NOSSAS LETRAS

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Amor de mãe num copo de Covid

Amor de mãe num copo de Covid

Parabéns a todas as mães por esse dia lindo que dizem ser o delas, por convenção. Amor de mãe a gente celebra todo dia. Leia a crônica de Baltazar Gonçalves.

Parabéns a todas as mães por esse dia lindo que dizem ser o delas, por convenção. Amor de mãe a gente celebra todo dia. Leia a crônica de Baltazar Gonçalves.

Por Baltazar Gonçalves | 07/05/2022 | Tempo de leitura: 4 min
especial para o GCN

Por Baltazar Gonçalves
especial para o GCN

07/05/2022 - Tempo de leitura: 4 min

Parabéns a todas as mães por esse dia lindo que dizem ser o delas, por convenção. Amor de mãe a gente celebra todo dia. Alguém repetiu o que todos repetem por convenção, mãe é puro amor, tudo de bom que o universo concebe.

Entre pensar e sentir há um caminho longo, palavras são insuficientes. Seja como for, quando uma mulher dá à luz terá dilemas existências mais profundos nem sempre conciliáveis como antes. Penso nas mães relegadas, também por convenção, à margem do sinuoso que é o viver e nas trilhas de dor e lágrima por elas deixadas.

Mulheres que não queriam e não querem seus filhos porque precisam de ajuda para amarem a si mesmas antes de dar à luz o semelhante; mulheres vítimas de abuso que amamentaram “aquilo” que entendiam ser deformação; mulheres apedrejadas depois do aborto e a falta eterna da vida interrompida; mulheres que desistiram dos filhos mergulhadas na depressão; as amorosas infelizes que vivem em segunda união penando a burocracia da nulidade do matrimônio pela Igreja dogmática; mães que as circunstâncias da vida arrasaram de assaltou no espanto de ver seus filhos presos em cadeias e penitenciárias. Mães sem paz, mães dos filhos perdidos para a pandemia: eis o tema dessa crônica surgindo incolor como amor de mãe num copo de covid.

Esse dia 8 de maio flutua insólito esperançoso no calendário de 2022, basta o luto de uma para que todas as mães sintam o coração petrificado. Ser mãe é padecer no paraíso, o luto tem a proporção da impotência.

O que estamos vivenciando é singular, nada será igual depois. A matéria se transforma no limite das suas propriedades. Também a palavra. O país desgovernado sob a égide da polaridade sem direção sucumbe ao poder genocida. Com riqueza de detalhes, no exagero dos elementos rebuscados quase sempre extravagantes, o jogo dos contrastes é paralisante. Nesse Dia das Mães, meu sorriso de palhaço não é metáfora. Nem inversão ou hipérbole ou paradoxo. Sendo antítese, a natureza do labirinto é barroca e meu lamento soa fora de lugar, como aceno de mãos vazias para as mães que restaram sem despedida.

Apesar de tudo, a esperança ultrapassa nossa incapacidade. As curvas que faço em torno dos temas que toco são labirintos sinuosos, trilhas encobertas por matas que dão em rios igualmente sinuosos porque deslizam. Recebi de uma afilhada o ultrassom do seu primeiro filho. Na tela, a impressão difusa da vida é menor que meu dedo indicador. Aqueles três centímetros de diâmetro é a cabecinha, a batida forte do coração minúsculo dá mais volume à risada do pai.

O amor recompõe o quadro geral, a gestação que transforma a mulher em mãe também transforma seu companheiro. Sabemos que sendo paciente o amor é bondoso, não inveja, não se vangloria, não se orgulha, não maltrata, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas com a verdade. Tudo sofre, crê e espera. O amor tudo suporta.

Amor de mãe 
Além do véu, de todo azul. Amor de mãe são as mãos de Maya e os olhos de Iansã. É braço de mar para o pescador, é abraço de léguas oceano. Amor de mãe é balanço do pêndulo para o silêncio, é estandarte da alegria. Amor de mãe é faísca luzidia no profundo escuro da noite. Incondicional, plácido, cândido - amor de mãe sempre luzia rio de estrelas. Amor de mãe é bandeira que veste o exilado. É pátria do órfão esquecido. Amor de mãe são pétalas de rosa em versos de rimas nobres. Via láctea de poesia, o amor de mãe aquece e nos transforma para o novo de cada dia.

Quem é minha mãe? 
Nessa passagem do evangelho particularmente forte, sentimos o desejo de fazer parte da comitiva que acompanhava o Mestre. Sua permanência entre os homens parece ter sido uma festa e aqui o encontramos durante uma refeição, de certo que simples, o pão está na mesa e uma multidão espera sua vez na fila. Mas nem todos participarão da ceia, aqueles que estão do lado serão anunciados e talvez tomem lugar à mesa. Nossa surpresa é saber que a mulher que gerou a vida de Jesus aguarda permissão, Maria. É natural que se pense algum privilégio, afinal mãe é mãe. Para nosso assombro o Mestre devolve o anunciado com a pergunta incômoda: Quem é minha mãe? Certamente está fora de si quem não reconhece a própria mãe e esse foi o diagnóstico a que chegaram rapidamente quem o ouviu. Acredito que a reação de qualquer pessoa não poderia ser diferente. Quem é sua mãe? Você a reconheceria de olhos fechados no meio de uma multidão? Quem é sua mãe? Ela estaria do seu lado quando todos já o tivessem abandonado? O Mestre que nunca escreveu uma palavra, mas é lembrado por todo mundo nos convida a uma reflexão profunda, e chegaríamos mesmo a nos perguntar: Esse é um bom filho? Oportunamente a conclusão do episódio não nos permite saber se alcançaram o almejado quem estava excluído. Ao invés disso ecoam as palavras proferidas por Jesus que nos permitem algum alívio: Quem fizer a vontade do Inominável Onipotente Amor será minha mãe.

