NOSSAS LETRAS

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Relembranças

Relembranças

Nos instantes que antecedem sua morte o moribundo reveria (...) o filme que reproduz a história de sua vida. Nos mínimos detalhes. Leia a crônica de Lúcia Brigagão.

Nos instantes que antecedem sua morte o moribundo reveria (...) o filme que reproduz a história de sua vida. Nos mínimos detalhes. Leia a crônica de Lúcia Brigagão.

Por Lúcia Brigagão | 07/05/2022 | Tempo de leitura: 3 min
especial para o GCN

Por Lúcia Brigagão
especial para o GCN

07/05/2022 - Tempo de leitura: 3 min

Nos instantes que antecedem sua morte o moribundo reveria, como se fosse numa tela e com projeção acelerada, o filme que reproduz a história de sua vida. Nos mínimos detalhes. Voltariam à lembrança, e em ordem cronológica, situações vividas e experimentadas. Amores, desamores, desafetos, coisas boas e coisas más, boas e más ações, belos e feios feitos. Sem truques na edição e em ordem cronológica. Relatam tal experiência aqueles que foram embora, mas voltaram à vida. Seria esse o momento ideal de acertar contas talvez com Deus, quem sabe com ele mesmo, concluir se viveu bem ou mal, se sua vida fez diferença ou não, se ele valeu a pena ou foi apenas mais um, na multidão.

Treinos para essa magnífica produção cinematográfica individual, a vida e o cotidiano favorecem situações nas quais ocorrem experiências que provocam sensações semelhantes. Cada pessoa tem sua particular e peculiar lista, mas são comuns desencadeadores de recordações coisas como objetos guardados, quase escondidos, subitamente encontrados num canto do armário, na gaveta do criado mudo, na caixa sobre o guarda-roupas. Vestidos ainda com resquício de perfume quer seja pendurados quer dentro da mala que não serve mais para viagens, como que esperando serem transportados para seu destino final. Roupas que os filhos usaram quando bebês; folhas de árvore ou flores secas guardadas entre as páginas do livro lido há muito tempo, fotografias que congelam um instante precioso e sorrisos de gente que nem ri mais.  O cheiro de alguma comida ou perfume no ar, o gosto de alguma comida. Na verdade, paladar, olfato, tato, visão, audição se mobilizam separada ou conjuntamente para trazer lembranças boas ou más, não importa. Momentos significativos.

Volta e meia o acaso promove encontros entre pessoas. Ao cruzar a rua, entrar ou sair de algum recinto eis que se fica frente a frente com amigos que se afastaram; familiares consanguíneos ou por afinidade que se tornaram distantes; professores que nos marcaram momentos importantes; vizinhos que se mudaram e nunca mais foram vistos; ex-alunos que inacreditavelmente cresceram, estudaram, se tornaram adultos e profissionais reconhecidos; ex-funcionários que participaram de nossa intimidade. Pessoas inesquecíveis, pois que marcaram nossa vida com doçura, ou a ferro. Ou fogo.

Todavia nada se compara ao fortuito encontro entre pessoas que se amaram desesperadamente e que, sabe-se lá por que motivos, se separaram. Se o amor se esgotou, resta incômoda lembrança, mesmo que boa. Se há resquícios da antiga paixão, o encontro pode provocar desastre, pois nessa hora ambos sentem como se tivessem levado belo safanão, além da extra-sístole e da "bambeira" nas pernas que, se ocorrem separadamente provocam arrepios de prazer ou desconforto. Juntas podem levar ao orgasmo ou ao enfarte, a depender do tipo de recordação que evocam. Tais reencontros e decorrentes emoções costumam render lindos sambas-canções, tangos, baladas sertanejas e pungentes valsas. Renovam sentimentos e ressentimentos, aceleram o coração, despertam recordações e lembranças. Tirá-las do fundo do armário faz desabrochar lembranças e sabor de grandes momentos vividos no passado, além de trazer de volta situações que nos temperaram a vida.

