que nos restava era apenas gritos e o ladrar do machão.

O curvar das árvores denunciava o musculoso vento que abanava com fervor o nosso espaço. O kwata afinal não aprendera a segurar o vento e nem farejar, apenas ladrava interminamente no invisível.

O fatídico tempestuoso vento largara os nossos corpos e seguira para outros horizontes. Chegamos à lavra! Enquanto minha mãe saudava outros camponeses, nós nos enfiamos na kubata feito de pau a pique.

O sol já não estava radiante, mas o céu ainda insistia chorar ao ritmo serenar. Cobras e outros seres, já não afinavam o silêncio! Cantavam nos seus recantos a canção de boas festas. Meu avô, Lucangu, vinha com sua trotineta feita de madeira para anunciar o natal em nossa língua.

- Aamalã vange etali onatali lembuki (meus filhos, hoje é Natal, terminem o trabalho). Anunciava o velhote com um sorriso ao sabor do reco-reco.

Na aldeia, os tchiganji vestidos de saia manufaturados feitos de cordas e pintados com cal, dançavam ao grito do batuque. Era um palco a jeito dos sekulos. O homem que não foi retirado akiyunga, não se aproximava daquele recinto.

Os palhaços, que tinham nomes de acordo a cor e atitude na sua representação, usavam um código de comunicação. Só podia entender quem terá passado no rito tradicional que se dava todos anos na época de frio. Era essa época que se cortava o prepúcio dos homens machos.

Às celebrações do Natal tinham cores de alegria e pintado de tristeza nos olhos dos não circuncisados. Ao longe da roda tradicional, meus olhos pequeninos filmava o momento. Minha mãe e meu avô dançavam njando, com uma caneca de kimbombu, naquela roda de alegria natalina.

Desde aquele dia, que o céu terminara a lacrimação, nunca me esqueci de semear a felicidade nas festas da minha aldeia. Natal, na aldeia, era comunhão. Quer no partir da broa, quer na dança, quer na canção. 

____________________

Martinho Gamboa nasceu em Angola, na província do Huambo, em 1990. É licenciando em Ciências da Educação pelo Instituto Superior de Ciências de Educação e professor de língua portuguesa na ONG Associação dos Antigos Alunos Teresianos. Escreve poemas, contos e crónicas. É agente cultural, criou e mantem ativa a biblioteca pública "Luzes de Aguiar", em Luanda. Publicou na antologia Tanto mar entre nós: diásporas.

O especial Conto de Natal Angolano no caderno Nossas Letras publica em dezembro quatro narrativas com a curadoria do professor e escritor membro da AFL (Academia Francana de Letras) Baltazar Gonçalves.



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