RECEITAS

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Amarra-marido

Amarra-marido

Chega a ser engraçado o fato de algumas receitas serem datadas, remetendo a gente a um tempo que talvez nem exista mais. O nome desse doce, “amarra-marido”, revela.

Chega a ser engraçado o fato de algumas receitas serem datadas, remetendo a gente a um tempo que talvez nem exista mais. O nome desse doce, “amarra-marido”, revela.

Por Sonia Machiavelli | 12/03/2022 | Tempo de leitura: 3 min
especial para o GCN

Por Sonia Machiavelli
especial para o GCN

12/03/2022 - Tempo de leitura: 3 min

Ingredientes

  • 4 pires de batata-doce cozida e espremida
  • 2 pires rasos de farinha de trigo
  • 2 pires rasos de açúcar
  • Leite de um coco
  • 1 xícara (chá) de manteiga
  • 6 ovos

Chega a ser engraçado o fato de algumas receitas serem datadas, remetendo a gente a um tempo que talvez nem exista mais. O nome desse doce, “amarra-marido”, revela.  As mulheres deste milênio, e mesmo as de gerações anteriores, foram à luta por sua autonomia, conscientes de que poderiam esperar da vida mais que um marido que lhes valesse e amparasse pelo resto de suas existências. Buscaram independência intelectual e escolheram uma profissão, pois toda liberdade começa com a independência econômica. Aos cursos onde aprendiam sobre a arte das prendas domésticas, outra expressão curiosa, preferiram aqueles sobre a arte de viver expandindo suas possibilidades humanas. O mundo tinha mudado, as mulheres não precisavam mais pilotar o fogão e se esmerar na cozinha, se isso não lhes agradasse.

Mas antes, “quando as senhoritas se chamavam demoiselles”, como escreveu o poeta, as mães matriculavam as filhas adolescentes, ou quando essas terminavam o Colegial ou outro similar, em cursos de culinária, onde aprenderiam o básico para não fazer feio na vida de casada. Porque o destino já estava traçado: casar, ter filhos, levar adiante o legado recebido, que depois, esperava-se, fosse transmitido às filhas. Era assim que se perpetuava o machismo, algemando as mulheres a seus afazeres, o que nem sempre era o sonhado.

Nos cursos de culinária dos anos 60 havia receitas a serem preparadas pela esposa para seu marido, com todo amor e carinho. Corria à boca pequena que “um homem se agarra pelo estômago”. Seria cômico se não fosse trágico para as que acreditavam nisso. Lá um dia se pegavam tristes, melancólicas, deprimidas sem saber por quê. Tinham marido, filhos, casa, uma cozinha completa. Faltava o quê? Era o xis da questão.

Dentro desse capítulo “como agarrar um marido”, havia vários pratos interessantes. Um deles se chamava exatamente “amarra -marido”. Toda moçoila queria aprender a fazer. O tempo passou e, um dia, aliás, no começo desse ano da graça de 2022, encontrei amiga a quem não via há tempo e não sei por que vias chegamos a esse assunto das prendas domésticas. Foi quando ela me disse que tinha visto no youtube uma culinarista explicando como fazer o quitute chamado “agarra-marido”. Essa receita tinha nome mais agressivo. A anterior usava um verbo mais terno, “amarrar” com sentido de “agradar, envolver”; este outro era quase violento: agarrar, não deixar escapar, um grude. Eita!

Interessada na experiência culinária como expressão de cultura, fui atrás dos dois termos e suas significações gastronômicas. Descobri que a versão mais recente é um bolinho frito muito enjoativo pelo excesso de açúcar, e muito calórico pelo tanto de farinha. Mas o antigo é interessante. Resolvi experimentar. Queria sentir o sabor. Gostei muito. É um quitute, digamos assim, feito com batata-doce, coco, manteiga, ovos e um pouquinho de farinha. Fica com aparência e textura de pudim. Os sabores combinam entre si e no conjunto tornam o todo suave. Recomendo a quem gosta de doces cremosos. De vez em quando a gente precisa agradar-se, preparar algo para si mesma.

Veja que as medidas são na base do pires, revelando a sua longevidade. Pires de chá, naturalmente. Descasque a batata-doce e cozinhe até ficar bem macia. Retire da água e passe pelo espremedor.  O purê obtido deve ficar bem fino. Coloque-o numa tigela e junte as gemas, uma a uma, batendo com fouet ou garfo. Em seguida acrescente o leite de coco; a manteiga; o açúcar. Misture bem. Bata as claras em neve e agregue delicadamente. Unte uma forma pequena com caramelo queimado e despeje a massa. Leve ao forno preaquecido a 180 graus. Estará pronto quando dourar. Desenforme morno.

