20 de janeiro de 2022

Nossas Letras

SONIA MACHIAVELLI

'A filha perdida' e a atenção verdadeira

Disponibilizado pela Netflix, um filme inteligente pelas imagens elípticas, denso nos diálogos, corajoso ao colocar o foco na maternidade edulcorada pela cultura judaico-cristã, deve ser indicado ao Oscar deste ano. Trata-se de “A filha perdida”, dirigido pela cineasta Maggie Gyllenhaal, adaptado do romance de Elena Ferrante, escritora italiana de quem não conhecemos a face nem o nome verdadeiros. Lia mais no artigo de Sonia Machiavelli.

Nossas Letras 5 dias atrás
Sonia Machiavelli
especial para GCN
Disponibilizado pela Netflix, um filme inteligente pelas imagens elípticas, denso nos diálogos, corajoso ao colocar o foco na maternidade edulcorada pela cultura judaico-cristã, deve ser indicado ao Oscar deste ano. Trata-se de A filha perdida, dirigido pela cineasta Maggie Gyllenhaal, adaptado do romance de Elena Ferrante, escritora italiana de quem não conhecemos a face nem o nome verdadeiros. Ela é um enigma que já vendeu milhões de livros traduzidos para vários idiomas a partir da tetralogia A amiga genial. Em português, são dez títulos publicados.

Se nesses quatro livros, que despertaram no público uma reação chamada “febre Ferrante”, a autora construiu suas histórias na clássica estrutura linear, em obras anteriores o monólogo interior já fazia antever a capacidade da ficcionista em explorar os subterrâneos da alma, às vezes evidenciados apenas por atos falhos. Assim acontece no romance A filha perdida, onde a narrativa é frequentemente subvertida em sua linearidade para dar lugar a recordações paralelas que aproximam presente e passado.

Ao levar o romance para a tela, a roteirista lidou com a saga de uma forma mais objetiva, mudando a ordem dos acontecimentos e situando as revelações em pontos diferentes daqueles que conhecemos no livro. Assim conferiu mais clareza ao drama da protagonista Leda (Olívia Colman), norte-americana de Boston em férias numa ilha grega onde se defronta com uma família nova-iorquina um tanto excêntrica. Esta é formada pela jovem mãe Nina (Dakota Johnson), sempre exaurida por conta dos cuidados exigidos pela filha de cinco anos e da vigilância canina do marido ciumento (Oliver Jackson-Cohen). Há ainda uma cunhada obsessiva e outras pessoas ruidosas.

Conforme Leda se aproxima de forma involuntária da família, e vai se envolvendo emocionalmente com Nina, acompanhamos através de flashbacks o seu passado e a infância de suas filhas, a quem havia abandonado por três anos, há duas décadas, quando uma tinha sete e outra cinco anos. Nina, ouvindo as confidências de Leda, parece seduzida pela ideia de autonomia, embora pareça lhe faltar coragem para rupturas radicais. A cineasta é exitosa ao traduzir o objetivo da romancista, que é adentrar os cantinhos mais escuros e inexplorados das maternidades. Porque elas são muitas.

No caso do filme, às imagens sugestivas como recintos fechados, e atos reveladores, como o furto de uma boneca, acrescentam-se diálogos inteligentes, perspicazes, às vezes de duplo sentido na formação de camadas semânticas que vão se adensando à medida que a história avança. E são também essas falas que levam o espectador a refletir sobre a condição humana, nossa natureza de seres incompletos, a força do desejo- seja ele de natureza sexual ou de liberdade.

Cabe às cenas em que a jovem e impulsiva Leda (Jessie Brickley) brilha nos diálogos, as frases que mais impactam e perduram no espírito do espectador, muito depois do final do filme. É como se elas ilustrassem a história com seu poder poético. Professora de literatura comparada, Leda abriu mão das filhas em favor de sua carreira em ascensão e da paixão por um reconhecido crítico literário. Nos momentos em que as conversas evoluem para a poesia podemos pinçar nomes célebres como Auden e Yeats em alguns dos versos que caem como luva para desvelar o que vai na alma da protagonista.

Mas é citando Simone Weill, escritora e filósofa de origem judia falecida precocemente aos 34 anos, e de quem Albert Camus disse ser “o único grande espírito de nosso tempo”, que encontramos a chave para compreender essa mãe e outras mães parecidas a ela: “A atenção é a mais rara e pura forma de generosidade”.

Nem todas as mulheres que se tornam mães são capazes dessa forma de atenção que é fruto da generosidade. A jovem mãe Leda simplesmente ignora os pedidos de suas filhas. É pra lá de expressivo o fato de não atender à súplica por “um beijinho, mamãe” para curar o dedo ferido da mais nova; ou se recusar a responder à mais velha que lhe pergunta insistentemente “mamãe, como se escreve pavão?” Nesses momentos ela está imersa em outro mundo onde não cabem as meninas.

Oferecer atenção para uma criança é algo precioso que vai gerar contato verdadeiro, criar vínculo. Walter Benjamin, abordando o tema, disse num de seus livros que a atenção traz consigo “uma liberdade para o objeto, como se ela cortasse as peias que nos prendem a nós mesmos.” Talvez por isso, num dos momentos altos do filme, Leda tenha dito a Nina: “Sou egoísta”. Uma pessoa egoísta raramente enxerga o outro, mesmo que seja um filho.

Assistam ao filme que tem incomodado as mulheres, porque são mães ou porque são filhas. Depois, leiam o livro. São obras de arte que nos expandem em relação à verdade.



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