Parabéns a todas as mães por esse dia lindo que dizem ser o delas, por convenção. Amor de mãe a gente celebra todo dia. Alguém repetiu o que todos repetem por convenção, mãe é puro amor, tudo de bom que o universo concebe.

Entre pensar e sentir há um caminho longo, palavras são insuficientes. Seja como for, quando uma mulher dá à luz terá dilemas existências mais profundos nem sempre conciliáveis como antes. Penso nas mães relegadas, também por convenção, à margem do sinuoso que é o viver e nas trilhas de dor e lágrima por elas deixadas.

Mulheres que não queriam e não querem seus filhos porque precisam de ajuda para amarem a si mesmas antes de dar à luz o semelhante; mulheres vítimas de abuso que amamentaram “aquilo” que entendiam ser deformação; mulheres apedrejadas depois do aborto e a falta eterna da vida interrompida; mulheres que desistiram dos filhos mergulhadas na depressão; as amorosas infelizes que vivem em segunda união penando a burocracia da nulidade do matrimônio pela Igreja dogmática; mães que as circunstâncias da vida arrasaram de assaltou no espanto de ver seus filhos presos em cadeias e penitenciárias. Mães sem paz, mães dos filhos perdidos para a pandemia: eis o tema dessa crônica surgindo incolor como amor de mãe num copo de covid.

Esse dia 8 de maio flutua insólito esperançoso no calendário de 2022, basta o luto de uma para que todas as mães sintam o coração petrificado. Ser mãe é padecer no paraíso, o luto tem a proporção da impotência.

O que estamos vivenciando é singular, nada será igual depois. A matéria se transforma no limite das suas propriedades. Também a palavra. O país desgovernado sob a égide da polaridade sem direção sucumbe ao poder genocida. Com riqueza de detalhes, no exagero dos elementos rebuscados quase sempre extravagantes, o jogo dos contrastes é paralisante. Nesse Dia das Mães, meu sorriso de palhaço não é metáfora. Nem inversão ou hipérbole ou paradoxo. Sendo antítese, a natureza do labirinto é barroca e meu lamento soa fora de lugar, como aceno de mãos vazias para as mães que restaram sem despedida.

Apesar de tudo, a esperança ultrapassa nossa incapacidade. As curvas que faço em torno dos temas que toco são labirintos sinuosos, trilhas encobertas por matas que dão em rios igualmente sinuosos porque deslizam. Recebi de uma afilhada o ultrassom do seu primeiro filho. Na tela, a impressão difusa da vida é menor que meu dedo indicador. Aqueles três centímetros de diâmetro é a cabecinha, a batida forte do coração minúsculo dá mais volume à risada do pai.

O amor recompõe o quadro geral, a gestação que transforma a mulher em mãe também transforma seu companheiro. Sabemos que sendo paciente o amor é bondoso, não inveja, não se vangloria, não se orgulha, não maltrata, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas com a verdade. Tudo sofre, crê e espera. O amor tudo suporta.

Amor de mãe 
Além do véu, de todo azul. Amor de mãe são as mãos de Maya e os olhos de Iansã. É braço de mar para o pescador, é abraço de léguas oceano. Amor de mãe é balanço do pêndulo para o silêncio, é estandarte da alegria. Amor de mãe é faísca luzidia no profundo escuro da noite. Incondicional, plácido, cândido - amor de mãe sempre luzia rio de estrelas. Amor de mãe é bandeira que veste o exilado. É pátria do órfão esquecido. Amor de mãe são pétalas de rosa em versos de rimas nobres. Via láctea de poesia, o amor de mãe aquece e nos transforma para o novo de cada dia.

Quem é minha mãe? 
Nessa passagem do evangelho particularmente forte, sentimos o desejo de fazer parte da comitiva que acompanhava o Mestre. Sua permanência entre os homens parece ter sido uma festa e aqui o encontramos durante uma refeição, de certo que simples, o pão está na mesa e uma multidão espera sua vez na fila. Mas nem todos participarão da ceia, aqueles que estão do lado serão anunciados e talvez tomem lugar à mesa. Nossa surpresa é saber que a mulher que gerou a vida de Jesus aguarda permissão, Maria. É natural que se pense algum privilégio, afinal mãe é mãe. Para nosso assombro o Mestre devolve o anunciado com a pergunta incômoda: Quem é minha mãe? Certamente está fora de si quem não reconhece a própria mãe e esse foi o diagnóstico a que chegaram rapidamente quem o ouviu. Acredito que a reação de qualquer pessoa não poderia ser diferente. Quem é sua mãe? Você a reconheceria de olhos fechados no meio de uma multidão? Quem é sua mãe? Ela estaria do seu lado quando todos já o tivessem abandonado? O Mestre que nunca escreveu uma palavra, mas é lembrado por todo mundo nos convida a uma reflexão profunda, e chegaríamos mesmo a nos perguntar: Esse é um bom filho? Oportunamente a conclusão do episódio não nos permite saber se alcançaram o almejado quem estava excluído. Ao invés disso ecoam as palavras proferidas por Jesus que nos permitem algum alívio: Quem fizer a vontade do Inominável Onipotente Amor será minha mãe.

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