NOSSAS LETRAS

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Mãe é sucessão de esperas

Mãe é sucessão de esperas

Mãe espera por dois beijos do filho: um quando ele sai e outro quando retorna. Mãe espera sempre por essa volta. Leia o artigo de Sonia Machiavelli.

Mãe espera por dois beijos do filho: um quando ele sai e outro quando retorna. Mãe espera sempre por essa volta. Leia o artigo de Sonia Machiavelli.

Por Sonia Machiavelli | 07/05/2022 | Tempo de leitura: 3 min
especial para o GCN

Por Sonia Machiavelli
especial para o GCN

07/05/2022 - Tempo de leitura: 3 min

Mãe espera sempre. Espera pelo resultado do teste que vai mostrar se ela está mesmo esperando. Espera pelos primeiros movimentos dentro de seu ventre. Espera nove meses, incontida ansiedade: será que vai dar tudo certo? Espera durante as horas difíceis das contrações e as cortantes do bisturi. E quando o bebê nasce, espera aflita pela resposta: doutor, está tudo bem? A espera não se encerra aí.

A mãe espera que o coto do umbigo caia, o leite do peito seja suficiente, ela consiga amamentar. Que o bebê role o corpinho no tempo certo, o balbucio indique que busca se comunicar, o primeiro dentinho rompa.  Espera que ele sente-se firme na cadeirinha e goste da papinha. E se interroga como será quando começar a gatinhar: de quatro, de lado, de bundinha ou girando sobre o cóccix? Ao se erguer para dar os primeiros passos que não caia, mas caindo não se machuque.

Mãe espera que o filho nunca fique doente, mas se ficar espera noites a fio à beira do berço, até ele sarar. Espera pelo primeiro aniversário e prepara bolo, bala, velinha acesa para ele apagar ao som do “parabéns a você”.  Espera pelo flash que vai fixar o dedinho indicador erguido marcando o número 1. Depois esperará pelo segundo, terceiro, quarto aniversários.  Pela mão inteira espalmada a contar os cinco anos. Antes disso a mãe terá esperado pelas primeiras palavras, frases, histórias. Pelas brincadeiras. Pelo sono dele que não chegava, embora ela estivesse morta de cansaço.

Mãe espera pelo primeiro dia de aula, contando as horas: será que ele vai estranhar? Espera pelas lições que ele traz, acompanha, ajuda a resolver. E se emociona quando ele escreve o próprio nome, o dela, o do pai, o dos irmãos, se os tiver.  Espera que ele se alfabetize por completo e leia o primeiro livro. Espera pelas perguntas cheias de curiosidade. Espera quando ele sai desacompanhado pela primeira vez:  foi sozinho à casa do amigo que mora na vizinhança e está demorando tanto! Espera que ele se saia bem ao andar de bicicleta, que goste de esportes, que aprenda logo as regras da boa convivência e do respeito mútuo.

Mãe espera que o filho vá bem nas provas, passe de ano, conclua os graus, sagre-se vitorioso no vestibular. Ah! Como a mãe sofre à espera dos resultados do vestibular! Ela espera junto com o filho, muito mais ansiosa, mas disfarçando o quanto possa: “se não for dessa vez, será na próxima, ora...” Mãe espera que o filho escolha bem a sua profissão e encontre nela alegria, que conquiste amigos para guardar no peito, que tenha sonhos e lute para concretizá-los. Mãe espera que ele não tenha medo de enfrentar os obstáculos inerentes a toda existência e saiba transpor obstáculos com esperança e ética.

Mãe espera por dois beijos do filho: um quando ele sai e outro quando retorna. Mãe espera sempre por essa volta. Nas madrugadas, quando ele saiu com amigos e não disse exatamente para onde iria porque não é mais criancinha, ela espera, espera, espera. Ouve o relógio tiquetaquear, uma sirene tocar, sente o silêncio pesar. E quando escuta o barulho da chave girando na fechadura é como se ouvisse a abertura da Nona Sinfonia: só então relaxa e dorme.

Mãe espera que o filho seja livre, mas saiba usar suas asas não esquecendo as raízes. Que respeite desde cedo os limites- os seus, os dos outros. Que faça escolhas corretas, dentro da lei, do equilíbrio, da ordem, do trabalho, da consciência de que cada um deve ao mundo sua parcela de colaboração. Que, enfim, seja feliz!

