20 de janeiro de 2022

Nossas Letras

SONIA MACHIAVELLI

Literatura e Liberdade

Perturbados há mais de dois anos por ondas de uma pandemia que parece não ter fim, recuando para avançar com o vírus em novas variantes, nós, brasileiros, estamos nos esquecendo de duas celebrações importantes neste 2022 – a da Independência do Brasil, em 1822 e a da Semana de Arte Moderna, em 1922. Leia mais no artigo de Sonia Machiavelli.

Nossas Letras 08/01/2022
Sonia Machiavelli
especial para GCN
Perturbados há mais de dois anos por ondas de uma pandemia que parece não ter fim, recuando para avançar com o vírus em novas variantes, nós, brasileiros, estamos nos esquecendo de duas celebrações importantes neste 2022 – a da Independência do Brasil, em 1822 e a da Semana de Arte Moderna, em 1922. Bicentenário e centenário remetem ao desejo de autonomia, mereceriam comemorações que, pelo andar da carruagem, permanecerão mornas, se tanto. É uma pena, porque essas datas históricas representam marcos de superação e conquista, sem as quais não seríamos o que hoje somos.

Literatura e sociedade caminham juntas. Podemos conhecer o caráter de um povo através da sua literatura porque se ela é autêntica refletirá costumes, hábitos, anseios, esperanças e tudo aquilo a que chamamos cultura. Mas literatura não é apenas conjunto de textos, por mais talentosos sejam os escritores. Literatura pressupõe autores, a sociedade na qual se inserem, a época em que vivem e a comunidade de leitores. Junte-se a esses pilares a crítica literária, cuja função é desvelar o entrelaçamento de conteúdos dentro de cada obra e entre elas, bem como seu valor no meio em que se insere.

Nossa literatura divide-se em fases, de seu nascimento ao ponto em que se encontra hoje. Desde o Descobrimento são 522 anos de escrita. A Carta de Caminha, por conta dos dons estilísticos do escrivão da frota, impõe-se como primeiro documento literário. Ela sinaliza o começo de uma literatura escrita por cronistas portugueses sobre a nova terra e segue até 1750, quando os primeiros movimentos de revolta contra a metrópole passam a perfilar a escola mineira. As próximas décadas, sob impacto das punições da Corte contra os inconfidentes, será um período de produções sem brilho. É com a Independência, em 1822, que surgem registros dos primeiros autores em tentativa de ruptura da matriz lusitana, procurando caminho próprio, ainda que tateantes, apoiados no romantismo e simbolismo, correntes literárias de gênese europeia.

Será apenas no começo do século XX que um grupo de artistas sintonizados com a ideia de modernidade que pipocava na Europa, rebelou-se contra cânones e regras tradicionais. Queriam novas formas estéticas e literárias. Os moldes acadêmicos estavam gastos, exauridos de sua função de incomodar e inspirar, dois dos objetivos de todas as artes. Na sociedade brasileira, a fundação da Revista do Brasil, a instalação da Liga de Defesa Nacional e a campanha em favor do serviço militar obrigatório criam um contexto mais favorável à gênese do Modernismo nas artes brasileiras.

Em nosso país o movimento teve três fases bem distintas. A primeira, a Semana de Arte Moderna, começou estrepitosamente em São Paulo em 1922 . Colocou em evidência Mário de Andrade, Oswáld de Andrade, Cassiano Ricardo e Menotti del Picchia. Junto a outros eles se manifestaram não só no Teatro Municipal de São Paulo, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro daquele ano, mas também nas diversas revistas publicadas até 1928. A segunda fase, com ponto de partida no ano seguinte, será marcada pela ficção de José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo e Ciro dos Anjos. A terceira floresce em 1949, com a publicação das primeiras obras críticas de Álvaro Lins e Antônio Cândido, que avaliaram todo o processo literário em seus momentos decisivos.

