20 de janeiro de 2022

Nossas Letras

SONIA MACHIAVELLI

'Natal Agreste'

Vanessa Maranha, escritora de Franca, uma das ficcionistas mais premiadas dentro e fora de São Paulo, nome que já se faz reconhecido no país por sua peculiar exploração da escrita e rica criatividade na construção de enredos e personagens, lançou numa live, no sábado 18, seu oitavo livro, "Estigma". Leia mais no artigo de Sonia Machiavelli.

Nossas Letras 25/12/2021
Sonia Machiavelli
especial para GCN
Vanessa Maranha, escritora de Franca, uma das ficcionistas mais premiadas dentro e fora de São Paulo, nome que já se faz reconhecido no país por sua peculiar exploração da escrita e rica criatividade na construção de enredos e personagens, lançou numa live,no sábado 18, seu oitavo livro, “Estigma”. O volume reúne contos que ficaram fora de outras publicações por razões diversas, entre elas a diferença temática. A autora sempre elegeu a unidade como valor, seus leitores sabem disso.

As narrativas desse mais recente lançamento, em número de vinte e quatro, podem ser lidas ao som de canções selecionadas que incluem o clássico antirracista Strange Fruit, a melancólica Summertime; a irônica Tears Dry On Their Own. De Mercedes Sosa, Gracias a la Vida emoldura O último outono. Problem Child, do AC/DC, é fundo para o conto que titula a coletânea. Notting Else Matters, da banda Metallica, faz par perfeito ao que considero joia lapidada: Ameixa.

Brasileiros? Muitos! João Bosco comparece com A nível de... em Achados e Perdidos. Na Ilha de Lia, no Barco de Rosa, de Chico Buarque, reforça a triangulação de Grenadine. Cassia Eller, com E.C.T, e Cama de Gato - Matilda, de Gonzaguinha, endossam o tom de crítica social presente em Zé do Brasil e Menino do Morro, respectivamente. Angela Ro Ro, em Bárbara, anuncia o sentimento de curiosidade da protagonista. Tem Carlinhos Brown com Argila em Cerveja. E não haveria outra voz que não fosse a de Valdick Soriano, em Tortura de Amor, para ficar junto de Inelutável.

Paro por aqui e deixo ao leitor o prazer da descoberta e a delícia da fruição da leitura ao som de música, uma novidade que chega para ficar, acredito. Ainda estou experimentando, porque sou de geração para quem isso não foi sequer sonhado. Os avanços tecnológicos nos trazem ganhos maravilhosos como esse. Basta virar a câmera do celular para o QRCode impresso na página e no mesmo instante os sons chegam aos ouvidos enquanto os olhos vão capturando as palavras escritas. Convido os que ainda não conhecem a que experimentem.

Retomo a live de sábado quando Vanessa Maranha, conversando com o mediador do encontro, André Kondo, também escritor, falou sobre a estrutura do conto contemporâneo, nada romântico, muito além do realista, já pós-pós-modernista, com laivos surrealistas no nosso mundo líquido onde tudo o que é sólido se desmancha no ar. Em termos de conteúdo o trabalho do contista é de fora para dentro de seus personagens. A forma deve levar ao arrebatamento do leitor para que ele siga acompanhando o que é narrado. E o desfecho carece de ser impactante; mais que um anticlímax, um soco que desperte para outras possibilidades.

Vanessa faz esses dois movimentos simultâneos. Com o enredo, seduz o leitor para depois o surpreender; ao mesmo tempo vai adentrando camadas de personagens e relacionamentos com a firmeza delicada de um arqueólogo diante de uma pegada rara ou um pedacinho de mosaico milenar: afastando o que está na superfície para descobrir o que subjaz.

Em Estigma percebe-se em todos os contos o trabalho custoso de desvelar fraturas, identificar fragmentos, içar pedaços fossilizados, acenar para algo que um dia foi íntegro. Como isso a que chamam Amor, e na sugestão de Vanessa precisa ser continuamente renovado para que os vínculos de um par não se rompam, para que as ligações amorosas possam sobreviver na transformação constante dos seres, no redemoinho dos dias, na voragem do tempo. O amor materno talvez seja uma exceção. E o conto Natal Agreste, que o demonstra, é um primor quanto à composição dos personagens, à descrição plástica do ambiente rústico, ao recorte de uma região do nosso país onde as tragédias humanas continuam ocorrendo por conta da aridez do clima, da insensibilidade política, dos seres humanos embrutecidos.

Para uma mãe amorosa, as dificuldades podem ser superáveis ao menos na noite de Natal. Criativa, essa mãe prepara com o mínimo obtido um “apaziguamento” para os filhos pequenos. É difícil não se emocionar, é um tanto impossível manter as lágrimas suspensas. Ao terminar de ler Natal Agreste, André Kondo não resistiu e chorou, relembrando sua brava mãe que, símbolo de generosidade, um dos traços do amor materno, repartiu em mais de dez pedaços um pequenino doce que o filho lhe trouxera do Japão. E eu, que também me emocionei, me lembrei de reportagem de um mês atrás, que a mídia mostrou ao vivo e em cores: um menino negro, num lixão sórdido, abrindo sorriso branquinho ao descobrir naquela imundície uma árvore de Natal de plástico, pinheirinho verde na imensidão do entulho sobrevoado por urubus.

Ao repórter a criança falou de sua alegria por levar a árvore para casa e assim o fazendo trazia à tona sua esperança. De jeito parecido age a mãe de Natal Agreste, que não deixa a fé na vida ir-se embora, retendo-a com coisas miúdas como bolinhas de gude. Conheça essa história pungente ao som de Risoflora, de Chico Science & Nação Zumbi.

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Aos que me honraram com sua leitura durante o ano, e aos colaboradores de Nossas Letras, desejo um Natal onde não falte a Esperança.



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