Mãe espera durante toda a sua vida e de diferentes modos pelo filho. Quando, já adulto, vivendo com autonomia a constituição de uma nova família, ele lhe anuncia que ela vai ser avó, a espera recomeça do zero. Dessa vez  sem ansiedade, só mesmo doçura e esperança. 

(In Uma bolsa grená, 1999)

Mãe espera sempre. Espera pelo resultado do teste que vai mostrar se ela está mesmo esperando. Espera pelos primeiros movimentos dentro de seu ventre. Espera nove meses, incontida ansiedade: será que vai dar tudo certo? Espera durante as horas difíceis das contrações e as cortantes do bisturi. E quando o bebê nasce, espera aflita pela resposta: doutor, está tudo bem? A espera não se encerra aí.

A mãe espera que o coto do umbigo caia, o leite do peito seja suficiente, ela consiga amamentar. Que o bebê role o corpinho no tempo certo, o balbucio indique que busca se comunicar, o primeiro dentinho rompa.  Espera que ele sente-se firme na cadeirinha e goste da papinha. E se interroga como será quando começar a gatinhar: de quatro, de lado, de bundinha ou girando sobre o cóccix? Ao se erguer para dar os primeiros passos que não caia, mas caindo não se machuque.

Mãe espera que o filho nunca fique doente, mas se ficar espera noites a fio à beira do berço, até ele sarar. Espera pelo primeiro aniversário e prepara bolo, bala, velinha acesa para ele apagar ao som do “parabéns a você”.  Espera pelo flash que vai fixar o dedinho indicador erguido marcando o número 1. Depois esperará pelo segundo, terceiro, quarto aniversários.  Pela mão inteira espalmada a contar os cinco anos. Antes disso a mãe terá esperado pelas primeiras palavras, frases, histórias. Pelas brincadeiras. Pelo sono dele que não chegava, embora ela estivesse morta de cansaço.

Mãe espera pelo primeiro dia de aula, contando as horas: será que ele vai estranhar? Espera pelas lições que ele traz, acompanha, ajuda a resolver. E se emociona quando ele escreve o próprio nome, o dela, o do pai, o dos irmãos, se os tiver.  Espera que ele se alfabetize por completo e leia o primeiro livro. Espera pelas perguntas cheias de curiosidade. Espera quando ele sai desacompanhado pela primeira vez:  foi sozinho à casa do amigo que mora na vizinhança e está demorando tanto! Espera que ele se saia bem ao andar de bicicleta, que goste de esportes, que aprenda logo as regras da boa convivência e do respeito mútuo.

Mãe espera que o filho vá bem nas provas, passe de ano, conclua os graus, sagre-se vitorioso no vestibular. Ah! Como a mãe sofre à espera dos resultados do vestibular! Ela espera junto com o filho, muito mais ansiosa, mas disfarçando o quanto possa: “se não for dessa vez, será na próxima, ora...” Mãe espera que o filho escolha bem a sua profissão e encontre nela alegria, que conquiste amigos para guardar no peito, que tenha sonhos e lute para concretizá-los. Mãe espera que ele não tenha medo de enfrentar os obstáculos inerentes a toda existência e saiba transpor obstáculos com esperança e ética.

Mãe espera por dois beijos do filho: um quando ele sai e outro quando retorna. Mãe espera sempre por essa volta. Nas madrugadas, quando ele saiu com amigos e não disse exatamente para onde iria porque não é mais criancinha, ela espera, espera, espera. Ouve o relógio tiquetaquear, uma sirene tocar, sente o silêncio pesar. E quando escuta o barulho da chave girando na fechadura é como se ouvisse a abertura da Nona Sinfonia: só então relaxa e dorme.

Mãe espera que o filho seja livre, mas saiba usar suas asas não esquecendo as raízes. Que respeite desde cedo os limites- os seus, os dos outros. Que faça escolhas corretas, dentro da lei, do equilíbrio, da ordem, do trabalho, da consciência de que cada um deve ao mundo sua parcela de colaboração. Que, enfim, seja feliz!

Mãe espera durante toda a sua vida e de diferentes modos pelo filho. Quando, já adulto, vivendo com autonomia a constituição de uma nova família, ele lhe anuncia que ela vai ser avó, a espera recomeça do zero. Dessa vez  sem ansiedade, só mesmo doçura e esperança. 

(In Uma bolsa grená, 1999)

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