Ingredientes

  • 4 pires de batata-doce cozida e espremida
  • 2 pires rasos de farinha de trigo
  • 2 pires rasos de açúcar
  • Leite de um coco
  • 1 xícara (chá) de manteiga
  • 6 ovos

Chega a ser engraçado o fato de algumas receitas serem datadas, remetendo a gente a um tempo que talvez nem exista mais. O nome desse doce, “amarra-marido”, revela.  As mulheres deste milênio, e mesmo as de gerações anteriores, foram à luta por sua autonomia, conscientes de que poderiam esperar da vida mais que um marido que lhes valesse e amparasse pelo resto de suas existências. Buscaram independência intelectual e escolheram uma profissão, pois toda liberdade começa com a independência econômica. Aos cursos onde aprendiam sobre a arte das prendas domésticas, outra expressão curiosa, preferiram aqueles sobre a arte de viver expandindo suas possibilidades humanas. O mundo tinha mudado, as mulheres não precisavam mais pilotar o fogão e se esmerar na cozinha, se isso não lhes agradasse.

Mas antes, “quando as senhoritas se chamavam demoiselles”, como escreveu o poeta, as mães matriculavam as filhas adolescentes, ou quando essas terminavam o Colegial ou outro similar, em cursos de culinária, onde aprenderiam o básico para não fazer feio na vida de casada. Porque o destino já estava traçado: casar, ter filhos, levar adiante o legado recebido, que depois, esperava-se, fosse transmitido às filhas. Era assim que se perpetuava o machismo, algemando as mulheres a seus afazeres, o que nem sempre era o sonhado.

Nos cursos de culinária dos anos 60 havia receitas a serem preparadas pela esposa para seu marido, com todo amor e carinho. Corria à boca pequena que “um homem se agarra pelo estômago”. Seria cômico se não fosse trágico para as que acreditavam nisso. Lá um dia se pegavam tristes, melancólicas, deprimidas sem saber por quê. Tinham marido, filhos, casa, uma cozinha completa. Faltava o quê? Era o xis da questão.

Dentro desse capítulo “como agarrar um marido”, havia vários pratos interessantes. Um deles se chamava exatamente “amarra -marido”. Toda moçoila queria aprender a fazer. O tempo passou e, um dia, aliás, no começo desse ano da graça de 2022, encontrei amiga a quem não via há tempo e não sei por que vias chegamos a esse assunto das prendas domésticas. Foi quando ela me disse que tinha visto no youtube uma culinarista explicando como fazer o quitute chamado “agarra-marido”. Essa receita tinha nome mais agressivo. A anterior usava um verbo mais terno, “amarrar” com sentido de “agradar, envolver”; este outro era quase violento: agarrar, não deixar escapar, um grude. Eita!

Interessada na experiência culinária como expressão de cultura, fui atrás dos dois termos e suas significações gastronômicas. Descobri que a versão mais recente é um bolinho frito muito enjoativo pelo excesso de açúcar, e muito calórico pelo tanto de farinha. Mas o antigo é interessante. Resolvi experimentar. Queria sentir o sabor. Gostei muito. É um quitute, digamos assim, feito com batata-doce, coco, manteiga, ovos e um pouquinho de farinha. Fica com aparência e textura de pudim. Os sabores combinam entre si e no conjunto tornam o todo suave. Recomendo a quem gosta de doces cremosos. De vez em quando a gente precisa agradar-se, preparar algo para si mesma.

Veja que as medidas são na base do pires, revelando a sua longevidade. Pires de chá, naturalmente. Descasque a batata-doce e cozinhe até ficar bem macia. Retire da água e passe pelo espremedor.  O purê obtido deve ficar bem fino. Coloque-o numa tigela e junte as gemas, uma a uma, batendo com fouet ou garfo. Em seguida acrescente o leite de coco; a manteiga; o açúcar. Misture bem. Bata as claras em neve e agregue delicadamente. Unte uma forma pequena com caramelo queimado e despeje a massa. Leve ao forno preaquecido a 180 graus. Estará pronto quando dourar. Desenforme morno.

2 COMENTÁRIOS

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  • Ana Carolina de Almeida Santana
    15/03/2022
    Sonia, a expressão \"amarrar\" usada no sentido de agradar eh bastante recente. Dessa forma, uma receita antiga que a usa como nome eh tão pouco terna e suave quanto a nomeada de agarra- marido RS. Abraços e obrigada pelas receitas e bons textos
  • Neuza
    29/03/2022
    Obrigada pela receita , vou fazer,.... fiz uma observação referente ao modo de fazer, a farinha de trigo vai nesta receita??, pois nos ingredientes consta , e no modo de fazer não consta. obrigada gostei do texto, abraços!