Depois de 1950 viria o que hoje consideramos Pós-Modernismo e se caracteriza pela diversidade de obras, na medida que o Brasil e o mundo experimentaram mudanças drásticas com o fim da Segunda Guerra Mundial e sua consequência imediata, a ameaça da Guerra Fria. Em nosso país, esse período foi marcado por forte instabilidade política, que nos levará ao golpe militar de 1964, com liberdades individuais suprimidas, censura a publicações, eleições diretas suspensas. Só vinte e um anos depois retomaríamos a vida democrática.

A literatura não ficaria imune a tudo isso e as obras que passam a ser publicadas na Nova República mostram autores mais amadurecidos, autênticos, inovadores. Na prosa surgem Guimarães Rosa, com seu estilo repleto de arcaísmos, neologismos e criações autorais; Clarice Lispector e seu questionamento intimista sobre o ser humano; Dalton Trevisan e o foco na sociedade brasileira, retratada com ironia e sarcasmo; Rubem Fonseca e a opção pelo gênero policial; Fernando Sabino e seu amplo domínio da crônica; Rachel de Queiroz e a habilidade de ficcionalizar fatos históricos .

Na poesia, João Cabral de Melo Neto constrói poemas calcados na realidade com estilo enxuto; Carlos Drummond de Andrade apresenta uma poesia objetiva mas profunda, de linguagem mais popular e tom irônico ; Ferreira Gullar combina ternura e acidez na denúncia de injustiças sociais; Mário Quintana ensina que o simples não é fácil; Adélia Prado eleva sua voz em versos que misturam sagrado e erótico num timbre até então não reconhecível nas poetas do Brasil.

A Semana de Arte Moderna foi portanto semente vigorosa, cujos frutos se revelaram em obras onde se impuseram “a prioridade do sujeito sobre o objeto, a captação do mistério das coisas, a complexidade e as sutilezas dos estados de alma, a magia verbal encerrada nas palavras” e também um regionalismo incipiente que ganhará força com a adesão de escritores engajados. Mas, é preciso dizer, a Semana não foi apenas literária. A renovação buscada na literatura aconteceu também na música, com Villa-Lobos; na pintura, com Tarsila do Amaral e Anita Malfatti; na escultura, com Brecheret.

Antecipando-se às publicações que provavelmente aparecerão nesse 2022 , em comemoração ao centenário da “Semana de Arte Moderna”, os professores e escritores francanos Luiz Cruz de Oliveira e Marilurdes Cruz Borges lançaram no segundo semestre de 2021 excelente estudo com o título “A Semana- O Antes e o Depois”. No primeiro texto, Alerta!, construindo analogia entre escritor e desbravador, eles dizem: “A comparação facilita o entendimento de que a atual fase da literatura em nosso país é resultante de permanente abrir de caminhos, de uma constante e paradoxal busca de independência, sem isolamento, e de aperfeiçoamento. Na literatura, riqueza, autenticidade, prodigalidade só podem ser avaliadas pelo percurso e pelas diversas travessias que vão deixando marcos orientadores para os caminhantes”.

Leiamos Luiz Cruz de Oliveira e Marilurdes Cruz Borges. É maneira de celebrar um centenário que não pode passar em branco. E fiquemos à espera de títulos sobre o bicentenário da Independência, data que merece profunda reflexão sobre a forma como o Brasil lida desde 1822 com uma autonomia política que deveria ter nos conduzido a caminhos de maiores progresso, lucidez, civilidade e justiça.



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  • Plínio Cantieri Murta Vieira
    31/12/1969
    Que aula !!!, Professora Sônia. Que clareza meridiana na apresentação do tema. Que orgulho e honra poder continuar a ler-ouvir-vivenciar toda sua sabedoria e elegância na escrita. Parabéns , também, ao Prof.Luiz Cruz e a Professora Marilurdes. Foi, simplesmente, fantástico ler um texto tão leve e bem elaborado ,nesses dias tão densos e sombrios que estamos vivendo. Um enorme abraço de seu eterno aluno e fã incondicional. Obrigado, Plínio.
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