Talvez se possa dizer que nessas oportunidades produzimos curtas metragens que talvez sejam treino para a produção daquele grande filme, aquele da hora da nossa morte. Talvez a natureza nos prepare com estes encontros para experimentarmos ser protagonistas e ao mesmo tempo espectadores do nosso maior particular espetáculo.

Nos instantes que antecedem sua morte o moribundo reveria, como se fosse numa tela e com projeção acelerada, o filme que reproduz a história de sua vida. Nos mínimos detalhes. Voltariam à lembrança, e em ordem cronológica, situações vividas e experimentadas. Amores, desamores, desafetos, coisas boas e coisas más, boas e más ações, belos e feios feitos. Sem truques na edição e em ordem cronológica. Relatam tal experiência aqueles que foram embora, mas voltaram à vida. Seria esse o momento ideal de acertar contas talvez com Deus, quem sabe com ele mesmo, concluir se viveu bem ou mal, se sua vida fez diferença ou não, se ele valeu a pena ou foi apenas mais um, na multidão.

Treinos para essa magnífica produção cinematográfica individual, a vida e o cotidiano favorecem situações nas quais ocorrem experiências que provocam sensações semelhantes. Cada pessoa tem sua particular e peculiar lista, mas são comuns desencadeadores de recordações coisas como objetos guardados, quase escondidos, subitamente encontrados num canto do armário, na gaveta do criado mudo, na caixa sobre o guarda-roupas. Vestidos ainda com resquício de perfume quer seja pendurados quer dentro da mala que não serve mais para viagens, como que esperando serem transportados para seu destino final. Roupas que os filhos usaram quando bebês; folhas de árvore ou flores secas guardadas entre as páginas do livro lido há muito tempo, fotografias que congelam um instante precioso e sorrisos de gente que nem ri mais.  O cheiro de alguma comida ou perfume no ar, o gosto de alguma comida. Na verdade, paladar, olfato, tato, visão, audição se mobilizam separada ou conjuntamente para trazer lembranças boas ou más, não importa. Momentos significativos.

Volta e meia o acaso promove encontros entre pessoas. Ao cruzar a rua, entrar ou sair de algum recinto eis que se fica frente a frente com amigos que se afastaram; familiares consanguíneos ou por afinidade que se tornaram distantes; professores que nos marcaram momentos importantes; vizinhos que se mudaram e nunca mais foram vistos; ex-alunos que inacreditavelmente cresceram, estudaram, se tornaram adultos e profissionais reconhecidos; ex-funcionários que participaram de nossa intimidade. Pessoas inesquecíveis, pois que marcaram nossa vida com doçura, ou a ferro. Ou fogo.

Todavia nada se compara ao fortuito encontro entre pessoas que se amaram desesperadamente e que, sabe-se lá por que motivos, se separaram. Se o amor se esgotou, resta incômoda lembrança, mesmo que boa. Se há resquícios da antiga paixão, o encontro pode provocar desastre, pois nessa hora ambos sentem como se tivessem levado belo safanão, além da extra-sístole e da "bambeira" nas pernas que, se ocorrem separadamente provocam arrepios de prazer ou desconforto. Juntas podem levar ao orgasmo ou ao enfarte, a depender do tipo de recordação que evocam. Tais reencontros e decorrentes emoções costumam render lindos sambas-canções, tangos, baladas sertanejas e pungentes valsas. Renovam sentimentos e ressentimentos, aceleram o coração, despertam recordações e lembranças. Tirá-las do fundo do armário faz desabrochar lembranças e sabor de grandes momentos vividos no passado, além de trazer de volta situações que nos temperaram a vida.

Talvez se possa dizer que nessas oportunidades produzimos curtas metragens que talvez sejam treino para a produção daquele grande filme, aquele da hora da nossa morte. Talvez a natureza nos prepare com estes encontros para experimentarmos ser protagonistas e ao mesmo tempo espectadores do nosso maior particular espetáculo.

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